Subversa

Aqui se encontram os que vão morrer e não sabem | Francieli Borges (Santa Maria, RS)


Aquele anel não estará na minha mão quando o vinco for maior
no momento das unhas quebradiças como os próprios antepassados que me habitam
Ele não sentirá o perfume do algodão limpo entre seus vãos
não mudará a forma com o peso da porta
da água quente do chuveiro
do detergente da louça asséptica
Aquela joia não embalará minha filha com perfume de leite
não assistirá os rostos ao contrário em qualquer ônibus
não mergulhará na cachoeira de Itaara
nem na Fontana di Trevi
Esse anel simplesmente não assistirá outra aula
aos anos passando da vista tão rara do vão do guarda-roupa
tampouco se lambuzará com o molho suntuoso escorrendo da boca
Destinado às ausências, ele nunca foi o elo de um casamento
não esteve entre pessoas que se amaram sob o sol
nunca sentiu o emaranhado dos cabelos rareando
da pele descamada de inverno excessivo
Um objeto-quase
endereço das negativas
Um arco vazio
jamais sujou-se com a terra das manhãs
não ouviu o grito do balanço de ferro em um parque surgido às pressas
Tranquilo e nada
Ele viveu e morreu na estreita clausura
símbolo de um cuidado excessivo
delírio
Elo e fim.


FRANCIELI BORGES | doutoranda em Estudos Literários, com tese sobre Graciliano Ramos. Escreve porque saber-se é um trabalho de edição. | francielidborges@gmail.com

 

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367