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99 anos de memória, 5 frascos de estricnina e um poeta em agonia: Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-CarneiroMário de Sá-Carneiro nascido em Lisboa a 19 de maio de 1890 foi, juntamente com Fernando Pessoa e Almada Negreiros um dos representantes máximos da literatura modernista portuguesa. Iniciou os estudos em Direito, na cidade de Coimbra, tendo posteriormente partido para Paris em 1912 a fim de concluir o curso, intenção nunca alcançada por provável culpa da boêmia e os conflitos d’alma.
Desde 1908 que, reivindicando-se como ficcionista, publica 8 contos na revista Azulejos. Em 1909 escreveu a peça Amizade em parceria com Tomás Cabreira Júnior, cujo suicídio nas escadarias do Liceu 8 de janeiro, marcaria profundamente Mário de Sá-Carneiro, principalmente no que diz respeito à sua obsessão pelo suicídio. Impressionado pela tragédia, homenageou o amigo dedicando-lhe o poema A Um Suicida:

“Foi triste, muito triste, amigo a tua sorte
Mais triste do que a minha e mal aventurada
… Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte,
E, há tantos como eu que não alcançam nada…”

Entre os anos 1912/13 nasce nele o poeta influenciado pelas correntes do ciclo modernista, no qual foi introduzido por Fernando Pessoa. Inicialmente, reage com desconfiança e certo cepticismo às correntes como surrealismo, cubismo, expressionismo, futurismo, mas será o sensacionismo a marca mais profunda de sua obra.
Interessou-se também pelo teatro, frequentador desde muito cedo das salas de espectáculos lisboetas, em Paris assistiu a inúmeras peças e sabe-se que fora também assinante da revista francesa Comoedia. Mas apesar do desejo de Sá-Carneiro em renovar o teatro português, explicitado num polémico artigo publicado em 1913 no jornal O rebate, texto este intitulado O teatro-arte.apontamentos, não conseguiu ele próprio ultrapassar os modelos naturalistas, produzindo um teatro de tese que censurava a moral burguesa.
Será na poesia e na ficção que Sá-Carneiro deixará a sua marca, seja ela do desolado confessionalismo e niilismo de Caranguejola à publicação em 1914 de Céu de Fogo e A Confissão de Lúcio, este último apresentando um narrador e o seu estranhamento ao ser introduzido em situações onde imperam o onirismo, erotismo e o fantástico, associados aos temas do desdobramento e autodestruição do eu.
Em 1915, surge a revista Orpheu, financiada por seu pai, que causou choque e discussões acaloradas para a época, cuja escrita associada às correntes vanguardista levou seus expoentes a serem identificados como “loucos”. Só muito mais tarde é que a revista obteve o devido reconhecimento. O poema publicado por Sá-Carneiro no primeiro número, mostra a sua adesão ao paulismo e sensacionismo, onde marcadamente o conflito do eu, a frustração e insatisfação tomam forma e que acompanha toda sua obra como no conhecido:

“Eu não sou eu e nem o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte do tédio
Que vai de mim para o Outro”

No segundo número, o texto Manucure revela a sua incursão pela vanguarda futurista, mas o maior contributo para o entendimento do pensamento de Sá-Carneiro é, ainda, o sensacionismo, a agonia, o idealismo, o seu sem jeito para viver, questões presentes nas 217 cartas e postais escritos para o amigo Fernando Pessoa. É nelas que encontramos os seus tormentos, a sua falta de dinheiro, os inúmeros pedidos feitos para análise ou resolução de problemas que o afligiam, muitas vezes feitos em tons imploratórios:

“E mais uma vez perdão pelas minhas contínuas estopadas e, mais uma vez mil súplicas para que me diga o que pensa dos versos que hoje lhe envio e que escreva o mais brevemente o mais longamente que lhe for possível”

E é por carta que anuncia o adeus ao amigo, tendo como pano de fundo o leitmotiv de quase toda a sua obra: o vazio impreenchível da vida, aliado à sua obsessão pelo suicídio, inquieta sexualidade e solidão, o ato anunciado se consuma a 26 de abril de 1916, feito com 5 frascos de estricnina e devidamente trajado de smoking.

“Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar
Na ânsia de ultrapassar
Não dei pela minha vida…”

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