Subversa

Bolos de laranja e chocolate | Adriana Vieira (Rio de Janeiro, RJ, Brasil)

Ilustração: Helena Barbagelata

Ilustração: Helena Barbagelata


Sexta feira 13 para ela é um dia comum e se for em agosto, conhecido como o mês do infortúnio, bem melhor.  Ela traja negro, tem em riste um coque rigorosamente bem feito. Aparece cedo, bem antes do sol nascer. Mexe no porão, procura a cola e termina de recompor o vaso anteriormente quebrado. Chamada de vó do caco, remexe nos guardados, redescobre fotografias pretéritas. Em poucas fotos usando outra cor que não seja o negro. Em uma delas está segurando nos braços uma menina de bochechas rosadas.

Sobe as escadas e entra na cozinha. Os utensílios gastos remontam da época em que casou. A batedeira ainda funciona. Bate dois bolos. Desce a íngreme ladeira em direção a prefeitura. O fiel gato preto a acompanha e por toda esquina as pessoas se esquivam. Preferem os cachorros, ao que parece. Com estranheza, eles atravessam a rua em meio aos carros e nenhum carro passa por cima do seu corpo magro e elegante. Nas mãos carrega dois bolos, um para a mulher do prefeito, o outro para o delegado.

Antes mesmo de entrar na porta principal do palácio da cidade, um senhor de barba por fazer a reconhece, e com a voz embargada diz algo inaudível. Ela sorri, e o abraça enquanto os bolos, um de laranja e o outro de chocolate parecem flutuar na altura das suas mãos. O senhor se surpreende e logo depois se imobiliza feito estátua, com os pés plantados. Ela esboça um meio sorriso. Dá um piscada de olhos e prossegue em sua missão.

Na esquina da ladeira íngreme com o Palácio, as flores estão acanhadas, bem diferente de ontem quando pareciam sorrir de tão vivas. Os tons acinzentados lembram uma cidade bombardeada.  Ela se lembra do dia em que pegou a pupila em seus braços e a criou como sua filha. Naquele dia a salvou da fúria de sua mãe em crise puerperal. Os olhos verdes acompanhando o ritmo das flores do canteiro da praça.

 Eles chegam no prédio anexo da prefeitura, o porteiro não a vê, mas encara o gato e o enxota. Ele se eriça e mia forte deixando o porteiro com medo e arrependido. A velha sobe o elevador sem ser vista ao mesmo tempo em que o gato lambe suas canelas engelhadas. Abre-se a porta no terceiro andar. Ela dá dois passos e bate no único apartamento.

Sem olhar pelo olho mágico, a empregada bem vestida, com os sapatos combinando com o traje branco e vermelho, usa touca, e cheira a lavanda. Ela abre a porta e não encontra ninguém. Cismada, percorre o largo e comprido corredor, enquanto a velha põe o bolo em cima da mesa de mármore, com um bilhete endereçado à dona da casa.

Ela sai. A empregada retorna. O gato, disfarçado de tapete, quieto, segura a porta do elevador com o focinho. Descem e escutam o grito da empregada ecoando na portaria. O porteiro se refugia em seu mezanino e desconfia de algo relacionado ao gato.

Enquanto caminham pelas ruas de paralelepípedos, algumas pessoas a reconhecem e antes mesmo de se dirigirem a ela, paralisam-se como o primeiro que a reconheceu. O guarda de trânsito permanece apitando – seus olhos parecem sorrir por tê-la visto.

Vó do caco cruza a praça em direção à delegacia. Ela precisa levar o bolo de chocolate para o delegado Antônio.

Quando chega, o encontra remexendo em seu bigode comprido e desabafando com Dutra, algo como, meu amigo, que falta me faz a velhinha da ladeira dos martírios.  Lembra dela? Sempre afável e que coração! Dava pena, né?  Ela cuidando daquela menina com aquela idade. E ainda sobrava tempo para fazer bolo. E que bolo!

Nesse momento ela sorri de rabo de olho, enquanto coloca cuidadosamente em cima do birô de Antônio o bolo de chocolate.

Assim como a mulher do prefeito, o delegado é importante para ela.  Um por que perdoou sua pupila, e a livrou da cadeia, rasgando o relato do guarda que teve sua bicicleta furtada. A outra, por ter feito encomendas de seus bolos por anos e anos, religiosamente quatro vezes por semana, para que pudesse alimentar sua família.

 Sem ser vista, ela sai da delegacia acompanhada do gato preto. Em seus passos há uma gratidão imensa, mesmo ciente que a pupila está presa por ter feito outras estripulias, estas não perdoadas por ninguém. Mas aquele delegado era especial, e tinha mais um atributo, gostava do mesmo time que ela, um que exibia em sua bandeira o mesmo tom do céu daquele agosto encardido.

 E com os passos rápidos ela cruza a rua e sobe a ladeira rumo ao número 89. Ao bater o portão, os amigos voltam a se movimentar. A mulher do prefeito prova do néctar das laranjas e lacrimeja com saudades. Enquanto o Antônio resolve visitar sua pupila, que se encontrava presa por ter matado o homem que a estuprou. E naquela sexta-feira 13 do mês de agosto, o gato negro permanecia no casarão lambendo o vaso de porcelana refeito na madrugada daquele dia.

Vó do caco, antes de partir rumo as nuvens, lembrou-se de visitar sua filha no presídio.

Quando chega na cela vê o rosto de sua menina adormecido, lembra-se daquela sexta-feira 13, em que a segurou nos braços e a ninou depois da mãe surrá-la até quase mata-la.

Agora ela está naquele estrado duro e frio, de barriga para cima esbanjando uma vantajosa barriga do filho do guarda que a estuprou.  As mãos miúdas e frias de Vó do Caco acariciam o ventre jovem de sua menina e bem antes da troca da guarda, ela parte rumo ao horizonte.


ADRIANA VIEIRA é pós-graduada em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo. Mantém a coluna “Ki literatura” é essa na Revista Obviuos. Autora do livro de poemas Carpintaria dos Sonhos, com prefácio de Ivo Barroso, atualmente escreve contos. Em 2016 publicará em antologia organizada pelo crítico literário José Castelo e lançará no Salão Internacional do Livro de Turim-2016 o conto Folha Milenar no livro Madre Terra, da editora Acima Mandala.| DRICAVIEIRA1968@HOTMAIL.COM

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2 Comentários

  1. Edson 28 de maio de 2018 em 16:51

    Só sei que gosto e será assim! “Inspirador”

  2. Maria Amelia Vieira 2 de junho de 2018 em 19:11

    Amei, amei, ameiiiii. O meu coração acompanhou aos pulos cada palavra desse pequeno conto. Delicioso como o gosto desse bolo de laranja e chocolate. Apesar da dureza da vida …a poética traz o céu…

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