Subversa

À Sombra do escondido | Osvaldo Duarte (Vilhena, RO)


Não são versos. Isso é mais um enigma

Paul Valery (A Árvore.)

 ( I )

Quando o filho se matou, fomos tomados por arrependidos sem saber. Em suas mãos, como lesmas, tremiam ainda os solilóquios do medo: por quê? E, sob a barba branca, nos vincos altos da testa, por trás dos olhos e nos nervos, o carrossel com figurinhas de homens e cavalos: as dúvidas. Nas mãos que tremiam, o concílio das bestas: as verdades eram lesmas sonolentas e sem alteridade. O homem criara um filho e um cavalo. Qual desvelo? Qual fermoso? O outro era bonito mes’morto. Sim, ouvia de sigo, moldara o cavalo, mas não mudara o outro. Os vermes repuxavam como rédeas – as artes do ofício. O primeiro talhara à ferro e chicote. O outro: nos aferros da alma, os açoites da morte.

( II )

A manhã crispava toldos no quintal. Melhorou, depois continuou: era domingo. Não era mais como dantes. Era como deslindar em versos o chio da manhã. O poema crispava rastilhos de verdades sem cor.  Colorida, a manhã crispando toldos evaporava tangerinas de asas quando. Lenira me olhou. Olhar tão fundo. (A panela de pressão chiava na cozinha.) Havia anos não me olhava com remorso. Terras da promissão, olhar tão fundo: “Quanto tempo!…” parece que foi ontem, aliviei. Escorpião na terra.  Borboletas amarelas sobre a relva. Interjeições alucinadas na sala cravejando o peito do morto –  alguém sentiu desejo: não dizer, alguém sentiu saudade: não dizer. Pelos dentes, pêlos quentes. C’est fini.

( III )

Não há dialética sem as desinências dos cacos; como não há sabedoria sem a gramática das sombras. Era de novo manhã. Sempre ela, como um castigo ou dívida. Um beija-flor desenha interjeições alucinadas: oh!… Senhorinhas sem sossego cravejam as ferraduras do cão. Fiquemos no abraço… Palavras demais ensurdecem (paga-se caro não ser surdo nem mudo). Por isso esse poema em três versículos sobre o nada. Skrik – sombra e torvelinho no entorno da casca.


OSVALDO DUARTE | vive na Amazônia. Escreve poemas, contos, literatura infantil e crítica literária. | osvaldo.duarte@pq.cnpq.br

 

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