Subversa

Amizade Antimonotonia | Valdir Cesar Conejo Júnior (São José do Rio Preto, SP)


 (Para Priscila)

eu tive uma amiga poeta cuja língua portuguesa derretia icebergs

e sonhava com tardes de sol inalienáveis aos sábados

na beira de uma piscina onde todas as tensões podiam

ser dissolvidas como fardas militares num drink de aperol

ao seu redor o tempo parava para que pudesse dar conta

de carregar um peso nos ombros capaz de esmagar nove pedreiros

como elefantes soterrados por tijolos na construção do taj mahal

suas palavras encharcadas de erotismo e liberdade corroiam

as paredes moralistas e criminosas dos manicômios e conventos

sua existência niilista bastava para que os donos do mundo

tremessem diante de algum veneno ácido que pudesse pingar

como tinta antimonotonia de sua caneta azul-cazuza

e virasse a tradição de pernas para o ar e enlouquecesse

as estações do ano com primaveras uivando no pescoço da noite

e luas cansadas das marcas de abuso deixadas pelo sol

independentes com suas crateras maquiadas e emanando luz própria

de brilho tão intenso capaz de cegar as ratazanas machistas

nas coberturas de brasília.


VALDIR CESAR COENJO JÚNIOR (Mirassol, SP) | Desenhista, poeta e bêbado sempre que possível. Fez ciências sociais, mas deixou de dar aulas para ser sempre aluno. | valdircjr@live.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Gilsa 15 de maio de 2018 em 22:44

    Surge no firmamento da poesia brasileira um astro com brilho próprio. Parabéns, Valdir!

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