Subversa

Carnívoro | Sat AM (Curitiba, PR)


I

A existência humana é regida pela busca de respostas. Nós passamos toda nossa vida, do nascimento à morte, buscando e tentando compreender o incompreensível.

Compreensão. Essa é a luz que nos guia. É o que dá ordem a todo esse caos cósmico de átomos meticulosamente organizados que formam, ao mesmo tempo, nossos corpos e as estrelas do firmamento. É a origem de nossos medos e angustias. A sombra que divide o que é aceitável do que está além de nossa aceitação. Entre o que é real e o que são apenas devaneios de mentes tantas vezes tratadas como perturbadas. Não há humano que não busque ou que já não tenha buscado respostas, é algo inerente ao “ser”; a constante do “eu” que grita em direção ao “eterno” na esperança de ser ouvido.

Mas antes de tudo, o que é o ser? Quem sou eu? Como coadjuvante, o eu não existe nesse mundo, portanto o eu é aquele que observa; eu sou o observador que só diante do eu observado existe. E mais além, se pararmos para pensar, o que nos define é nosso passado, memórias, nada mais do que isso. Somos seres feitos de ideias criadas em algum momento de nosso antigo eu, mas esse ainda não somos nós. Tendemos erroneamente em crer que a ideia construída em cima de milhões e milhões de palavras para conhecimento, crenças, desejos, etc. é o que nos defini. Retire tudo isso, diga-me o que lhe resta… Nada. Mas, caros amigos, vocês sabem o que é o nada?

Em suma, somos apenas decisões tomadas com base nas ilusões gravadas na memória, e o único objetivo de toda essa desordem é controlar nosso futuro. Você poderia dizer que eu sou como sou visto, entretanto, aqui surge mais um impasse: eu sou a forma como me veem ou isso é apenas um mero reflexo do eu, como em um espelho? Aquilo que “é” ou só passa a ser a partir do momento em que é visto?

“Entender” é a única saída que encontramos quando nos depararmos com o medo. Então, será que podemos definir o desconhecido como medo? Medo de não ser capaz de encontrar uma linha de raciocínio lógico diante da imensidão cósmica? Medo de não satisfazer a já tão velha e conhecida pergunta: “o que existe lá?”. Medo de perceber o sentido de não haver sentido? Essa é a premissa de questões que tentamos de maneira filosófica responder para, a meu ver, escapar da inescapável “resposta derradeira”. Não há uma forma simples. Não existem atalhos para o fim, apenas a caminhada. E para alguns, inevitavelmente, ela deriva para o abismo, que é onde se dá o apogeu da dúvida; onde diante do colossal vazio de sentidos, a ânsia pela resposta nos devora. Será que só nesses momentos a vemos? Será que apenas de encontro com o verde do desconhecido, e quando envoltos pelo amarelo do medo é que encontramos a resposta? Existe essa resposta? Ou apenas a cabal aceitação da inevitável inaceitabilidade?

Nós passamos nossas existências esperando que haja mais, e por quê? Por que queremos mais? Por que esperar que haja algo além do arco-íris; um lugar ao sol onde possamos nos deleitar com nossos entes queridos de uma paz não encontrada aqui? Será essa a resposta já contida na pergunta? Se sim, bem, você já a encontrou, por que se torturar na busca?

Eu me pego às vezes divagando sobre tais conceitos. Tentando, muitas vezes, deixar de entender para compreender… E é aqui que começa meu relato daquela noite…

II

Muitas são as perguntas sobre o que aconteceu; no que vi e no que senti e, principalmente, do por que. Eu não tenho respostas, não sei como explicar todo o ocorrido que, para mim, ainda se encontra incógnito. Talvez a própria natureza tenha encontrado uma forma de nos parar. Talvez, o universo como o conhecemos, tenha percebido a forma como o tratamos e em um dia de fúria – assim como em filmes clássicos que insistimos em repetir em nossas TV’s inúteis com 500 canais inúteis – ele tenha simplesmente decido nos castigar…

Apesar de ser nascida e criada em Alberta, nunca tive uma relação de muitos amores para com a cidade. Eu cresci em uma época difícil; segregação racial, crise econômica, xenofobia. Você pode até me dizer que tudo continua na mesma e que ainda nos mantemos presos a velhos hábitos não louváveis apenas por… Diversão? O fato é que depois de 30 anos fui obrigada a retornar à cidade devido ao falecimento de meu velho pai. Precisava cuidar do funeral e de sua propriedade, e não planejava demorar mais do que uma noite, planos frustrados devido a um problema mecânico em meu carro.

Na noite seguinte, após recuperar meu velho Ford 82, dirigia-me pela estrada quatorze quando percebi um aquecimento anormal no veículo, o que me forçou a parar em um decrépito posto de gasolina de beira de estrada. Ao constatar já ter passado das dez horas da noite, resolvi tomar um café na lanchonete conjunto ao posto, e quem sabe até mesmo beliscar algo, afinal, uma jornada de 80 km me aguardava a partir daquele ponto.

Enquanto me deleitava com um belo pedaço de torta de abóbora e um café tão preto como a noite lá fora, um grito tenebroso se fez presente naquele velho recinto. Não só eu, como muitos ali presentes, começamos a indagar de onde teria vindo aquele pedido de socorro angustiado. A dúvida foi sanada quando a porta da pequena lanchonete se abriu e por ela uma jovem mulher, aparentando trinta e poucos anos, coberta de sangue da cabeça aos pés entrou de súbito. O grito de horror vindo da balconista é algo que não sai de minha mente. Aquela pobre mulher andou mais que um metro antes de cair em uma poça de sangue rubro que se formara ao seu redor; seu braço direito estava dilacerado, além de parte da musculatura do rosto ter sido totalmente deformada. ― Minha filha… Minha filha… ― foi a única coisa que pude distinguir do seu balbuciar entrecortado. A mera ideia do que poderia tê-la deixado naquele estado deplorável fez as janelas serem trancadas, e todos ali que possuíam uma arma as mantiveram em punho.

O que sucedeu a cena de filme de terror foi algo que ainda se mantém no mais puro mistério; lá fora, em um carro com os vidros laterais partidos e manchas vermelhas por toda a lataria, um corpo escuro repleto de algo semelhante a braços agredia violentamente uma pobre criança que, pressionada contra o teto, era espancada ininterruptamente. Olhos arregalados, gritos de pânico e vozes grunhindo coisas indefinidas, formaram um coro em frente aquelas janelas para o desconhecido.

O fim de tudo isso, bem, todos vocês sabem: o dono do estabelecimento fez uma ligação e logo a polícia local estava lá, mas não antes daquilo que atacou mãe e criança ter escapado, arrebentando o para-brisa e se esgueirando para fora, em direção ao deserto. Quando tomamos coragem para tentar prestar algum socorro já era tarde demais; os pedaços que ali foram deixados não poderiam nem mesmo ser associados à anatomia humana.

Há tantas perguntas sem resposta. São tantas as questões sem conclusões. Tantos os questionamentos sem a menor linha de raciocínio lógico, que até mesmo o início de um inquérito se mostrou impossível.  No fim, os julgamentos feitos acerca do mundo são pautados em nossos sentidos, mesmo que esses se mostrem falhos diante a uma imensidão de possibilidades. Tudo que vemos, sentimos, ouvimos, não passam de uma ínfima ilusão do que é a verdade e, sem perceber a si mesmo como eu, de nada adianta questionar o colossal vazio de significados que está a sua volta.


SAT AM | estudante de Letras-japonês da Universidade Federal do Paraná. Tem como base de inspiração questões éticas/filosóficas que assombram a todos nós. Tem grande apreço pela literatura moderna japonesa e o terror americano, sendo de grande importância os dois gêneros em suas criações.

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