Subversa

A Soma dos Dias | José Vieira (Santa Cruz, Portugal)

Aquarela | William Soares dos Santos


Posou o cálice de vinho na mesa e recostou-se no sofá às almofadas. Puxou até si a manta e ficou a observar a madeira sucumbir ao poder do fogo. Lá fora chovia.  O vento batia com fúria contra as janelas. As árvores balançavam para um lado e para outro, numa roda viva. Folhas caíam umas atrás das outras, como que se dançassem, até ao chão. Uma valsa. A água da chuva corria veloz pelos caminhos. Era uma noite de inverno.

Estava triste. Pensava nele, que àquela hora devia estar com a mulher. Deviam estar a jantar, num qualquer restaurante da moda na cidade. A mostrar a todos que eram um casal feliz, quando na realidade não o eram. O que importava era fazer transparecer essa ideia. Antes parecer que ser!

A felicidade ele tinha com ela. Não usava máscaras. Era genuíno. Não tinha medo de falar dos seus sonhos e medos. Era ele mesmo. Sem rótulos e sem preconceitos. Sem receios e sem imposições. Todas as semanas, lhe procurava. Atingia a plenitude, o nirvana, com ela. Não queria mais nada. Aquelas breves horas eram suficientes para a sua alma, há muito apática. Para ele era tudo.

Ela pensava nele. No último encontro. Disseram que seria o último. Não era correcto continuar com aquilo. Caminhavam para um beco sem saída. Ele tinha mulher. Não ia deixá-la. Não conseguia. A pressão era muita. Família e amigos. Amigos e família.

Não se importava com a felicidade. Isso dizia ele, contudo, na realidade importava-se. Não abria mão dela. Como um íman era puxado para ela. Só pensava nela e como os seus corpos se envolviam, numa simbiose perfeita.

Ela estava sozinha naquela noite de Inverno. Não tirava os olhos da madeira que lentamente desaparecia nas chamas. Aquela violenta destruição de matéria-prima assemelhava-se ao que sucedia no seu espírito. Aquela história destruía toda a edificação do seu ser. Por ele, ela quebrava a sua essência. As suas convicções eram abaladas. Ela, naquele momento, era a outra.

Mexeu-se no sofá. Procurou o copo de vinho e levou-o à boca. Posou-o novamente. Tirou o último cigarro que tinha. Enquanto fumava, encostou-se às almofadas e fechou os olhos. Não se reconhecia. Não compreendia como se perdera naquele labirinto. Não percebia como se deixaria ir. Sabia que tinha que acabar com tudo aquilo. Sabia! Tinha consciência, no entanto, não conseguia. Ele era a cor dos seus dias cinzentos.

Ele era a fuga dela. Ela era a fuga dele.

A chuva parou. O vento amainou. As horas passaram. Veio a manhã. Veio um novo dia.

Os dias foram se somando, um após outro. Nunca podemos fugir por muito tempo. Ele continuou a jantar num qualquer restaurante da moda da cidade com a mulher. Ele continuou a parecer feliz. Ela continuou a passar os serões em casa entre vinho e cigarros.

Tudo o que surge rápido e intenso cedo desaparece. Ele ainda pensa nela. Ela ainda pensa nele. Os seus caminhos separaram-se. Ele cedeu às pressoes. Ela não quis ser a outra. E ambos passam pelos dias e os dias passam por eles. É a soma dos dias.


JOSÉ VIEIRA é o pseudónimo de Teresa Vieira Lobo. Jovem nascida na década de 80, numa pequena localidade chamada Gaula, terra de amoras, padres, doutores e adelos. Em 2014 estreou no mundo da escrita com o livro “Estranhas Coincidências”. Em 2016 lançou numa edição de autor o ebook “Dedicação, Palavra e Honra”.

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Anabela 17 de julho de 2017 em 12:48

    Adorei Teresa
    Que delícia, que maravilha
    Continua minha linda

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367