Subversa

A micro-história de Heitor Ambrósio como artefato literário | Raul Colaço (Jaboatão dos Guararapes, PE)


E naqueles dias os homens buscarão a morte e não a acharão; desejarão morrer e a morte fugirá deles.

(Apocalipse, IX, 6)

Heitor Ambrósio decidiu se matar. Como estava no campus, sequer titubeou, saiu da sala prometendo a si mesmo o mais simples, caminhou calmamente ao edifício central entre cumprimentos e disfarçadas despedidas. Deixou seus livros ao longo dos bancos que encontrou, um para cada ferida profunda no assento, assim seriam mais úteis; os da biblioteca fez questão de devolver e evitar quaisquer débitos pós-existenciais. Não cogitava ter que entregar sacas de alimentos não perecíveis em outro plano.

De repente, esbarrou numa fila. Pensou que se tratava do restaurante universitário, pelo horário: era hora de almoço. Equivocou-se. Perguntou ao mais próximo, do que se trata?, recebendo a réplica abominada. Descobriu que a aglomeração em sua frente se destinava à indesejada das gentes. Para esperá-la. A intenção era subir no prédio mais alto e saltar do décimo sétimo andar. Estatelar-se. E, pelo que apurou, a morte tinha pouca fome, consumia com seu bafo de pedra apenas um por dia. Ou semana. Talvez até um por mês.

Heitor Ambrósio interrompeu aí a conversa, sequer desenhou essa demora em sua lousa mental. Tinha pressa.

Considerando as possibilidades, a quase hora que passou estacionado, sem ver qualquer avanço, improvisou malícia. Abandonou seu posto, ficou ali perambulando, acendendo esperança e mantendo esse fogo aceso, até deparar com algum conhecido melhor colocado. Esgueirando-se entre sorrisos e diálogos, contraventor sorrateiro, fora repreendido no ato. Seu celular não cansava de apitar.

Ao destravá-lo, avalanche de notificações, compreendeu a multidão descontente, resistindo às injustiças, a ocupar redes sociais, abarrotando-as de textos tamanho extra G, disseminando campanhas de hashtags e de petições públicas contra a sua pessoa. Seus perfis foram denunciados. Antes disso, conseguiu, no susto, ler alguma postagem, era uma moça problematizando o brasileiro e a sua mania de levar vantagem nas mínimas coisas, assim como o aluno de universidade pública que não aprende a respeitar o direito alheio, o próximo, e que por isso as instituições públicas não são levadas a sério, por isso também o funcionário público não é levado a sério, é tratado como vadio, e por isso ainda querem privatizar a universidade, alegando moralização do público somente a partir da injeção do capital privado (e, obviamente, da gestão oriunda dele).

Logo após, Heitor Ambrósio se viu isolado, a contemplar as estátuas de carne e seus telefones móveis, mas também viu uma poesia ali, pois ninguém encarava o seu rosto, estavam todos de olhos baixos, ocupando as falanges a xingá-lo pela internet ou a apagar qualquer vestígio de convivência para com aquele infrator. As fotos que tinha em grupo, por exemplo, de uma em uma, foram exterminadas. O mesmo ocorreu com as marcações, os recados. Teve certeza de que, se queria morrer, o caminho era esse.

Recuou dali, aguardou pacientemente algumas horas, sabia que o espaço público cumpria prazos quando convinha, aquela empresa de mortes tinha hora certa para fechar e para abrir, para livrar-se daquele grupo de clientes por pelo menos algum tempo. Ao retornar, acertou na mosca, tudo escuro-vazio. Ficou espiando, por segurança: só um segurança a rondar o prédio em uns momentos; em outros, a cochilar. Aproveitando uma soneca, Heitor Ambrósio deslizou em direção à entrada. Trancada. Tentou a porta traseira, depois a janela, usou a escada: nada. Quando desceu, disparou, sem querer, o alarme. Num salto, o guarda cercou-o, acionando a polícia.

Heitor Ambrósio ainda sugeriu sem sugerir o suborno (e foi rechaçado, não sei se pelo brio do trabalhador ou pela quantia irrisória, já que, afinal, estamos tratando de um estudante, que é, no máximo, bolsista), o que agravou a situação criminosa e garantiu a prisão.

Mal adentrara sua cela e já maquinava múltiplas minúcias. Pensou primeiro em enforcar-se com o lençol. Olhou em redor, sempre a desviar a vista dos companheiros para evitar vínculos. Nenhum pano, espuma, cadeira, pia. Só viu de verdade o concreto, a grade, os quarenta homens. Com isso, também descartava a asfixia com o colchão, seu próximo intento. Imediatamente, constatou que o mais seguro (e garantido) seria criar confusão com os detentos. Ser espancado até o fim. Nem teve tempo. Habeas corpus. O carcereiro chegou na duração de um sopro, esbafo-precipitado, para liberá-lo após seu período de bom comportamento.

Quando livre, aplicou-se, com mais esmero, em seu propósito. Abriu livros de história procurando soluções. Pesquisador dedicado, comparou Ulysses Guimarães e Teori Zavascki; debruçou-se, depois, sobre o drama dos judeus; outra hora sobre o massacre dos negros na favela pelos grupos de segurança pública. Leu também os detalhes de diversas epidemias que devastaram milhões. Por fim, e por acaso, ao observar as datas comemorativas, parou em junho. São João. Logo quis plagiar Joana D’Arc.

Para não perder mais tempo, começou o fogo ali mesmo, na biblioteca: pegou o livro que estava lendo, ajuntou com os de poesia, de prosa, de teoria da arte, tendo como modelo um vulcão, e encharcou de óleo, visando à lava. Com a fumaça, catástrofe, veio alarme, chuva artificial abafando o projeto. Desanimado, mas ainda crente, correu em direção à sua residência, era fundamental manter-se reto em seu desejo.

Em casa se deu quase idêntico: fez fogo, de súbito, a sirene e o caminhão, uma multidão intrusa de homens e de mangueiras a alagar seu arbítrio. Até tentou, outro dia, refazer as chamas, feito prova dos nove. Falhou, pois obteve semelhante resultado: dessa vez, foram os vizinhos que vieram pulando os muros, a arremessar seus baldes e a abalar a fé já bastante abalada de Heitor Ambrósio.

Após essa temporada de episódios, Heitor Ambrósio optou por promover uma série invertida. Entretanto, a conclusão dos capítulos continuou igual: uma vez, na praia, foi ao fundo, tencionava afogar-se (ou, quem sabe, com um pouco de sorte, adquirir uma mordida de tubarão no peito). Porém, esqueceu-se de avisar ao guarda-vidas, que, ao avistá-lo à deriva, saltou rápido e o tomou nos braços. Noutra vez, arrumou na feira uma banheira (na verdade, uma imensa bacia), pôs em casa e traçou em seu espírito aplicação de apneia, mas, novamente, fora surpreendido, dessa vez pela companhia, que acabara de suspender a água devido a uma tubulação estragada na vizinhança.

Diante das negativas circunstâncias, Heitor Ambrósio achou, por um momento, que estava protagonizando um conto fantástico. Contudo, logo em seguida, descobriu uma metáfora mais relevante. Sentia-se como alguém em estado vegetativo: sem poder mexer um músculo sequer de forma voluntária, apenas concentrando-se em contemplar os outros a decidirem sua vida, debaixo de seu cavanhaque, sem qualquer consulta ao principal interessado.

Então saiu nervoso em direção ao bazar. Repetia o anseio, ansiando desfecho, tapuru insistente comendo carcaça. Adentrou no suor do edifício, cobra rastejeira, contornando tabuleiros africanos, os amarelos em seus descontos. Então a porta: abriu como quem rasga um pacote, lançando ao ar a mira, depois os tiros varando os vocábulos. O vendedor auscultou seu cliente, anotando tudo em caderneta. Enfim, diagnóstico, explosivo, amigão, só pra derrubar caixa eletrônico, botar o bicho abaixo, feito rasteira, só ver no jornal, tá na moda; pra morrer, dá não, chefe, é sujeira.

Heitor Ambrósio tentou ainda outro bote, novamente o erro, veio sangue de língua mordida. Quis até entrar em outra loja, mas não foi quisto. Sobre arma de fogo, ouviu o mesmo variado, já da entrada, arma só pra ladrão, pra assalto, sequestro relâmpago; pra suicídio de quem nem trabalha, negativo, boy, vá arrumar o que fazer.

Cabisbaixo, cismou ainda em se envenenar. Persistia em cumprir sua meta, mesmo desorientado: era honra. Correu aos pulos descendo a rua, por entre motos, mendigos, bicicletas, carroças, carretas e invisíveis veículos que supunha pelo ar em movimento. Driblou com a finura de seu corpo, cada vez mais forte, os fregueses da feira, repousando de gengiva aberta num quiosque quase abandonado, habitado apenas pelo famigerado velho e pelo povo dos ratos. Cochichou no ouvido fatigado o seu pedido, podia nem ser veneno mesmo, bastava boa quantia de embolorados remédios. Mas a didática do mercador se espraiando em céu aberto, totalmente sem nuvens, pela sua cara, meu rapaz, vejo logo, é suicídio, aí não posso fazer nada, impossível, se fosse aborto, era fácil, o mais comum, vendo dezenas por dia.

Em seguida, parando um instante para pensar, construir um mapa astral sem qualquer consulta aos astros, esticar possibilidades, desembainhou a óbvia profecia, fica tranquilo, homem, em breve terás um câncer ou algo parecido, lembra dos enlatados que estão na tua barriga, dos refrigerantes e empanados, das salsichas, ou de cada comida babada de agrotóxico e outras toxinas, de cada comprimido pra dor de cabeça que assalta tua saúde e te vicia, é fato, meu filho, em breve cairás na maca de um corredor de hospital público, paciência.

Heitor Ambrósio quis soterrar seu crânio num fosso.

Ou, quem sabe, mutilar-se. Cobiçava sumir naqueles gritos de promoção de frutas ou de bugigangas, e ao lembrar dos gritos lembrou-se que queria gritar, mas não gritava, que queria morrer, mas não morria. A vista logo escurecia, o mundo rodopiando rápido. Ele, porém, continuou, teimava; e caminhou assim por longas horas.

Até que ouviu sem querer lampejos de conversa alheia, foi se aproximando, dois transeuntes com jornais nos dedos a discutir denso o assunto, já especialistas no tema, confirmando a descoberta de um novo tipo de perecimento, só chegar e cair, não tinha mistério, nem proteção, a repercussão era mínima, uma nota em um ou outro jornal quando muito, poucos protestos, uns dois meses e todo mundo esquecia, inclusive os dois debatedores. Reviu um deles garantir a novidade do processo, quase termo de sigilo e confidencialidade, vigorosamente atestando raridade a esse estilo funéreo, apenas uma menina espatifou-se assim, no máximo duas, se exagerar muito, talvez três e olhe lá, seria muito.

Alguma coisa estalou em Heitor Ambrósio. Dirigiu-se atordoado ao terminal de ônibus mais próximo, sempre batendo os bolsos à procura de trocos para comprar sua passagem. Foi aí que se lembrou do bilhete eletrônico estudantil: estava salvo.

Ao entrar na integração, rapidamente percebeu o golpe, fora enganado. A porta do meio aberta, ainda rubra e bamba. Chão empoçado. Outro pescoço atravancando a roda.


In: COLAÇO, R; LOYOLA BRANDÃO, I. de. Da divisão do trabalho social e outros ensaios. 187.ed. Editora Kierkegaardiana e Associados: Comala, 2016.3.


RAUL COLAÇO | licenciado em Letras – Português e Espanhol pela UFRPE e mestrando em Teoria da Literatura pela UFPE. Foi quinto colocado no Prêmio VIP de Literatura da A. R. Publisher Editora, na Categoria Poesia, e finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro de contos Rúmino-ressonância (Chiado Editora). | rauldarochacolaco@gmail.com

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