Subversa

Assim falou a pessoa travestida de pessoa de fé | Felipe G. A. Moreira [Metamodernismo]


Felipe G. A. Moreira

“Crocifissione” (1941) do Renato Guttuso


Nessa coluna, quero falar de um poema da Francesca Cricelli; o É uma longa estrada repatriar a alma (ou, em italiano, “È lunga la strada per rimpatriare l’anima”). Ele faz parte de uma coletânea de poemas da Francesca. A coletânea se chama Repátria. Ela foi publicada em 2015 pela Demônio Negro. Negativamente, acho que esse poema da Francesca resiste a ser chamado de poesia de reconhecimento ou de poesia modernista fracassada. A razão é que não vejo bem como entender o eu-lírico desse poema como um tipo ordinário ou como um outro do homem branco.

Como já disse na primeira coluna, o tipo ordinário é uma pessoa de classe média (sobretudo, carioca ou paulista, no caso da poesia brasileira contemporânea), é alguém que tem as experiências ordinárias da gente dessa classe. Tipo: ela faz comentários pseudo-eruditos em filas de cinema cult; ela comenta sobre sua última viagem a Paris, etc. A experiência que é descrita no “É uma longa estrada repatriar a alma” não me parece ser desse tipo.

Como também já disse na segunda coluna, os outros do homem branco são os não-homens, não-brancos, não-héteros, não-classe média, não-europeus ou descendentes de europeus, etc. Não me parece ser esse o tipo que fala no poema da Francesca. Na verdade, o poema não diz muito sobre quem é o seu eu-lírico. Quero dizer: sei lá qual é o gênero, a sexualidade, a classe, a nacionalidade, etc., desse eu-lírico.

Positivamente, minha leitura é que o “É uma longa estrada repatriar a alma” é poesia metamedieval. Estou metendo essa de “meta” pela segunda vez. A primeira foi quando falei sobre a poesia metamodernista. Também estou metendo que uma poesia é metamedieval se ela pensa sobre os pressupostos da poesia medieval e nisso pretende também pensar para além dessa poesia.

Uma poesia medieval (tipo a de Dante) é uma que representa a pessoa de fé por meio de uma poesia que se vale de métricas rígidas (no caso de Dante, a terza rima) e elogia/aponta para uma repatriação da alma. Uma pessoa de fé é uma que pensa mais ou menos assim.

Antes. Nós tínhamos uma pátria. Isso porque nós éramos só alma. Agora. Nós estamos no exílio. Nós somos almas presas em corpos. Um dia. Nós nos repatriamos ou não. Nos repatriamos se agirmos de acordo com as normas cristãs. Ou não. Porque se não agirmos de acordo com essas normas, ficaremos no exílio pra sempre. Outro nome do exílio pra sempre é inferno.

Por que se valer de métricas? Porque, o poeta medieval responde, assim fazemos com que a própria matéria do próprio poema tenha características similares às da imaterialidade. A matéria do próprio poema são: as letras do poema na página, o som das palavras quando um poema é recitado, etc.

Mas a pessoa de fé acha que a matéria do próprio poema (como qualquer matéria) é caótica, é má, é feia, é pecaminosa, é corpo. Daí, fazer uma poesia que tem características similares às da imaterialidade é tentar fazer a poesia harmônica, boa, bela, casta… A poesia alma. Que usa letras. Mas apenas as necessárias. Que tem som. Mas quer captar o silêncio.

Repatriar a alma, então, no sentido medieval é deixar de ser alma presa no corpo e voltar a ser só alma e Um com Deus, depois da morte material.

Não é assim que a banda toca no poema da Francesca que eu estou falando aqui. Mas tem vezes que parece que é. Isso porque o próprio título desse poema —“É uma longa estrada repatriar a alma”— assim como o nome da coletânea da Francesca (“Repátria) fazem parte do vocabulário da pessoa de fé.  Quero dizer que a pessoa de fé fala assim: precisamos repatriar nossas almas.

E também é assim que o eu-lírico do “É uma longa estrada repatriar a alma” fala. Mas esse eu-lírico não é a pessoa de fé. Esse poema não se vale de métricas rígidas. Mais: ele aponta para uma repatriação da alma diferente da medieval. Ou ao menos é assim que eu leio o poema da Francesca.

Quero dizer: acho que esse poema é poesia metamedieval no sentido que eu falei acima. Nisso, eu interpreto o eu-lírico desse poema como sendo a pessoa travestida de pessoa de fé. Em outras palavras: uma pessoa que talvez não tenha nenhuma fé, mas que usa o vocabulário da pessoa de fé.

A pessoa travestida de pessoa de fé pensa assim.

Talvez a pátria, o exílio e a repátria que a pessoa de fé crê existam. Talvez, como a pessoa sem fé acha, eles não existam. Mas o que tanto a pessoa de fé quanto a pessoa sem fé podem aceitar é que antes e hoje e um dia, o que sempre foi, há e haverá é a luta entre ficar na pátria e sair para o exílio.

Ficar na pátria num outro sentido não medieval: o de ter um “nome”, ser “contido” “apanhado” e “compreendido” pelos que se parecem contigo. Os que se parecem contigo são aqueles que você vê ao ver a si mesmo feito num “espelho”. Aqueles que compartilham algo contigo, tipo uma nacionalidade (e.g. brasileira ou italiana), uma língua comum, valores comuns, etc.

Sair para o exílio também num outro sentido não medieval: o de não ter mais “nome”, não ser “contido” “apanhado” e “compreendido”… Quebrar o espelho. Feito uma brasileira entre italianos quebrando um espelho, uma italiana falando italiano com brasileiros ou vice-versa.

Não faz então sentido o uso de uma métrica rígida. Porque o que foi, há e haverá é a luta entre ficar na pátria e sair para o exílio e a forma que parece melhor capturar essa luta é a do verso livre do poema da Francesca. Nisso, acho que esse poema é meio que harmônico e caótico, belo e feio, etc. Ele quer fazer “silêncio / para ouvir”. Ele quer “demolir para construir”, etc.

Pra mim, então, “repátria” nesse poema da Francesca significa o processo de se aceitar o conflito entre ficar na pátria e sair para o exílio no sentido não-medieval que eu acabei de falar. “É uma longa estrada repatriar a alma” porque temos uma tendência a querer ficar na pátria ou a sair para o exílio nesses sentidos. Isto é: toda gente tem uma tendência a não aceitar que necessariamente não conseguimos nem um, nem outro. Não conseguimos porque ser é estar no conflito entre ficar na pátria e sair para o exílio.

Assim falou a pessoa travestida de pessoa de fé. Assim ela falou contra Nietzsche.

Porque ao falar assim, eu imagino que essa pessoa travestida de pessoa de fé também poderia acrescentar que o nosso século parece estar mostrando a impossibilidade de eliminar a religião. Tendo em vista essa impossibilidade, talvez não seja lá muito interessante lidar como a pessoa fé como Nietzsche (e antes dele Hume e Marx; e depois dele, Richard Dawkins e Daniel Dennett) lida.

Isto é: apontando para a possibilidade de um mundo sem religião. Não sei se isso ainda é pertinente mandar essa. Talvez seja. Não sei. Mas me parece interessante tentar buscar pontos em comum entre crentes e descrentes. Acho que o “É uma longa estrada repatriar a alma” é um desses pontos.

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FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica, Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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