Subversa

A despeito daquela tese: Conservação, Restauração, Reconhecimento | Jean Felipe de Assis (Rio de Janeiro)


“Ainda que tais estudos acadêmicos não tenham devidamente sido iniciados em nossas instituições, nosso patrimônio histórico e cultural é de extrema relevância para as práticas de restauração e de conservação”.

 

Os modos de integrar o que somos ao que nos tornamos são as tarefas da conservação e da restauração. Instaurar algo novamente a estado de coisas passadas nos é impossível: o gole do melhor vinho à boca não é reabilitado; o toque dado à mão não é retido; Napoleão não é revisto. Todavia, devemos nos tornar servos de uma manutenção de nós mesmos: se já não intactos e incorruptíveis à passagem do tempo, ainda assim algo de nós permanece submerso nas camadas pretéritas e presentes. Os encantos mudam, talvez, mudemos nós também com eles. Contudo, o despercebido, que já estava em nós e à nossa volta, pode nos auxiliar a colorir o mundo com as cores que nos impulsionam. Conservar o que nos tornamos por restaurar o que somos é deveras importante.

Quando se indaga a respeito do que algo seja, as palavras nascem como espelhos. O que fazemos quando fazemos? o que se restaura ao conservar? O que se conserva ao restaurar? Inquietações de infantes a nos conduzir a nós mesmos e ao que nos arrebata em nossa pequena existência. Submersos nas variadas camadas materiais e culturais que nos apreendem desde o primevo abrir de olhos, ao nos perscrutar diante dos espelhos que nos observam e emulam, tornamo-nos arqueólogos a entender o que somos e nos tornamos. Coletamos objetos materiais, reconstituímos sítios, catalogamos dados, inferimos ideias. Cansados do abismo entre nós e o que nos transforma, sistematizamos estas imagens e estes dados em teorias historiográficas e filosóficas: a busca de um sentido que já sentimos. Restaura-se o que se é e se conserva o que se torna para um encontro consigo. Bem aventurados são aqueles que  trabalham na lavoura de si por meio dos sinais materiais e culturais que lhes cercam. A realidade os surpreende e os perpassa em seus reconhecimentos.

O reino do reconhecimento é semelhante a um homem que anda por uma cidade que há muito conhece e também há muito que desconhece. Ao olhar ao redor de si, vê a si mesmo nas atividades humanas, em suas sublimes qualidades e em seus lamentáveis defeitos. Um objeto lhe remete ao tempo de infância, em que os pequenos livros e a bola eram inseparáveis ao caminhar entre vielas antigas e prédios históricos. Sem saber de si e de sua localização, o menino brinca entre adultos também desatentos. A mesma rua, o mesmo banco de madeira, o mesmo vendedor de livros usados, o mesmo prédio, o mesmo objeto. Eles já não são mais o que eram, pois a rua recebe nome e referência, o banco é dado à memória do encontro com a finda mãe, o vendedor já não lhe passa livros de interesse, o prédio está em silêncio de noite escura em pleno dia e o objeto nunca existiu: era o próprio homem permeado por camadas de sentido. Imerso entre passado, presente e futuro: a olhar o que se apresenta diante de si, a ver o que não pode ser visto por forasteiros, a observar a si mesmo. O retorno à realidade é dado por um susto. O que há muito se espera, tira o homem do torpor, e o desejo de viver vem acompanhado pelo esperado inesperado encontro. Embora se procure marcar as horas dos encontros – teoria humana vã – o inesperado esperado assusta e reconduz o homem ao mundo. Já não se trata de uma realidade velada, mas uma recriação repleta de sons, gostos, imagens e sensações. Pretérito e corrente se encontram, desvelam-se mutuamente à palma da mão sob o escrutínio do olhar.

De fato, semelhante a tal homem andamos em nossos caminhos sensoriais: textos, pinturas, poemas, músicas, teses. Assusta-nos o encontro com nós mesmos; nós, modificados e preservados pelo tempo. Ao fim das analogias, o homem dá a mão a uma mulher, sua semelhante imagem encarnada em desejos e pele, em conservação e restauração humana mediante gestos e palavras. Assim também o passado vem ao nosso encontro, estende a impossível mão de ser alcançada sem a busca do reconhecimento de si. Por isto voltamos nossos esforços a conservar e a restaurar pontos, linhas, livros, casas, ruas, bairros, cidades… não a eles, mas a nós mesmos buscamos. Já não é possível instaurar o mesmo afago de mãe, a mesma satisfação com o livro, o mesmo sabor dos doces antigos. Entretanto, somos tangíveis, tocamos as mãos e acariciamos a pele; ouvimos a voz e sentimos o cheiro; bebemos palavras e comemos sonhos; vemos a nós mesmos refletidos diante de nós. Restaurar e conservar nos ajudam a caminhar melhor nos sustos da realidade que nos advém quando a ela nos abrimos; não se referem ao empoeirado livro ou ao oxidado monumento, mas à constituição de nossas estórias ao longo da história. O antigo se faz novo e o novo carrega em si todo o antigo. Cidade, bairro, rua, casa, livro, você, eu…


JEAN FELIPE DE ASSIS | Os termos e concentrações mais frequentes ao longo do desenvolvimento intelectual deste eterno estudante são: Filosofia, Epistemologia, História das Ciências, Filosofia da Matemática, Exegese e Hermenêutica Bíblicas, Cristianismo Primitivo, História do Cristianismo, Filosofia da Religião e Teologia. | jeanfelipe@hcte.ufrj.br

 

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