Subversa

Cálculo | Paulo Vicente Cruz (Rio de Janeiro, RJ, Brasil)

William Soares dos Santos | Aquarela


Quando ela acabou, foi colocada na terra

Flores nascem, borboletas esvoejam por 

                                        cima…

Leve, ela não fez pressão sobre a terra

Quanta dor foi preciso para que ficasse tão 

                                        leve!”

                                                     

                                                     Bertolt Brecht

 

Não houve trombetas ou sinais de fogo. O que veio depois foi uma manhã normal. As embarcações continuaram a cruzar a baía, o trânsito permaneceu intenso, canais de TV e estações de rádio mantiveram a programação inalterada. O fim do mundo é particular e incompartilhável. O dia existe, se estamos nele. Ela está morta.

São poucas as memórias anteriores a sua não-manhã. Tenho registros apenas a partir de seu primeiro inexistente dia. Escolhi um par de tênis amarelo, uma camisa pólo com listras vermelhas e azuis e uma bermuda, cuja cor não lembro.  Vestido com descombinados tons, vi de longe gente em choro de despedida.  Não me aproximei.  Não acompanhei o cortejo. Estive o tempo todo próximo à saída, de onde era possível ver o movimento alheio de quem passava pela calçada em frente.

A continuação do movimento de rotação e translação da Terra traduziu-se numa dor fina no meio do peito, até então despercebido.  O luto é isso: o dedo a acusar-nos de inadequação e de atraso em relação ao ritmo do que segue.  As distâncias que percorremos em marcha instintiva fazem-se lembrar, quando quebramos a perna. Ou melhor, a perna torna-se mais presente quando rompida.  Os dias que se seguiram eram como espelhos, nos quais via sempre como pela primeira vez minha própria imagem. Eu existia sem Ela. Para meu assombro, o ar continuou a entrar e sair de meus pulmões, marcando um descompasso entre o desejo vigoroso de persistência do corpo e uma certa inércia da força invisível que o comanda.

No dia seguinte ao dia seguinte, alguém perguntou quando eu gostaria de voltar às aulas. Diante do inesperado poder de escolha que me era conferido, decidi improvisar minhas férias. Uma semana de preguiça, desenhos animados, seriados japoneses e culpa por algum prazer em meio à tristeza da casa.  Passado o tempo daquela licença familiar concedida ao meu ócio triste, já não fui perguntado sobre minha vontade. Sugeriram-me retomar os estudos.  A essa altura a preguiça já era uma amiga íntima a dar conselhos de procrastinação. Mas eu a traí.  Constrangido, voltei à lista de deveres de casa acumulados e às lições de matemática. As tardes passaram a ser ocupadas por exercícios de reposição de matérias perdidas. O universo punia minha incursão no sexto pecado capital com uma pilha de obrigações escolares.

Em cada tarde passada entre contas de operações básicas e lições sobre teoria de conjuntos, constatava que não haveria compensações sobre qualquer perda. O retorno à rotina apresentava-se como um sermão: segue sem o que já não pode levar. Segui, obediente. Permanece comigo a constatação de um cálculo estranho. A Terra é mais pesada sem o corpo dela pisando a superfície.


PAULO VICENTE CRUZ é jornalista, formado pela Universidade Federal Fluminense. Lê mais do que escreve. | PEVECRUZ@GMAIL.COM

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