Subversa

A prova | Adriana Vieira (Rio de Janeiro, RJ)


Na véspera do casamento precisa experimentar o vestido. Atravessa a cidade inteira, percorre bons quilômetros e deixa a brisa colar em seu rosto. Fecha os olhos, imagina-se entrando na igreja. Surpreendida pela freada do ônibus, abre os olhos e se depara com a Baía pintada de arcos-íris. Sorri inteira, o coração dispara, e em ritmo de samba se sente dele. Falta pouco muito pouco para o casório. A última prova do vestido, alguns ajustes, talvez tenha emagrecido em uma semana. Sente-se leve. A folha da amendoeira alcança a ponta do seu nariz e sai bailando como uma prévia do que virá a ser a festa no dia seguinte. Tudo ao redor é contentamento e quando fecha os olhos torna a imaginar. Ela vive em seu mundo pintado de rosa bebê e por mais que o mundo clame o contrário, ela continua dada a suspiros.

No quarto de vestir, avista a praia, os casais se beijando. O alfinete é sentido em seu ventre, dá alguns ais, mas a querência em ficar bonita no grande dia é bem maior. Aquela paisagem é o retrato fiel do seu interior, vibrante, intenso, cheio de desejos. Os tons da areia vão do branco a cor de Amálgama e como uma fronteira unindo a leveza do mar azul-turquesa e a concretude do calçadão, ela se faz bonita. Ora mira o espelho, ora o externo. O gato siamês a fita. Uma piscadela de olho. Ainda sem perceber, ela continua olhando através da janela o estonteante azulado do céu.

O céu é azul, azul da cor dos olhos do gato. Terminada a prova, a costureira a ajuda retirar o vestido. E na sala, nua, desliza suas mãos no impróprio corpo fincado de memórias inexistentes. O gato continua a espiar. Na antessala, a costureira balança a cabeça em compasso de não, e com os olhos fundos de tristeza diz que não pode continuar alimentando aquele casamento que não se concretiza.

O gato ainda a fita. Até que ela se dá conta e dispara a conversar em voz alta, amanhã dançarei com você e saia daqui senão dá azar. O gato vira de costas enquanto ela retira o vestido de noiva.

Na sala de estar daquele estúdio, ninguém entende o desvario da noiva. Ela sai com o gato no colo, feito louca, dizendo-se apaixonada. E vestida do mesmo jeito que chegara, volta a pegar o ônibus, retornando para o seu lugar. E feliz da vida, conta para o siamês que não vê a hora de viajar com ele. Mas antes, ele terá que dançar sem pisar em seu pé.

No trajeto, já de tarde, eles passam pelo cemitério, ela faz o sinal da cruz, o gato a lambe ao pé do ouvido. E antes que o cemitério suma das vistas deles, ele salta. No portão, ele evapora. Uma chuva fina e refrescante lambuza o rosto dela. Ela ainda está no ônibus. A paisagem que ela enxerga é a mesma de décadas atrás.

Ela desce do ônibus sem número. Um homem vestido de jaleco branco a leva. Ela toma o remédio da noite. Amanhã amanhece. Ela espera ficar bonita.


ADRIANA VIEIRA | tem por confrades os quatorze – que amancebados com ela formam Os Quinze. De resto, é pós-graduada em Arte, Pensamento e Literatura Contemporânea e em Roteiro para TV, cinema e Novas Mídias pela PUC-RIO. Publicou Carpintaria de sonhos, livro de poemas com prefácio de Ivo Barroso. Colabora com contos e crítica para a revista eletrônica Obviuos, com a coluna “Ki Literatura é essa?”. Publicou em coautoria Contágios editora Oito e Meio e Madre Terra – edição bilíngue Italiano e Português – editora Acima Mandala. Tem vários contos publicados, um deles pela revista Subversa – “Bolos de laranja e chocolate”.  | dridrilomar@gmail.com

 

 

 

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