Subversa

“A Piva” e “Estilhaços” | Maíra Fernandes de Melo (Rio de Janeiro, RJ)


A PIVA

A colônia de formigas

fura a madeira oca –

lá de dentro não sai nada.

 

Aridez originária,

vastidão esfacelada pelo piso frio.

 

Queria saber se existe

a palavra ataranto,

mas não encontro o dicionário.

 

Meu fantasma faminto tem sede

de pranto,

meu grito calado me arranca

por dentro:

 

sou uma solidão nua amarrada a um poste”

*continuo sendo


ESTILHAÇOS

(lápis em folhas de caderno) Forma. Mecanismo de corte dos fluxos? Devo ter respeito para com meus professores. 100 vezes/6 anos. Nem foi ela quem começou a bagunça. Tenossinuvite do punho direito causada por excesso de estímulo desordenado (micro-traumas de repetição). Reaprender, desaprender. Destreza e contenção.

As histórias se confundem, a fábula vira mito. Porque antes (antes?) era tudo abrigo (a mão escreveu amigo, eu rabisquei). Era abrigo e desimportância. E antes mesmo era placenta. Mas depois (quando?), de repente desamparo. Acharam que era bom, saía como se orgânico. Parecia tão bonito, parecia tão binário. Mas da aparência ao delírio à

A matéria amorfa que essa letra aqui concentra. As setas são flechas d’água, por isso esforço tamanho |Ponto| Impossibilidade de comunicar e a despeito tanto símbolo | E esse aqui é pra lembrar que borda demais | transborda | e a lição (já aprendida) é a de que não vai ter quem seque.

  • Poderia, talvez então, dizer finalmente que essa é a história de uma mulher livre:

Eu sou uma – teia de estilhaços – na verdade antes

eram os – estilhaços

– hoje eu

tento –

ligar cada um – com a mesma linha – pra ter pelo menos

uma certa

unidade visual e –

coerência conceitual e –

não ficar toda

espalhada –

dilacerada por


MAÍRA FERNANDES DE MELO | Mestre e doutoranda em Letras (PUC-Rio), tem contos em Clube da Leitura Vol II e Coletânea Caneta, Lente & Pincel. Venceu o Prêmio Paulo Britto de Poesia 2015. Tem poemas publicados no livro Hágalo despacio – Trés poetas de Río e participou de diversas exposições literárias (como Poesia Agora e Cadernos do Corpo). | mairafernandesdemelo@gmail.com

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