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Alberto Pimenta entre quilômetros e mais quilômetros de praia de papel | Morgana Rech (Rio de Janeiro, RJ, Brasil)

Ainda hoje quando ando pela praia do Flamengo penso que o Alberto Pimenta poderia muito bem aparecer ali, sentar em um banquinho, de lado, suspirar bem fundo e me dizer que é preciso, é muito preciso urgentemente ir embora, que o banquinho e a paisagem e a própria poesia tudo isso é muito bonito, mas há mais o que fazer nesta vida. Que é preciso encarar as linhas de nossas mãos, que é preciso encarar a realidade e que o coração é pequeno demais para aguentar uma beleza tão grande quanto a sua praia de papel que quer ser urgentemente escrita a toda a hora.

Tenho certeza que se o Alberto Pimenta aparecesse na mureta da Urca, ia me explicar corretamente e mais uma vez o que é uma estratégia da inexistência. O Alberto Pimenta que não existe, que é um estranho no ninho literário de Portugal, permaneceria interseccionado para sempre em quilômetros e mais quilômetros das montanhas da Urca se estivesse em solo brasileiro e se fixaria como pedras de conteúdo puramente humano e incansável. O seu conhecimento sobre tudo e sobre todos poria certamente os militares da Urca em fila, ávidos por uma boa leitura bem entoada de “A evocação do chimpanzé”. Burlariam o preparo físico, no primeiro horário da manhã, para entender melhor os títulos dos mais de cinquenta livros que o Alberto Pimenta inventou. Sentariam em perna de índio e levantariam o dedo, perguntando: “Por que O Silêncio dos Poetas?”, “E O Labirintodonte, seu Alberto, é um bicho? Tem no Brasil?”, “A magia que tira os pecados do mundo.. tira mesmo?”

O Alberto Pimenta se divertiria muito.

Alberto Pimenta que escreve coisas como “numa sexta-feira treze ao meditar no irremediável empobrecimento da poesia caiu-me a alma aos pés”. Pois a alma do Alberto Pimenta está em toda a sua volta, está na cabeça de todos, embora não fique exatamente claro. Nos alunos alemães que ensinou durante longos dezesseis anos, em 1970, com os grandes olhos do grande poder a lhe empurrar cada vez mais para o Norte, que fique bem no Norte, afastado de tudo e de todos, esse tal de Alberto Pimenta, vê se eu posso com isso. Que aprenda outra língua, que vá abrir a boca para longe, que viaje por aí, escondido, como calhar. O que é mais uma língua para um gênio? Que vá pró inferno o Alberto Pimenta, eu quero lá saber desse gajo.

Mas o Alberto Pimenta voltou e não quis saber de pequenices. Foi-lhe de novo permitido ter as chaves de sua própria casa de sua própria alma. Voltou um pouco mais chateado do que o normal. Quis conhecer o verdadeiro chimpanzé, enjaulou-se, sentiu a própria prisão nos olhos dos outros. Os outros que já não eram o poder, mas os leitores do poder, que já não o compreenderam tão bem. O Alberto Pimenta que poderia estar hoje num filme, passando pelas salas do Rio de Janeiro e de Lisboa e de Heidelberg, fazendo macaquices de papel entre tudo o que você precisa saber para conhecer minimamente a literatura toda. Fazendo macaquices para você entender finalmente que precisa tanto da arte como ela de você.

Então houve sempre uma grade a separar o Alberto Pimenta do leitor, que o achou estranho, assim, preso, atrás de uma grade de um zoológico. Mas que o quis ali, que achou que Alberto Pimenta combinou com a situação. Uma situação desconhecida fica sempre muito bem ali. Porque para ser preso, Alberto Pimenta precisou ficar um pouco ainda mais preso. Precisou conhecer mais da sua própria estranheza, sofreu mais que o chimpanzé, que olhou para ele com um pingo de piedade. Alberto Pimenta, em troca, escreveu o sofrimento do chimpanzé como nunca. Transformou em quilômetros e mais quilômetros de muretas de papel e montanhas escritas o estranho que já não pôde enxergar nos olhos do seu semelhante.

Alberto Pimenta estava em Portugal, onde tem a sua casa, a sua pátria, onde vive até hoje e sofre com o calor seco das tardes de Lisboa, onde encontra poucos lugares para repousar.

 *

Pela frente de Alberto Pimenta, que está sentado num banquinho de todas as praias portuguesas, passa uma pequena multidão. Levam bandeiras e orgulhos para a frente e avante. Uma mulher olha no fundo dos olhos do Alberto Pimenta, ele permanece petrificado. A mulher olha para cima, quer mostrar o seu mastro, orgulhosa. O olhar de Alberto Pimenta percorre as suas belas mãos finas que vão dar em um cabo de madeira claro e rígido como a sensualidade que escreveu em outros quilômetros e mais quilômetros de praia de papel poética que dão um frio na espinha de quem lê. Após vinte centímetros de cilindro, um pedaço de cartolina avisa:

“Pelo partido dos animais”

Rola uma lágrima pelo rosto de Alberto Pimenta. E num guardanapo, ele escreve: “O labirinto dos vis e desvaneci dos bens que pode gozar a criatura quando se estriba em tão fraco fundamento quanto é a carne que se desvanece como o fumo e declina como a sombra”.

*

O carteiro bate à porta de Alberto Pimenta. Ele abre os olhos e, a cada dia, a cada metro de papel recebido, chega um pouco mais perto dos quilômetros e mais quilômetros de montanhas de papel que enfim o libertarão.


MORGANA RECH trabalha entre a literatura e a psicanálise. Escreveu a primeira dissertação acadêmica feita em Portugal sobre Alberto Pimenta. Está tentando fazer da Revista Subversa um ambiente literário digno.

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2 Comentários

  1. Fabiweykamp 18 de outubro de 2017 em 04:02

    Nossa, Morgana, que texto! Que texto!

    • Subversa 18 de outubro de 2017 em 10:10

      obrigada, querida!

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