Subversa

As angústias da Flip (versão Maria Bethânia) | Morgana Rech


Fotografia: Gabriel Bustamante


“Lá vai o trem com menino
Lá vai a vida rodar
Lá vai, ciranda e destino,
Cidade, noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra, vai pelo mar”

Foi a primeira vez que fui à Flip, essa de 2018, que prometeu a todos uma lua vermelha, dias de sol, uma nau feminina que levou as tardes com força e braçadas de balé, uma Hilda Hilst risonha, satisfeita, que nos olhava por cima das igrejas sussurrando ao pé de nossos ouvidos: menos altivez e mais atenção, menos altivez e mais atenção, menos altivez e mais atenção. Olha-me de novo.

Angústia 1

Em Paraty e em qualquer lugar que seja, o livrão que reúne Toda Poesia, pesado e profundo como Hilda, vermelho como o eclipse de Aquário, brilhantemente editado, era uma espécie de Flip 2018: EU FUI. Eu não tenho o livro, embora o ache lindíssimo e importantíssimo. Tenho, isso sim, uma espécie de ranço angustiante a cada vez que o vejo. E sei bem o motivo, o mesmo que me angustiou durante esse sonho impossível que é a Flip: é que acompanhei o autor do posfácio, Victor Heringer, estudando a Hilda dia e noite durante alguns meses para escrever algo que lhe valesse ser publicado ao fim do rubro tomo. Recebi a notícia pelo whatsapp, enquanto caminhava apressada pelo Rio. Victor na serra, muito contente pelo convite, escreveu a mensagem com dois olhinhos assim: ^^, que demonstravam sua enorme felicidade. Depois, foram dias e dias lendo teses e dissertações, gesticulando com as mãos o que lhe parecia bem e o que lhe parecia mal, vinho e Vivaldi, vinho e Vivaldi, Hilda e Hilda, Victor e o texto: “esse vento frio maravilhoso batendo na minha cara”, sorrindo dizia: “se eu tenho trabalho, nunca sei que dia é. Se não tenho, todos os dias são fins de semana, meu bem, e agora eu tenho, então hoje é sempre sábado”. O posfácio, num primeiro momento, chama pouca atenção do público, sedento de Hilda, como se espera. Victor não estava na Flip, mas estava nas mãos de centenas de pessoas, dentro daquele tijolo escarlate. Eu, apressada (outra vez), talvez por vê-lo presente demais naquele espaço vago que ficou na cidade, tinha vontade de chegar em cada um e perguntar: “viu só que maravilha de posfácio?” O autor foi lembrado oficialmente duas vezes no evento, que eu saiba, para além de nós, que levamos ele na cabeça para lá e para cá. Eu não tenho o livro porque não tenho coragem.

 “Esquecer, não.
Esconder, não.
Brilhante, de noite, dentro da mata, vejo você”

Angústia 2 

De haver e não haver poesia num evento de poesia. Ter de chegar até o verso pela voz pública. De misturar o popular com o humano, de não saber direito onde começa um e onde começa o outro, ou a espessura da linha que corta. Angústia de querer que nunca mais termine, que a vida fosse uma Flip permanente e fervesse as nossas cabeças até não haver mais o público nem o político, só as palavras certas, na hora certa, com a beleza certa, sem mais nem menos. Sem ninguém ter de apreciar nada. A angústia das grandes demonstrações, que a mim sempre deixam apenas pequenos pedaços verdadeiramente firmados quando vou embora. Na Flip 2018, dos pedaços que certamente chegaram em casa comigo, destaco: os assombros da maravilha impossível daquelas ruas, a vontade quase violenta de estar ali, a vontade quase violenta de me recusar a estar ali, a familiaridade com tudo e ao mesmo tempo com nada, o tamanho de um espaço enormemente vago e essa fala maravilhosa da inteiríssima Isabela Figueiredo que, dentre outras coisas, disse:

“Eu não posso continuar a falar com um fantasma. Eu tenho uma memória de muitos anos violentos praticados pelos colonos e depois de muitos anos violentos praticados pelos colonizados. Há muita violência no meu passado, e essa violência reflete-se em mim na forma como eu escrevo. Eu escrevo de uma forma violenta pois existe violência dentro de mim. Ela existe, eu não sou uma pessoa meiguinha, pacífica, eu sou brava. Eu sei ser má, há uma violência sempre aqui a tsch-tsch-tsch, a pulsar”

Angústia 3

De não ter lido todos os livros. De não me sentir ainda capaz de estar onde deveria. De sacralizar a literatura e enterrá-la dentro de mim em forma de uma vaidade que muito me desagrada. Vamo-nos enterrando uma à outra numa feliz intimidade.

“Como não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar”

 Angústia  4

De ver que dependo do mal estar da arte para sobreviver. Agora não sei se foi Hilda ou a elegantérrima Eliane Moraes que perguntou “por que ainda insistimos em colocar palavras nas páginos em branco”. Quer dizer, minha contradição é tão grande que sinto vontade de brigar com as pessoas para provar que a poesia é livre para ser interpretada; que não existe isso de “o verso tal quer dizer tal coisa” ou “o poeta quis dizer isso”. O demônio da teoria, de Antoine Compagnon. Brigar pela liberdade, a maior prisão que há. Angústia de ver o tamanho da perda de tempo que é isso. E de passar a pensar nisso. Que a vida está passando e eu estou como Isabela, perplexa diante da minha insistência em falar com quem não pôde estar presente. E tenho ainda menos saídas porque Isabela foi fazer análise nesse momento; enquanto eu é que trato dos outros e, patinando na lama da arte, luto para defender, por exemplo, o Adorno que diz que: “talvez só uma humanidade libertada e reconciliada venha um dia a entregar-se à arte do passado sem a afronta, sem aquele perverso rancor contra a arte contemporânea, que serve de reparação aos mortos”. E digo isso com armas tão antigas quanto um seboso livro do Manuel Bandeira na mão, o Ultimatum do Álvaro de Campos no Spotify, a esquisitice do meu avô poeta nas anedotas familiares, uma concha colhida pelo Victor pendurada na parede – colhida, aliás, num momento em que ele disse que talvez devesse encher seu quarto de conchas, fósseis e quinquilharias para ser um verdadeiro poeta – uma concha colhida no vasto areal do Rio Grande do Sul.

Mas tenho também um Alberto Pimenta aqui do lado e uma revista que posso jurar que está em paz com o futuro, assim como essa fotografia do Gabriel Bustamante, que acordava mais cedo que todos e viu a Paraty desabitada. O que falta de paz em mim, aqui resta. Posso jurar que sim, sem brigas nem teorias, com muita facilidade. A Subversa anda de braços abertos por aí. A equipe de imprensa flanou em Paraty. E agora temos todos a Hilda; e então temos mais a nós mesmos, ainda que com mais imperfeições. Essa poeta milagrosa, que venceu todos os diálogos com os fantasmas, está fresca como nunca em nossas vidas, o que é ótimo. É verdadeiramente ótimo. Na verdade eu não minto, acho que só digo algumas coisas com mais coração do que outras. E assim será, e não há angústia nenhuma nisso.

 “Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim”


Bloco de Notas | A angústia

de ver que a vaidade que odeio fora vem desde dentro,
como a violência de Isabela, que é ao mesmo tempo a ternura de Isabela

se sinto o verso se esfacelar das mãos
é porque eu não estou nem dentro nem fora
é porque pairo

as homenagens aos mortos
o horror dos amigos que não mencionam
a precariedade de todo o texto
que quer e não quer ver
nenhuma palavra por mais bonita que seja
o problema de ter a mão, a caneta, a credencial, a revista, os conhecidos, mas mesmo assim não ter voz naquilo tudo
como num cinema idealizado que quando abre é filme mudo

duvidar que voz alguma alcance tanta fala no escuro
e uma frase querendo romper o hímen do oxigênio da sala
fundar uma nova condição de vida
mas é tudo velho
e mofado

ser a hilda então,
me trancar numa casa da chuva se for preciso
não há mais nada para ler, Victor disse antes de voar.
voou para onde depois de dizer isso?
está lendo o quê?

 


As músicas do disco abaixo foram tocando enquanto o texto foi se compondo. Seus trechos entraram no texto em tempo integral, ou quase isso.


MORGANA RECH | Psicanalista e uma das fundadoras da Subversa.

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