Subversa

Às vezes o silêncio ajuda mais | Anderson Freixo (Salvador, BA)

Não há nada que você diga que faça eu me sentir melhor. No entanto, cada palavra que eu falo tem o potencial de te destruir, então me calo, sou nocivo. E você também dança na beira de um precipício, e é desnecessário empurrar alguém quando se decide cair, principalmente alguém de quem se gosta; é inclusive falta de etiqueta. Mas é um silêncio difícil quando você pergunta o que é que há.
Melhor murchar
Melhor morrer
Melhor sair
Melhor ir
sozinho
pra que
arrastar mais qualquer coisa
e ir rimando infinitivos, conjugando os gerúndios?

Nem torrente eu sou, sou gota última, solo que seca, se não o deserto todo

Não diga nada. Me deixa doer e colocar pronomes no lugar errado. É só mais um dia difícil. E é só o primeiro dia antes do resto. É só um resto do que transbordou. É só a vida.  E ela

Vai passar
Não diga nada.

É só o sustentável peso de ser. O susto. O SUS. Os ossos. Sustentando o sustentável peso de ser. É só o alvorecer de mais um dia em que meu corpo acordou vivo. E  a gente vai se tornando horrível, capaz de destruir a quem se ama, mas eu não, eu me calo. Eu me calo. Eu me calo. Eu me calo, e escrevo poemas para explicar o meu silêncio. Parece que a vida rapta bebês e os transformam em adultos ruins. Mas eu não. Mas a mim não. Mas. Mas

Vai passar
Não diga nada.


ANDERSON SOARES FREIXO | nascido em Niterói, mora há 10 anos em Salvador, onde graduou-se em Letras pela UFBA. Já teve contos publicados por outras revistas, como  Mallarmargens, Samizdat e Desenredos. Atualmente publica seus textos no blog zonadofreixo.blogspot.com

 

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