Subversa

A última vez que te vi arranquei-te dos olhos | James J. D. Duško (Porto, Portugal)


A I.

Começamos como uma música.
De início, o silêncio de quem espera
que a primeira nota soe,
que pa(i)re sozinha no ar
e se encontre com outras
únicas e desligadas entre si,
que os seus corpos gasosos e incorpóreos
se quedem por momentos frente a frente
e se olhem como num espelho poroso de zumbidos
que fosse capaz de refletir sons
entre a sombra e a luz dos seus domínios siderais
tão próximos uns dos outros,
e que, juntas, formem algo mais
com os seus corpos invisíveis e flutuantes
antes de, cumprido o seu propósito,
se perderem nas sombras de luz
do cemitério de silhuetas irreconhecíveis dos sons.

Ao primeiro vislumbre do teu corpo,
como um instrumento desconhecido e obscuro
que tinha esperanças de um dia poder vir
a tocar

(um transmutado e confuso género de contrabaixo,
com um longo endpin que erguesse a robustez da massa do teu corpo,
e dois braços enigmáticos, de composição universal e complexa,
que se esticassem e enrolassem em mim
num caloroso e íntimo amplexo
sinuoso e cujas cordas ressoassem através do meu corpo,
do pescoço ao peito ao ventre ao peito ao pescoço,
sons lentos e tímidos de embaladoras batidas cardíacas),

e os teus olhos como uma orquestra inteira
que tocasse várias sinfonias improváveis
percetíveis à visão dos olhos, por onde me entravam adentro
como cascatas,
uma nota tímida e sozinha foi-se agi(gan)tando de algures,
o único elo para já possível entre

nós
para lá da

distância,

acompanhada por cada outra
que lentamente extraíssemos a cada acanhado bater de pálpebras.

Parecidas a pulsações cardíacas,
graves e cheias de vida e rítmicas como um compasso,
demoradas, umas noutras contidas, e apertadas naquele espaço
escasso de si mesmas onde se empurravam docemente,
pesadas e vagarosas, arrastando-se contentes
numa cadeia cadenciada
de sonoros desenhos corporais que

no ar

que nos unia e separava
iam esculpindo espontaneamente,
iam-se fundindo umas com as outras
numa simbiose temporal mais do que espacial,
nunca antes vista ou ouvida com os olhos por nós dois,
que nos deixámos ficar maravilhados pela melodia desconhecida
sem que ato algum pudéssemos fazer
para, imitando-as, como laços alados nos lançarmos e atarmos um ao outro.

Frente a frente imobilizados
como quem deduz dos dados
que lançou a sequência definitiva
entre todos os resultados possíveis,
os olhos trocando impressões lançando dardos
de luz refletida
que no caminho se confundiam
com os corações que pulsavam, cheios de vida,
um batuque que se juntava à festa,
garrida de sons coloridos que em êxtase se soltassem
e soassem, sempre sorrindo, sós e em uníssono,
nos ecos rebatidos na guarida cujas paredes cristalinas de água
à nossa volta se erguiam,
construídas do corpo sólido que as notas adquiriam,

uma frágil mas intensa catarata de frágua
que de súbito soltámos de dentro num misto de indecisões e medos,
sem encenações, sem segredos,
fluía à nossa volta como interiormente,
embalando-nos nas suas ondas, envolvendo-nos em vibrações,
uma abertura de juras tácitas
sem expressões que as fixassem,
um jorro de alvura variegada e pura
que na altura se esperasse ir durar,
sem agruras, para sempre,

nos reflexos do qual nos víamos
(as figuras de luz desenhadas no espelho trocadas, partilhadas),
como esculturas que se moviam,
conjeturas que se cumpriam,
frescos, pinturas onde se entrevia,
por sons constituída,
a tua cara quente que se abria,
a tua boca que como uma flor florescia (e que
queria tocar com a minha sob as cores sem forma que brilhavam e se estendiam
à toa por todos os lados como minúsculos insetos fosforescentes
gordos e carregados),
o teu nariz como uma semínima cujo som soltasses de cada vez que respiravas
e os teus olhos como claves de sol que lançavam
os seus clarões de luz em todas as direções
e cujos bolsos que com as suas lâminas luminosas
de espadas brilhantes me abriam na pele
com golpes lancinantes eram o refúgio quente e sangrento
onde escondia (ou se encondiam) e guardava (ou se guardavam) como uma relíquia
(ou onde se entravanham sem saber)
os esboços do amor que sentia, em vultos
e saliências protuberantes na carne que as revestia.

Hipnotizados pela timidez com que carinhosamente nos fitávamos,
embalados pelo som que fazia tudo que sentíamos,
na súbita secura do olhar hesitante e absorto
como (que) estagnado, a arquitetura erguida
derrubou-se a si mesma,
as paredes de água da guarida, já só gelo,
desfizeram-se em vapor
de cacos caquéticos de espelho estilhaçado
num flagelo indulgente e obsequioso,
num apelo potente mas silencioso
de uma nova torrente portentosa de notas baças como pó,
de mínimas, semínimas, colcheias e semicolcheias ocas e sem traços e sós,
de vontades frustradas e transparentes com que tardiamente (se) (des)fez laços e nós,

e nós, ambos sós,
enrodilhados nos cabos de sons emaranhados
no meândrico silêncio atroz que (se) espalhava no espaço,
observávamos tudo acontecer sem dizer

nada,

fitávamos as notas do que (já não?) sentíamos
com o mesmo olhar das estátuas em pontas diferentes do jardim
que se quisessem despedir com um abraço

(nem que fosse um frio aperto de mão,
um simples toque, um aceno,
um olhar que descongelasse
a membrana de pedra que os separasse da realidade,
mais folgada, serena, amena)

e não pudessem senão ver dançar entre si as folhas
que o Outono ressecou e lançou ao baile seco do vento,

(tento agarrá-las, fixá-las,
mas escapam-se[-me] como água
fugindo em fio pelas frinchas dos dedos que a seguram,
como a areia escoando-se na ampulheta que carregamos no peito,
na ampulheta viva que somos.)

e vía-mo-las, confusas, desorientadas,
(confusos, desorientados)
vibrando continuamente
sem pauta que as fixasse,
(sem pauta que nos fixasse)
perdendo o sentido e sendo substituídas
por um ruído como um co(r)po parti(n)do,
que não viajou gasoso pela atmosfera mas se estirou
violento e desastroso no chão como um monumento por fim ruído.

No silêncio que se ergueu como uma cúpula
protegendo os escombros qual artefacto a preservar
no museu do que nunca foi,
podia ouvir os detritos rolando ainda, tentando achar
um último caminho a seguir por entre todo o caos inesperado.

Foi só mas tarde que me apercebi que tudo fazia
parte da sinfonia,
e parece-me às vezes, no silêncio da noite,
na bruma densa de sombras que se arrastam numa procissão invocando o sono,
na penumbra espessa onde o meu fôlego se desenha invisível e a que me abandono,
enquanto olho o teto no escuro sem qualquer pensamento,
ouvir de novo tudo,

o silêncio inicial desdobrando-se daquele que me envolve,
as primeiras notas cantadas pelo encontro dos olhos,
o vórtice de sons como pirilampos de corpos de brilho musical,
o ruído temeroso dos escombros de uma terra que se abre
como um peito sabedor de dor que descobrisse que afinal não sabe,
e dói-me tudo de novo a cada (memória de cada) fragmento despedaçado que na demolição
procurasse um caminho sem encontrá-lo na melodia inacabada.
Num ato de misericórdia, trato de completá-la,

 

sozinho,

 

relembrando o teu olhar,
vendo no escuro do interior das pálpebras uma visão dos teus olhos,
e vertendo dos meus o que resta da sinfonia por acabar

(retiro notas dos olhos, não as consigo encontrar,
não as vejo no escuro do silêncio)

 

em quentes rios de notas e sons
que escorrem como pêndulos transparentes
suspensos do tempo que vejo passar,

 

(recriando a melodia, sou de novo [en]levado na viagem
e tudo se ergue de novo sem tempo,
sem devaneios, e assim que tento vejo que veio,
que voltou à vida o monumento,
[e estou novamente dentro]
quebrando a cúpula como a um teto,
a uma pequena clarabóia restringidora de visão curta
como a pequena porção de céu que se galgasse
à procura do que se não encontra na terra já tão
aberta de se procurar)

na esperança nunca perdida de que possa,
com(o) os restos dos monumentos,
achar(-me n)um novo caminho.


JAMES J. D. DUŠKO (Porto, Portugal, 1998)

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