Subversa

Antolhos | André Mellagi (São Paulo, SP)


Você por aqui? Não, não tenho nada agora. Pode me dar licença, senão me atraso. Espere, pode me ajudar a carregar essa mala? Eu te pago. São só três quarteirões, hoje foi um inferno conseguir uma vaga. Pode carregar mais essa? Obrigado. Sim, trabalho por aqui, por que quer saber? E o que você faz? Não entendi direito que você falou. Aliás não entendo nada do que você diz. De onde você é? Nunca ouvi falar. Não, não quero seus doces. Nem seus carregadores de celular. Quanto é esse cartão de memória? Deixa pra lá, falei que não tenho nada, somente esse trocado pela ajuda ao carregar minhas malas. Não, não mexa nisso. Pronto, agora vou ter que limpar depois.

Escondeu-se em seu carro e deu partida. Nas ruas apenas outros automóveis trocavam impropérios com buzinadas. Estaciona o carro no beco, sobe as escadas com suas maletas e entra no cubículo. A luz da televisão na sala hipnotiza diversos rostos em silêncio. Entra com cuidado evitando pisar nos colchonetes espalhados pelo chão, onde alguns dormem em meio a choro de bebês, tosse e pigarros. Agacha para passar debaixo de calças e camisas estendidas nos varais atravessados pela sala. Um grupo na cozinha prepara uma sopa da mistura que sobrou do dia. Ouve uma gritaria que depois se transforma num monólogo insistente de uma voz rouca. Vai à porta do banheiro, aguarda um velho sair e entra deixando o discurso da cozinha para trás ao trancar a porta. Arruma um espaço por entre toalhas molhadas para pendurar a sua e toma seu banho. Ao abrir a porta, duas crianças rapidamente entram no banheiro por debaixo de seu braço. A voz rouca continua a falar até que o silêncio de todos ocupe mais espaço sobre aquele relato incompreensível. Ajeita um lugar na cama ao lado de uma mulher que amamenta e de uma senhora que já dormia ajeitada com sua bolsa de colostomia.

Na manhã seguinte não teve tempo de esperar pelo café. A fila no banheiro o fez decidir ajustar a gravata no retrovisor do carro. Sai buzinando para que o catador de papéis saísse da frente, disputa espaços com outros automóveis em mútuos xingamentos. Teve que parar no estacionamento amontoado de carros e distante da entrada da empresa.

Entra no escritório onde mesas dispunham-se concêntricas à mesa central onde ele ocupa. A única iluminação da sala era direcionada do teto à sua mesa e o restante era dos monitores de videoconferência distribuídos em círculo. Imagens alternavam o sobe e desce na bolsa de Tóquio e a queda do governo da Bélgica. Refazem regulamentos diante de uma carga apreendida na Tailândia ou criam nova taxa aduaneira na Colômbia. Os comandos das teclas de seu computador tiravam dois mil postos de trabalho da Rússia ou alavancavam a campanha de um novo líder político em Madagascar. No final do expediente, a mudança da razão social da empresa o fez agendar a troca dos cartões de visitas para a próxima terça-feira.

O porteiro eletrônico registrou a hora de saída e a sua imagem carregada de valises. Cansado, teve que olhar ao redor, deixando-se esbarrar por corpos apressados na rua. Rostos sem nome iam e viam desviando de sua presença estática. Enfim encontra uma mulher parada que estendia com a mão uma caixa de chocolates e um ramalhete de carregadores de celular. Aproxima-se dela.

Você de novo por aqui? Não, não tenho nada. O que quer agora? Não, com licença, já falei que não dou! Não, não quero comprar chocolate, vai me fazer mal. Espere, pode me ajudar com essa mala? Eu te pago. São só três quarteirões.


ANDRÉ MELLAGI é formado em psicologia e doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo. Publicou contos em sites e antologias literárias tais como Mallarmargens, Revista Pulp Fiction, Diversos Afins, revista gueto. Em 2017 lancei meu primeiro livro de contos Bricabraque pela editora Patuá. andre_mellagi@yahoo.com.br

 

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