Subversa

A Curva | Alexandre Costa (Lisboa, Portugal)


Tudo mudou no dia em que Jedrek, a bordo de um autocarro que fazia a ligação de Brno a Praga, acabou com a própria vida. Eu encontrava-me num rotineiro assento, fazia uma viagem rodeado de checos, sentia a árida sensação de ser um corpo estranho. Se nos centros da cidade tudo fervilhava de vida e de intensidade, fotografias e chapéus de palha, a bordo daquele autocarro a vida era um bocejo colectivo. Nenhum ímpeto voyeurístico sacudia as cabeças do recosto, a paisagem que corria no vidro era a de muitas outras viagens.

Também eu me encontrava no limbo da sonolência consciente, a cabeça pousada no vidro, quando um estrondo subverteu a monotonia da viagem. Com o coração a mil, abri os olhos e vi pedaços de carne esbranquiçada a escorrer pela vidraça diante mim, um corpo morto abatido por entre a fresta dos bancos. Simultaneamente, o habitáculo do autocarro deslizava estrada fora numa chiadeira imensa, gritos colectivos a serem arrastados e direita, direita, direita, corpos arrastados como plástico ao vento e um despiste.

Tudo isto se passou a um ritmo lentíssimo. Tenho presentes as imagens como fragmentos nítidos. Os acontecimentos tiveram lugar sem se colocarem diante uns dos outros, vejo-os detalhadamente. A custo, arrastei-me para fora do autocarro. As pessoas empurravam-se, gritavam, tentavam sair, estilhaçavam os vidros. A minha camisa branca adquirira o tom carmim do sangue, trazia miolos grudados como pasta. Não sei quanto tempo passou, mas quando me consegui evadir por uma janela entretanto partida, já uma imensidão de sirenes varria o céu. Levaram-nos para um hospital, procedimento desnecessário, I’m fine, dizia, No need to worry, mas talvez assustados pela mancha de sangue que me enchia o colarinho fizeram-me uma série de exames. Na sala de espera imagens do acidente enchiam os noticiários. Aparentemente, apenas um morto.

Quando recuperei a bagagem pude, finalmente, chegar a Praga. A conferência a que me dirigia tinha sido cancelada, mas facilmente me distanciei desse facto. Recebi uma série de telefonemas: colegas da faculdade em que dava aulas, família, e a todos dizia o mesmo: não sabia o que se tinha passado. Mentia. Sabia que o motorista se tinha assustado com o tiro que Jedrek dera na cabeça em plena auto-estrada.

Pedi à Universidade licença de uns dias para ficar a descansar do imprevisto. A bem da verdade, já tinha estado noutros acidentes antes e não tinha sofrido qualquer tipo de dano físico. Precisava apenas de alguns dias para assimilar o acto daquele desconhecido diante mim. Aluguei um quarto no centro da cidade e passei longos períodos a observar os hábitos de vida dos checos. Pensei muito em Jedrek.

Por essa altura a minha vida era, há demasiados anos, um som ininterrupto, como o do autocarro, calcando as linhas certas do alcatrão até ao destino, ou até à guinada de susto do condutor. Tinha feito sempre como todos esperavam: formara-me com notas altas no curso que todos previam, tinha seguido para um doutoramento, como todos me sugeriam, dava aulas, como a inevitabilidade definiu sem me pedir opinião. Casara cedo, construíra família aos trinta. Hoje olhava para trás e sentia que tinha seguido um guião qualquer.

Até viajar, acto de evasão do ambiente confinador da vida – como afiar as unhas, furar um espaço hermético -, era desta vez para falar num congresso que a faculdade me consignara. Pensava constantemente naquilo no caminho para casa, em que conduzia, e a ponte para lá, a ponte para cá, os carros que passam, o sangue que fervilha nas veias de quem apita e ultrapassa pela direita, e eu meramente sujeito ao que me calhava. Tinha sido sempre assim.

Quanto mais pensava nisto, mais a regularidade me sufocava o ímpeto, mas era como se tivessem sido construídos dois eus dentro de mim próprio: um que analisava, criava espaço à indignação interior, e se questionava como seria se assim não fosse, e outro que se subjaz aos miúdos ao fim do dia, às aulas das 9 às 5, ao carro estacionado no tabuleiro da ponte. Às vezes perguntava-me: e se o carro ficasse aqui e eu saísse? Alçar a perna para lá do corrimão, atirar-me ao Tejo como o monte de lixo orgânico de que não passo, esperar que a minha organicidade encontre destino que mais lhe convenha, algo para lá do cumprimento automatizado de tarefas. Acabava a ridicularizar-me a mim próprio. Ajeitava os óculos no nariz, levantava a embraiagem, e chegava o carro dois metros adiante como quem empurra para diante o problema.

Não era incomum viajar pela Europa em congressos do género dos que me levavam a Praga. A regularidade era terreno fértil à produção ensaística, e desde cedo que fui encorajado a ver isso como um objectivo máximo. E assim ia seguindo, lia e escrevia, chegava a novas conclusões, entretia a monotonia enquanto via o meu nome aclamado no meio académico.

Talvez tenha sido por tudo isto que Jedrek me tenha fascinado tanto. Jedrek não se matou num acto de desespero, Jedrek estava em viagem. A morte pode chegar de muitas maneiras, no pique da vida num acidente idiota, no fim de vida numa premeditação que aborrece, a conjugação de factores é infinita. Mas Jedrek escolhera pôr um ponto final à própria vida, de forma consciente, e fê-lo de forma processual: viajava, ia a algum local, estava a meio de uma corrente linear de acontecimentos, que não chegou a finalizar porque pôs termo à própria vida. Ou um motivo demasiado forte irrompeu porta adentro daquela viagem, daquele meio que não chegou a ter um fim, ou Jedrek era simplesmente desequilibrado. Sim, isso explicava tudo.

Mas foi com esperança de não ser só isso que me desloquei à polícia de Praga naquele dia. Esperei três dias que me fosse dito alguma coisa: afinal, tinha morrido uma pessoa a bordo de um autocarro com um tiro. Ainda que esta não fosse a informação oficial, era a crua realidade. Por muito que a esquartejemos cá fora, as pontas menos aprazíveis afastadas do que se pretende mostrar, como quem tira os excessos gordurosos de um bife, era importante nas mais altas instâncias entender porque morrera um homem baleado a bordo de um autocarro. Eu era o espectador mais privilegiado daquele acto mordaz: a decisão de Jedrek escolhera os meus olhos como testemunhas.

Entrei na polícia municipal com o voluntarismo de quem vem para ajudar, mas temia as reacções: seriam hostis?, tomar-me-iam como um louco traumatizado pelo acidente?, receberiam a informação como uma revelação? Quando solicitei a presença do inspector responsável pelo caso disseram-me que este se encontrava “ausente em trabalho”. Sendo instigado a deixar o depoimento numa folha resolvi não o fazer, estimulei o diálogo com o polícia presente, que me foi fazendo algumas perguntas: como presenciou isso?, tem a certeza do que viu?, o próprio parecia espantado, e de tanto espanto soava a evidência que se encontrava completamente a leste do caso. Este não foi tido nem achado, pensava, Estou a perder o meu tempo. Afinal, qualquer busca por entre o autocarro evidenciaria o suicídio. Por entre uma conversa e outra, o polícia que me recebeu deixou escapar o nome do indivíduo, Ah, sim, estamos a falar do tal Jedrek…, chama-se Jedrek, mas Jedrek o quê, Nada, deixe lá isso, Diga-me lá de quem se tratava, São informações confidenciais, peço-lhe que que se retire.

Passei alguns dias a tentar engendrar um plano que me permitisse saber mais sobre Jedrek. Não queria dar passos em falso: a falta de informação que existia relativamente ao que se tinha passado não parecia dar grandes contemplações a quem demonstrasse saber mais sobre o assunto. Não planeava chamar as atenções para mim, fazer com que me questionassem de forma inoportuna. O meu interesse era diferente: não estava afectado pelas circunstâncias do acidente, não era sequer curiosidade mórbida. Precisava de entender o que ia na cabeça daquele homem para me entender a mim próprio. Um fim súbito, pensava. Um fim que não encerrava nada, estava ali, como outra coisa qualquer podia estar, sem por isso perder a intencionalidade. No meio da caminho, uma pedra da calçada, a morte, um papel qualquer, um fim consciente.

Movi alguns contactos, entre o reitor da faculdade à qual eu iria falar, a um dos responsáveis pela empresa de camionagem, e consegui obter o nome da vítima por entre manifestações bem-intencionadas: planeava dar os meus pêsames à família, explicar o que vi, no sentido de ajudar a construir um quadro mais fidedigno dos acontecimentos. Mentia com quantos dentes tinha na boca. Só pretendia ajudar-me a mim mesmo, reconstruir a forma como Jedrek Ruzicka, nome que vim entretanto a descobrir, usara a pistola na têmpora direita enquanto interrupção voluntária de algo em curso. Não se tinha fechado um episódio, um ciclo de vida, o fim surgira processualmente. Isso fascinava-me.

As noites que passavam eram mal dormidas. Ocasionalmente a minha mulher telefonava-me, queria saber como me encontrava. Tentava disfarçar da melhor maneira que conseguia, mas acredito que a solidão e o soturnismo iam-se metendo no meu tom de voz, na forma pesarosa como se arrastava na chamada. Sabia que tinha de voltar para casa, mas precisava de desatar aquele nó que se criara na fluidez da minha rotina. Sabia que, se não o fizesse ali, iria ser uma pedra constante no funcionamento das coisas. Durante a noite sonhava com longas viagens de autocarro. Via Jedrek aproximar-se de mim, levantava-se tranquilamente do banco da frente, encostava o cano na minha têmpora. Passava-se muito tempo, tempo infinito de viagem monótona, o som que se evadia do motor do autocarro a ser tudo. Tempo tão grande, tão prolongado e igual, que desejava de forma cada vez mais ardente que Jedrek se levantasse, se dirigisse a mim, encostasse em mim o cano frio da beretta. Como uma inevitabilidade.

Passava muitas horas sem comer após acordar, bebia um longo café frio, fitava pelos vidros grossos de uma coffee shop quem passava na rua. Quando obtive o nome completo de Jedrek foi mais fácil encontrar algumas informações. Vasculhei alguns jornai, contactei um detective que me recebeu num pequeno escritório no centro de Praga. Demorei a encontrar o local, situava-se dentro do que parecia uma galeria comercial parcialmente abandonada, encontrava-se rodeado de arquivos num pequeno cubículo abafado. Dei-lhe algum dinheiro de avanço, e disse-lhe que precisava de saber tanto quanto possível sobre Jedrek Ruzicka no prazo máximo de vinte e quatro horas. O dia de voltar a Portugal aproximava-se como uma guilhotina.

O trabalho do detective foi eficiente. Descobri que Jedrek morava em Brno, segunda maior cidade checa, outro grande centro urbano. Nada o ligava a Praga, não era evidente o motivo pelo qual se encontrava a caminho da capital. Não tinha nenhuma profissão atribuída, mas parecia trabalhar há alguns anos, na obscuridade, enquanto tradutor. A última actividade profissional daquele estranho homem tinha sido registada anos antes: fora aprendiz de piloto de aviões, mas depois de atingir o patamar máximo, naturalmente bem remunerado e que exigia anos e anos de dedicação, desistira sem motivo aparente. O detective encolheu os ombros, sinal de que o relato acabara, e que esta era a informação que me conseguia disponibilizar em vinte e quatro horas.

Paguei-lhe os serviços e trouxe as informações no bolso das calças, num papel gatafunhado. Sobravam-me vinte e quatro horas, dentro de quarenta e oito teria de voltar a Portugal. Precisava de resolver, pelo menos na minha cabeça, toda aquela situação. Paguei a despesa do quarto em que passara os últimos dias, dirigi-me a Brno de comboio sem grandes planos que não fosse aquela morada. Achei que seria de bom tom aproveitar para dormir, mas a inquietação sufocava-me o sono, como uma densa camada de roupa que não conseguia sacudir. Ao chegar à estação apanhei o primeiro táxi que surgiu, ditei-lhe a morada de forma trôpega por entre todas as consoantes encavalitadas na mesma palavra, e fui ter a um bloco de apartamentos periférico ao eixo central da cidade.

Apercebi-me, pela primeira vez, que não sabia o que fazer. Ao tentar entender a história daquele indivíduo, a edificação daquela decisão, fui acreditando que algo de transcendental ali estaria, algo que seria a chave para destrancar todas as minhas angústias ou, pelo menos, para as arrumar numa prateleira mais recôndita. Ao atravessar a República Checa fui acreditando que também conseguiria atravessar melhor o tabuleiro da ponte quando, todos os dias, me encaminhava para a faculdade. Os blocos de apartamentos sucediam-se, jovens casais com crianças e cães e gatos percorriam os canteiros de um pequeno parque. Deixei-me afundar num banco de jardim, contemplei o sol que se punha, senti nos ossos o frio que escalava os ponteiros do relógio. Estava de frente para o prédio de Jedrek. Jedrek morrera, suicidara-se violentamente a bordo de um autocarro, mas a vida não parava. As crianças brincavam, o crepúsculo ascendia do chão, a marcha ininterrupta das coisas não queria saber de Jedrek, do peso da sua decisão. Talvez também Jedrek não tenha querido saber da marcha ininterrupta do mundo.

Resolvi tocar à porta de Jedrek. Quinto C, e foi o botão arredondado branco do quinto C que pressionei uma, duas, três vezes, e mais uma, duas, três vezes. Não sabia sequer o que procurava ali: escavava num buraco que ia, tristemente, constatando não ter fundo. Continuei, quinto C, quinto C. Nada. Ao fim de alguns minutos desisti. Liguei ao mesmo taxista que me transportara, pedi-lhe boleia para um terminal de autocarros. Brno mergulhava numa noite densa, a casa de Jedrek anoitecia sozinha, como nas noites anteriores. Eu, imerso no lodo de toda aquela constatação súbita de fragilidade, fragilidade minha, dos outros, do mundo, apanhei o primeiro autocarro para Praga.

Dias antes acalentava a esperança de que uma sensação final de impotência contribuísse para a resolução de tudo aquilo. Acreditava que Jedrek pudesse ficar tão fechado na gaveta funda das coisas da vida quanto uma ex-namorada, um aluno do começo da minha carreira, um estranho com quem se choca na rua. Contribuiu antes para uma apatia amordaçante, uma apatia que me impelia a mover contra a minha própria vontade. Uma marcha que não tinha fim, não tinha fim e era em diante, mas que eu queria com todas as minhas forças travar, fazer guinar o volante para qualquer lado que não aquele. Mas ali continuava: dava ordens ao taxista em direcção ao terminal de autocarros de Brno.

Dentro do autocarro, sentado no banco mais à esquerda, acariciava os canos frios da beretta que trazia dentro da mochila. Olhava em meu redor, silêncio e apatia, um bocejo colectivo. Acariciava os canos da beretta e preparava-me para guinar também eu o volante, tomar a decisão mais importante da minha vida.


ALEXANDRE COSTA vive em Lisboa e tem 25 anos. É mestrando em Estudos Literários, Culturais e Interartes. | alexandrejgcosta@gmail.com

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