Subversa

A Besta | Eber S. Chaves (Vitória da Conquista, BA, Brasil)

Ilustração (Nanquim e hidrocor): Raysa Ricco Pavão

Ilustração (Nanquim e hidrocor): Raysa Ricco Pavão


Horripilante! Há uma criatura devorando cada pedaço de beleza e todos eles a nutrem. Uma máscara sem face escondendo o semblante que insulta a formosura. Pobre diabo escrava de instintos sanguinários rastejando-se sob o véu da noite. De todos os predadores deste mundo, essa criatura é a de pior reputação. Não foi por vontade própria que conheci a sua incrível habilidade assassina seguida por uma igualmente impressionante capacidade de consumir carne. Olhos vermelhos flamejando na escuridão e a insanidade está começando a despertar seu desejo por sangue. Entre as sombras, camuflada pela escuridão e pelo silêncio, observa a sua vítima, planejando sua morte. A ingênua vítima caminha meditativa pensando estar debaixo de alguma proteção divina. E vem o bote. Vê-se o movimento de ataque. Um único golpe. O ventre da vítima sente um toque frio e cortante. Pedaços de carnes dilacerados pelas enormes garras são arremessados no ar, mas nenhum será desperdiçado; uma vez que há algo ainda mais aterrorizante do que aquelas garras – as várias linhas de dentes serrilhados e afiados fechando-se na mordida. Imagine a criatura subindo com as garras e dentes serrilhados até estar no topo, enquanto aguarda a sua vítima ir enfraquecendo pelas feridas para, então, comê-la a sangue frio. Qualquer um que se deparar com essa criatura terá uma experiência angustiante; mas, apesar disso, a melhor alternativa é ficar parado e resistir ao impulso de correr. Uma vítima correndo representa uma ameaça menor do que aquela que está pronta para lutar por sua vida.

***

Na noite em que minhas memorias perfeitas caíram como o orvalho, e meus olhos não esconderam suas lágrimas, desapareci na escuridão, escondido dos olhos de Deus, em busca do coração atrofiado pelo tempo. Havia uma mão assassina nessa escuridão tentando me alcançar, e eu não conseguia escapar dela. Quando começou essa carnificina eu não sei – talvez a criatura venha caçando pela Terra desde a própria origem da vida; ou o nosso planeta um dia foi um Jardim do Éden, onde ela vivia em meio a outras espécies e com elas tinha uma convivência pacífica.

– Ó tolo, por que julgas o que não conhece? Não sabes que nem sempre fui esta pobre criatura que agora te espreita na calada da noite?

Ah, quão infeliz visão me aflige! Vejo na escuridão a criatura bestial cujos dentes serrilhados banham-se no sangue de impiedosos, homicidas e inocentes – e sou testemunha de que a violência enfeitiça o mais puro; eu vi quando lhe disseram: “Vai! E coma bastante carne”. Uma pessoa até pode causar a própria morte antes da hora planejada de morrer, mas acredito fielmente que ninguém nasce se não tem de nascer e isso me fez perguntar a mim mesmo: teria ela atentado contra própria vida ainda na fase uterina? Sua vontade de não existir nessa vida era suficiente para ela pensar que não tinha de nascer? Havia melancolia como se ela houvesse nascido por sua própria imprudência ou insuficiência e agora estivesse pagando um preço condizente com algo que não era para ser. Sua vida soou como sinônimo de castigo.

– Criatura, você está viva. Se não era para ter nascido, nasceu! Já que nasceu, cumpra seu destino de vida e não seu destino de morte; seu destino de viver e não o de morrer. Existem questões que não nos cabe pelo absurdo e insólito que se mostram.

– Mas nenhuma pessoa ao agir livremente poderá eximir-se da responsabilidade de seu comportamento.

– Mas, ao que parece, você não dispõe de liberdade de escolha.

– Ou eu venço a vontade e o dever através da inibição dos impulsos, ou vencem os impulsos através da anulação da minha consciência.

– Há quem acredite em flagelo libertador, no chicote, no sofrimento, na punição, no castigo. A escolha é sua.

– Humano tolo, eu não sou merecedora do perdão divino. A minha sede por sangue é inesgotável, e os meus métodos são cruéis. Todas minhas vítimas sofreram uma morte horrível. Eu cravo meus dentes serrilhados no pescoço fazendo o sangue jorrar. Espero cessarem as batidas do coração; sob o peito ensanguentado, o pano é enrolado imediatamente no local dilacerado e o seu conteúdo repassado para dentro de um saco plástico etiquetado, constituindo uma unidade amostral.  Não posso negar que nesse momento eu queria apenas ser um espírito puro – tu sabes disso, e quanto mais sabe mais me condena. Sei que agora estás farto de mim. Estás realmente desistindo de mim. Tu finalmente tiveste o suficiente, mas ninguém parece se importar. Ninguém desconfia que atrás deste rosto haja uma memória corroída, aprisionada sob uma máscara.

– Criatura que se esconde nas sombras, o luto é o protótipo das depressões, que me levam ao isolamento social e a alterações dos ritmos circadianos. Mas se você vem ao meu encontro esta noite, certamente, partirá deste mundo.

– Maldito humano! Quero que saibas que sou uma cicatriz na tua alma. Sou uma fissura e tudo está feito, não há volta.

– Vem pobre criatura, e eu te receberei em minha casa e quebrarei e depois restaurarei tuas asas. Enfiarei minha lâmina afiada em tua pele enquanto te abraço. O sangue irá jorrar em minhas mãos e as minha lâmina trará a mim um pedaço da tua carne. E tu não mais existirás. Não há sonhos na sepultura.

 – Eu já estou bem perto de ti, tolo, a um passe do ataque fatal, mas há algo de errado em mim hoje; algo que me impede de fazer o que manda a minha natureza de criatura bestial.

– Morda minha pele e células, mas você não pode comer meu mais profundo interior.

– Você sabe o que lágrimas fazem? Dê-me o seu interior. Dê-me esse seu falso coração.

Longos gritos vêm das dores da morte. As garras cortantes estão brilhando claramente. A respiração obscena continua quebrando o silêncio da noite. Gotas vermelhas sobre meus lábios gananciosos caem no chão congelado. O instinto que sofreu intensivamente, agora é tingido pelo sangue fresco. A criatura está gritando e eu não consigo parar de gritar. Eu a abençoei e bebi o seu sangue cuspindo para fora a miséria que havia em mim. Ela bateu suas garras para sentir alguma coisa, queria saber qual é a sensação de tocar e sentir algo de mim. Eu vi a criatura cair dentro da cova que ela mesma cavou, e de onde não mais sairá. Ó Criatura, você selou sua morte quando tomou o que já foi meu. Não tente me parar de vingar este mundo. Fuja agora com a angustia para debaixo da terra, tentando se esconder do que rasteja e desliza e dilacera. Criatura, se tu já viste meu sorriso, saberás o quanto me desfaleço por dentro. Descanse em paz. Mesmo morta, me enches de temor e pena. Você me disse que eu não poderia passar para debaixo da terra sem cumprir alguma coisa. Eras extremamente agitada pelo peso da própria culpa maligna que ninguém podia descobrir, e agora estás inerte e serena. Que tua alma encontre o teu Criador. Eu agora estou coletando suas vítimas, e elas estão ficando mais fortes. Escondo dentro de mim a besta sombria como a noite, com seu coração frio e morto por um desejo de pecado. Se eu a deixar sair, o mundo entrará em prantos.


EBER CHAVES (Itaquara, 1979) reside em Vitória da Conquista/BA. Poeta e blogueiro, é frequentador assíduo de grupos de estudos em psicanálise e filosofia. Tem grande interesse em poesia, literatura fantástica, história e cosmologia. Amante da natureza. Fã de heavy metal. E apreciador de cervejas especiais e feijoada. EBER.CHAVES79@GMAIL.COM | Blog: http://eber-chaves.blogspot.com.br/

Marcado com:

Sobre o Autor

Artigos Relacionados

1 Comentário

  1. Izzy Alvarenga 19 de abril de 2017 em 00:07

    Adoreii o blog, estão de parabens!

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367