Subversa

Abafo; des | Julia Zulian (São Paulo, SP, Brasil)

Aquarela | William Soares dos Santos


Chovia a cântaros. O que tornava a noite quente, abafada. Abafada como noite de guerra em selva tropical. Chovia a cântaros. O que tornava inusual a batida na porta. Era uma batida seca, que se contrapunha ao clima da noite, erguendo-se em rechaça claramente atemporal. Pelo tom da batida me parecia que quem quer que fosse deveria estar lá parado, estático em sua eminência ensopada, de olhar altivo e imponente, sem se importar com a meteorologia, típico das criaturas atemporais, despreocupadas e libertas das convenções. Pelo tom da batida eu soube todas essas entrelinhas e muitas outras.

A noite costurava seu manto dando indícios de sua negritude iminente. Chuva e noite trocavam suas alianças em um laço que, no atual momento, parecia indiscernível e inseparável. A aldrava batia ritmada, parecendo espécie de sinfonia, peculiar em sua cadência. O compasso era o mesmo do meu coração, e o choque contra a madeira maciça da velha porta azul ia-se intensificando à proporção que eu chegava mais próximo da entrada. Por isso, apressei-me em atender aquele que eu já sabia quem era, ou melhor: apressei-me em atender aquele quem eu já sabia o que era.

Ao abrir a porta não degustei surpresa alguma. Era como se o encontro estivesse marcado desde o dia em que nasci, e de fato sempre esteve. Apenas me senti completamente digerido, desnudo, penetrado até o âmago. Mas, pela primeira vez, gostei do que senti. Como me perguntaste se eu sabia de que ele havia vindo aqui tratar, respondi que sim. Convidei-o instintivamente a entrar, sem antes nem mesmo pensar no que estava fazendo e quando vi estávamos sentados à mesa, metade da garrafa de aguardente vazia, ou metade cheia − tudo depende do ponto de vista.

Falamos sobre a vida, da minha e dos outros. Falamos sobre o sentido que fazem as coisas, ou não. Falamos de malogros e bendições, bendissemos uns poucos e amaldiçoamos outros muitos. Contamos alguns causos, mas tantos ficaram por contar. Falamos sobre o que eu enterrei, e o que me enterrou. Falamos sobre a morte alheia, e a minha própria; afinal sabia que a minha hora chegara. Sabia afinal, que ele havia vindo por e para mim.

“Espere!”, disse à criatura, “Um último gole!”. E então finalmente minha desventura iria terminar. Poderia eu me livrar desta vida terrena e mesquinha e assim lançar-me às aventuras do além túmulo recebendo suas boas-vindas! Naquele copo vi refletidos todos os meus anseios, milhões de sonhos espelhados em milhares de gotas, líquidos desejos.

Entornei o copo, assim como fiz com todos os meus planos: goela abaixo os engoli, sempre amargando a garganta e minh’alma, que se refletia inevitavelmente em contundente careta. Refletida a careta da antropofagia dos meus planos, ao abrir os olhos, a criatura não estava mais lá, e me recuperando da ardência que me desceu pela garganta, a queimar-me o estômago, que agora subia-me num refluxo como que querendo escapar das minhas entranhas trazendo junto a si meus planos de volta a vida – estranha endoscopia inversa –, investiguei o cômodo por completo em toda sua tridimensionalidade.

Fato consumado: ele, aquilo ou isso já não estava mais ali. Era difícil de compreender, já que minha cabeça passava por um turbilhão de pensamentos desconexos, mas que aos poucos iam criando suas próprias sinapses, como se a criatura houvesse trazido apenas o par de neurônios necessários à química.

Chuva e noite logo menos iriam pedir o divórcio, mas por enquanto ainda estavam unidas, talvez em uma tentativa desesperada de conciliação. Conciliação que eu percebi ter falhado em fazer comigo mesmo a vida inteira, e mais especificamente durante aquela longa noite eterna. Conciliação que negligenciei, tratei como desnecessária à minha própria felicidade.

Simplesmente o corpo tão sólido que ali estivera a me indagar, virara ar. O barulho do tropé d’água, me deu conta do tropé que acontecia dentro de mim mesmo: me reconheci como aquele com quem proseei ao longo da madrugada, esperando uma solução para acabar com o meu sofrimento de omissão. Conversei comigo mesmo a noite toda, em um surto de loucura, misto delírio, para descobrir que meu carrasco era eu; que eu trouxera a mim mesmo maldito mausoléu.

No final, como sempre, eu era meu maior empecilho. Eu me matei. Eu era a morte. Eu me busquei aos poucos, como o ceifador busca seus próximos nomes, cada vez que deixei de fazer tudo aquilo que me mantinha realmente vivo e não apenas lobotomicamente vegetativo.

Chovia a cântaros. O que tornava a noite quente, abafada. Abafada como eu abafei as minhas aspirações. Eu me sucumbi em meio aos detritos que me escarravam como verdades absolutas. Verdades não são absolutas, e estas nem mesmo me serviam. Eram verdades que nunca foram caminhos, pois há muito haviam perdido o senso de utilidade. Eram apenas repetições vazias nos bocarrões de uma multidão desgraçada e desgastada. Eram ditos que de tanto circularem se tornaram verdades.

Deixei uma multidão enfurecida, marcada pela existência oca do ódio, me dizer o que fazer, enquanto que dentro de mim gritava desesperado um ser que sabia o que queria fazer. Uma multidão esfarrapada zumbindo diariamente, seus passos a caminho de lugar nenhum, suas vozes reverberando em nada, seus sonhos implodindo, suas vidas “prosperando”, estagnada em suas “verdades absolutas”: foi o que me guiou.

Era meu ego, altivo e imponente, que drenou, secou, todos meus quereres e porquês. Ouvi então um baque surdo, uma pancada como que de osso contra madeira: meu crânio na mesa. Escorria a seiva da minha vida, vermelha, mas pouca, na têmpora. Ferimento inofensivo, não foi de batida a morte, foi de desgosto.

Talvez digam que o coração do homem não aguentou: “Coitado, tão jovem… Foi-se rápido”, mas a verdade é que de rápido não teve nada. Há muito que o coração batia vazio, e ele foi levando, até que o corpo sucumbiu. Sem batimento, nem sentimento ou ressentimento, ele não tinha mais razão de ser.

Agora eu tinha certeza; sabia que era eu que me via de cima, de baixo, de lado e de frente quando a velha porta de madeira maciça azul abriu. Meu corpo esvaído de vida jazia apoiado à mesa, miserável, já a apodrecer. Sabe-se lá quantas semanas eu fiquei ali pensando no que podia ter feito e não fiz.

Quem saberia dizer o que aconteceu ao meu corpo depois disso eu não sei, fui embora antes de encontrarem aquele pobre homem solitário naquela pobre cidade, que de pobre não tinha nada; nem o homem, nem a cidade. Não era pobre d’alma o homem, apenas tinha um pobre medo da vida que o fazia mendigar seu espirito. Como ser atemporal que sou, me libertei daquele pobre homem. Enquanto chovia a cântaros, eu me vaporizei na noite, purificando o pouco que sobrara de mim mesmo e de dignidade no eu.


JULIA ZULIAN mora e trabalha em São Paulo. Possui formação em Artes Visuais, pelo CDS – Colégio Divino Salvador e bacharelado em Arquitetura e Urbanismo pela UAM – Universidade Anhembi Morumbi. Atualmente é pós-graduanda pela PUC –Pontifícia Universidade Católica no curso de especialização em Arte: Crítica e Curadoria. Possui trabalhos que transitam entre a arquitetura, sociologia, antropologia e imagética. | JZULIANM@GMAIL.COM

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