Subversa

Cardofonia n.° 1 | Norberto do Vale Cardoso (Chaves, Portugal)


Quando regressou percebeu que o piano de que já se esquecera como o pudera esquecer? se encontrava fechado há largos anos. Mas nem sempre fora assim. Houve tempos em que a máquina de som trabalhava horas e horas a fio, como houvera outros tempos antes de o piano habitar a casa. Esses tinham sido os tempos em que o velho não passava de uma criança e tudo estava no princípio ainda: nessa época a escola de música fazia paredes-meias com a casa onde ele vivia, e a música entrava pelas paredes finas do edifício até fazer parte da sua própria rotina. Habituara-se a brincar escutando o som do piano proveniente da casa contígua e começara a sentir uma sensação estranha quando aquele som deixara de se ouvir, pois aquela sonoridade de aprendizagem fora-lhe parecendo parte da própria casa, e não algo exógeno a ela, fundando nele uma espécie de alicerces, de raízes de uma eterna infância canicular. Assim como se habituara a observar as nódoas de humidade nos cantos da sala, habituara-se ao som do piano. A criança que ele era começara, pois, a sentir um ímpeto dentro dele, primeiro de modo inconsciente, mais tarde como uma vontade definitiva.

Havia na alma da música olhos fechados, lágrimas choradas de fora para dentro, uma vida com partituras por dentro do compositor. Tudo o que desejava era que as notas deixassem de ser semelhantes aos cardinhos rebolando na areia, era que as suas pautas mentais e notas fossem mais do que cardos. No entanto não realizava, pensava entrementes e repetidamente na menina que, na casa do lado, desenhava com a mão direita as notas no ar, na menina que, lentamente, fazia compassos imaginários, que cantava as notas sem jamais errar, enquanto ele, cambaleando ao som das notas que ela cantava, se revelava incapaz de o fazer, limitando-se apenas a escutá-la do outro lado da fina parede, imaginando como ela era, como eram as suas mãos desenhando notas no ar, não sabia o que fora feito dele e dos seus sonhos, porque ele não passara de um compositor à procura da primeira composição, demorara demasiado, tanto tempo para adquirir um corpo que se desvanecera.

Sabia ou sentia que as primeiras composições eram como dentes de leite que necessariamente tinham de nascer, mas que, para falar a verdade, tinham de dar lugar a algo definitivo, mais seguro, mais estável. Sim, já dobrara essa fase, mas o problema é que as primeiras composições se podem tornar num deleite para quem quer compor, o que significa que o deslumbramento pode impedir a maturação, como se os cardos se arrancassem da terra e nos esquecêssemos da terra impregnada nas suas raízes.

Na visita também a cave era uma sombra da cave transformada em oficina, sob o telhado abaulado da casa. De lá ouvia ainda na tenra idade em que se aprendia o ofício junto dos mestres os insistentes dedos trabalhando o piano, não que o acariciassem isso vem depois, quando o domínio principia, mas o som ecoando em escala até àquele lugar onde as figuras se talhavam e retalhavam, e sentia-se distante do seu lugar, do lugar onde haveria de estar, mas penitenciava-se por esses pensamentos, ajoelhava-se sem que ninguém desse por isso, e, na genuflexão da música intermitente, rezava e fazia cruzes para que a Fortuna pudesse chegar.

Rebolava na cama o nevoeiro cobria a cidade, a casa, o homem, a música silenciada, não dormia, pensava, dava voltas à cabeça, rebolava como os rolos imprimindo os primeiros selos e, ao rebolar, o colchão emitia uma melopeia leve, a cabeça latejava e ele tentava pensar noutra coisa que não nas pautas, que não nos maestros esbracejando, que não nos instrumentos, que não no piano, que fechava dentro do próprio sonho na consciência do sonho nevava.

Desviava-se para o olival do avô, o olival que o avô, morto, já não possuía, mas a cada muro, a cada pedra, a cada oliveira, via notas desemparelhadas, e então parecia atacado de uma sezão que o fazia tremer de frio, que, num reviralho, o levava a suar de calor. Acordava, levantava-se, tomava duches de água fria, procurava dormir, mas insone rebolava, receava uma alucinação auditiva, temia rebentar de tanto ouvir, porque o que ele necessitava era de passar para o papel as notas que ouvia, mas que era incapaz de traduzir fosse como fosse.

Não chovia. A linha do rio crescia e as margens engordavam tivera batuta sobre a sua vida, não tivera a disciplina necessária a bata da escola caía-lhe mal, o avental da oficina caía-lhe mal. E o velho pensava que podia ter sido compositor, que as notas ♪♪ que tinha dentro dele ♪ , que sentia dentro dele ♪ como lágrimas, sim, como lágrimas caindo de ternura, de tristeza, de vida, afinal, eram vida. A música ♫ vivia dentro dele, mas não saía de dentro do seu corpo, o seu corpo oco, como um tronco abandonado à sua sorte. O seu corpo velho, mas em que ele apenas ele sentia os ritmos, as melodias, as melopeias, as canções nos lábios e nos olhos, não sabia explicar bem porquê, mas tinha ou sentia que tinha a música nele dentro dele como um instrumento uma cana de bambu entregue ao som do vento sem ser tocado, e o velho tinha-a, sobretudo nos olhos, uns olhos fechados, uns olhos apagados, uns olhos cheios de vida pausa.

E cantava para dentro. Talvez tivesse um dom, mas nunca fora nada, nunca haveria de ser nada como se os sonhos fossem apenas um ideal incompatível com o mundo lá fora, nunca ninguém soubera daquele dom, se era um dom, nunca ninguém o ouvira cantarolar, nunca ninguém o vira chorar, musicar, tocar, a partir de determinada altura o tempo passa tão rápido e nem se dá por ele, compor, e mesmo que lhe tivessem dado uma oportunidade efectiva, tinha a sensação que nunca seria capaz de mostrar a música que havia dentro dele,

estava velho, ainda que não indemne de dor, esperara pacientemente a sua monção, a sua oportunidade, o seu momento, não obstante, não fora suficientemente resoluto para embarcar quando devia, agora estava cardido, tinha muito andamento, como as sinfonias que queria compor haviam de ter, mas de que lhe poderia servir o andamento se já não havia para ele um momento de esperança, ele, aquele velho, era uma velha caixa ♫ de música onde não havia bailarina alguma, e, se houvesse, seria, com toda a certeza, uma bailarina triste e gasta de tanto rodopiar ao som da música da caixinha, mas ele nem a caixa fora ou tivera, ele tinha sido a vida dele tinha sido uma caixa de música ♫ com aparência de homem, uma caixa de música ♫ sem música, sem bailarina, sem mãos de seda e pele branca e pura, uma caixa fechada, uma vida adiada, uma caixa sem corda por onde o relógio da vida pudesse andar.

O homem entrevado, imóvel, deitado na cama, ouvia, além das lascas da madeira estalando na braseira, o som do piano. Ouvira-o durante anos e anos. Ainda que tolhido, aquele som através das paredes sustentara-o.

Mas depois o piano parou, agora parecia que depois de dois dias em que a vida tão rápida tudo começava a parar lentamente, a escola deslocou-se e a melodia deu lugar ao silêncio. O piano fechou-se por vários anos. A casa ressentiu-se e começou a gemer. Com a partida do piano foram partindo outras gentes e outros anos. A sua casa era a única habitada na rua. Mas era uma casa como uma caixa de música fechada, de onde não se alijava qualquer som. Como se se tratasse de uma caixa subterrânea que, tocando debaixo de terra, não era passível de ser ouvida nunca por um qualquer transeunte da rua desertificada. Que lhe restava depois de tudo e de todos partirem ou nem mesmo terem nascido? Restava-lhe a cardofonia. A cardofonia número um antes de uma pausa para atravessar a parede e ser novamente parte da música.


NORBERTO DO VALE CARDOSO | doutorando em Ciências da Literatura. Professor e investigador. Publicou, na Texto, o ensaio António Lobo Antunes: As Formas Mudadas (2016). Publicou, entre outros, O poeta no seu homizio, estando integrado em várias antologias e revistas de poesia, conto e ensaio. | norcardo@gmail.com

 

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