Subversa

Cabelo | Alexandre Costa (Porto, Portugal)

Aquarela | William Soares dos Santos


deixei um cabelo teu

no topo do armário

 

fechei as janelas e esperei

que a bruma e o bafio

te envolvessem,

como eu não fui capaz

 

fechei a porta de vez na espera

de que mil incêndios bafientos

ardessem, e a porta

trancada numa paz serena

deixasse os teus restos levitar,

entre vozes caladas pelos cantos

sufocados de solidão espessa

e gritos amarrados

 

fechei a porta de vez para sempre,

e esperei que o canto onduloso

dos teus olhos parados no tempo

fossem o único toque, voz e braços

que ecoaria no tempo amarrado,

esprimido dentro de um caixote betânico.

a tua voz suave a escorrer pelas ruas

a abraçar os carros

 

fechei a porta de vez e pousei

o teu cabelo, suave e eterno

na madeira polida.

esperei que se erguesse na casa

como um dia em mim


ALEXANDRE COSTA (Amadora, 1991) vive no Porto. É licenciado em Ciências do Desporto e mestrando Estudos Literários, Culturais e Interartes. Escreve poesia e ocasionais contos. Lançou um livro o ano passado – O Que Traz A Noite (Lisboa, Capital Books, 2016). | ALEXANDREJGCOSTA@GMAIL.COM

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