Subversa

Apague as luzes | Celso Yokomiso (São Paulo, SP, Brasil)

Nunca gostou de escadas, era assim desde pequeno. Tinha que subi-las quase todas as noites, enquanto seus pais já no terceiro sono. Cabia a Euclides o dever de apagar as luzes e checar se as portas estavam fechadas. Tarefa nada pouca naquele sobrado antigo, com mais portas do que o de costume.

Nas subidas sempre a impressão de que alguém o olhava pelas costas. Uma presença estática a contemplar a corrida estabanada do moleque, após o interruptor desligado. Mas Euclides não bobeava. Pulava os degraus em direção às luzes acesas do corredor de cima. Se Euclides voasse, em quase nada se diferiria de uma mariposa.

– Deixa de bobagens, moleque. – encorajava o pai.

Seguindo seus conselhos, Euclides repetia a si mesmo, coisas da cabeça. Avaliava, depois, se algo havia ali, quem sabe, até o protegesse. Pura bobagem. Melhor seria mesmo era espantar aquele cruz-credo, enxotá-lo para o raio que parta.  Só não sabia como.

Na noite da “grande briga”, assim se recordava Euclides, os insetos se estatelavam sobre as lâmpadas. As roupas de seu pai eram lançadas escada abaixo por sua mãe, de forma virginiana. Primeiro voaram as camisas e cabides, seguidos pelas calças. Por fim, as roupas miúdas, que rolaram junto com as gavetas, a madeira bem mais sonora do que o algodão.

Euclides, como das outras vezes, se escondia ao lado do sofá, os joelhos bem agarrados pelos braços. Quando os xingamentos aumentavam, abaixava a cabeça. Resmungava, “não, não, não”, como um mantra.

Aprendia a se sentir impotente, embora seus pais não soubessem do valioso ensinamento que ofertavam ao filho. Certa vez, Euclides se colocou no meio do bate-boca. Um safanão foi o suficiente para nunca mais se meter onde não era chamado. Seus pais, realmente bastante sábios.

– Ela é muito melhor que você.

O empurrão do pai derrubou a mãe sobre a mesa de jantar. A quina de vidro ralou seus braços. Haviam chegado ao limite, ambos sabiam. Apesar das ofensas, uma linha vermelha raramente era transposta. O silêncio parecia um dilúvio sobre a sala. O pai bateu a porta com estupidez, levando apenas o casaco marrom entre as roupas espalhadas.

A mãe ainda se demorou no chão. O choro era longo, com pausas engasgadas. Euclides aproximou-se dela, aos poucos, deixando a proteção dos braços do sofá. Havia perdido a naturalidade dos filhos que se jogam por cima dos pais. Mas venceu o constrangimento. Abraçou-lhe como uma estátua. A mãe respondeu com três tapinhas nas costas do menino. Ela, sem nada dizer, subiu as escadas e fechou-se no quarto.

Euclides ligou a televisão, para assistir ao mesmo desenho de sempre. O tapete era bastante confortável, quase como um colo. Quando será que o pai volta? Assim queria acreditar. Foi à cozinha pegar um copo de refrigerante e o pacote de salgadinhos aberto ontem. Ainda achava graça daquele episódio. Torcia sempre para os ratos.

De madrugada, quando Euclides acordou, a casa estava quieta. Quase tropeçara nas camisas espalhadas pelo chão. Vasculhou com os olhos a sala à procura de indícios quaisquer de que o pai retornara. Nada. Assim mesmo, precisava apagar as luzes. Como se pudesse trazer de volta um pouco de seu pai.

Desligou o interruptor. Ninguém mais o olhava pelas costas. O cruz-credo desaparecera. Subiu as escadas vagarosamente. Não dormiria aquela noite. Quem sabe, podia surpreender o pai entrando pela porta. Queria ouvir, “Apagou as luzes, meu filho?”.  E o menino responderia, “Não vê que está escuro?”. “Não vejo.” E ririam.


CELSO TAKASHI YOKOMISO nasceu em São Paulo, é Doutor em Psicologia Social pelo IP-USP. Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Escreveu LIMITES (prêmio Festival Universitário Nacional Xerox do Brasil, publicado pela Ed. Cone Sul,1998) e HIATOS (prêmio Nascente – USP/Editora Abril, 1999). | CELSOTY@YAHOO.COM.BR

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