Subversa

“As mortes do amor”, “O príncipe”, “Pigmaleão e Galatéia” e “A pele fria” | Gabriela Silva

As mortes do amor

Mataram o amor à minha frente
cortaram sua garganta.
Minhas mãos não conseguiram
estancar o sangue que se esvaía

quente, borbulhante, amoroso.
Mataram o amor à minha frente
com seis tiros.
Nem vi o assassino,
quando me virei

de olhos vidrados, o amor jazia inerte.
Mataram o amor à minha frente
Envenenado,
com poções de ervas sinistras

feitas sob a lua cheia
e intenções de bruxaria.
Mataram o amor à minha frente
de acidente de carro.
Saltou para fora da janela
caiu na calçada,
já sem batimentos cardíacos.
Mataram o amor à minha frente
de cansaço.
Fizeram-no correr pela praça, pelas ruas
o corpo não aguentou o ar,
raro e denso.
Finalmente mataram o amor

bem à minha frente.
Não o pude ajudar, morreu de velhice,
caducou no esquecimento,
de quem lhe tinha chamado para brincar.


O príncipe

Pousa tua mão sobre a água.,
Ausculta meu coração

ainda bate, mesmo encharcado,
por entre os tristes nenúfares.
Não sou mais as cantigas que entoava

evocando a infância,
o sonho de ser

metade de uma vida cindida.
E de palavras feito

para as palavras retornaste.
Maculado pela ideia de ser a mão
que tudo pune e a mente que tudo pensa.
Não te dei meu corpo
quando a pele úmida apenas pelo orvalho

ansiava pelo toque
de um único beijo.
Agora, minha pele se esquece
de perceber a matéria.
Não sentirei a velhice
nem o tempo não ser mais nosso.
No silêncio que te restou

fica o eco do meu amor,
sem veneno ou fio que corte

a parte mais dura que há em ti.
O sonho que se perde ainda na madrugada.
O esboço de ser o que não sabes ser:
as palavras que te mantiveram vivo

para a morte que de ti mesmo esperavas.


Pigmalião e Galatéia

Me desenhaste
com teu punho
cansado do trabalho e dos dias.
Nas formas do meu corpo
colocaste teu molde
e desejo.
Com as pontas dos teus dedos
anelaste meus cabelos,
pintaste lábios e pequenos cantos obscuros.
Nas sombras e dobras
deste o que lhes cabia
profundidade e contorno.
Da tua saliva umedeceste
tudo o que precisava
de liquidez.
De cera compuseste
meu coração
no meio de toda a matéria.
E quando me terminaste
com a goiva de carne
me deste um nome.
Com o qual me chamas
quando te esqueces que és homem
e eu, pedra.
Sou sangue e músculo,
permanência e esperança,
suor e gozo.
E quando retornas
aos teus instrumentos
eu cerco teus sonhos
e habito neles,
até a hora
em que mais uma vez me despertas.


A pele fria

De mármore feito
meu amado não se move.
Contempla o mundo
do alto da montanha.

Dou cinco, seis, sete passos
em sua direção.
Impassível
ele não caminha para mim.

Engano me às vezes
pensando ser sua voz
mas é apenas o vento
roçando a matéria do seu corpo.

E quando sonho
que seus olhos me veem
dou me conta
que o criador lhe fez assim.

Nas linhas esculpidas em frio
seu coração não bate,
apenas ecoa
o silêncio que me oferece.


GABRIELA SILVA | natural de São Paulo, formada em Letras, especialista em Literatura Brasileira (2003), Formação de Leitores (2005), mestre (2009) e doutora (2013) em Teoria da Literatura pela PUCRS, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. É professora de literatura e escrita criativa nos gêneros poético e narrativo. Tem pós-doutorado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no Centro de Estudos Comparatistas. A pesquisa é sobre as novas identidades de escrita portuguesas. É professora do ECON – Escrita Criativa Online – PT, coordenada pelo escritor e professor Luís Carmelo. É uma das criadoras e coordenadoras da Feira Além da Feira, evento que realiza a terceira edição consecutiva em Porto Alegre. Ainda é céu publicado pela editora Patuá em 2015 é seu primeiro livro de poesia. Tem artigos e ensaios publicados sobre escrita ficcional, escrita criativa e literatura.É uma das organizadoras do Escrita Criativa, pensar e escrever literatura, uma das primeiras publicações sobre o tema no Brasil, o livro foi editado pela PUCRS em 2012 com a coordenação geral de Luiz Antonio de Assis Brasil. É colaboradora do Jornal Rascunho. Atualmente é bolsista de PNDP – Capes na Universidade Integrada do Alto Uruguai e Missões, na área de Literatura Comparada.


Obs.: Gabriela Silva esteve na Casa Subversa em dezembro de 2017, em companhia da escritora Alexandra Lopes da Cunha, falando a respeito da Poesia como Percurso.


Fotografia: Luana Kolling

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Maria do Socorro Pereira de Assis 23 de dezembro de 2017 em 20:53

    Gabriela escreve sutilmente e libdamente sobre a força do amor, das pessoas , da vida. Puro talento!

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