Subversa

Castelo | Ernande Valentin do Prado (João Pessoa, PB)


Maria, em sua simplicidade, disse que sou uma princesa. Princesa dessas que encontrou o príncipe encantado e mora em um castelo, com tudo perfeito, limpinho, arrumado, colorido. Lembrou até daquele comercial de margarina. Margarina todo mundo sabe, parece gostosa, mas no fundo não tem sabor de nada.

Apartamento amplo, numa área nobre, perto de academia de ginástica, Shopping, carro com motorista à disposição. Um quarto para cada filho, quarto de casal com cama gigante, closet com espaços para tudo, inclusive para as centenas de sapatos que nem sabe se cheguei a usar ao menos uma vez. Sala com tapete tão felpudo que nem precisa de sofá, dá para deitar, andar descalça. Quadros de Gustav Klimt decorando com bom gosto. Os filhos matriculados em boas escolas, no balé, no inglês, com tutor particular, psicóloga, psicopedagoga e, sempre que precisa, pediatra que atende em casa.

E tem as roupas sempre chiques, as joias para pescoço, orelhas, dedos, tornozelos, relógios que combinam com os cintos, os sapatos, os brincos. Cartão de crédito ilimitado, capaz de realizar todos os desejos que se pode comprar, sem discussão, sem estresse no fim do mês.

Marido lindo, sempre barbeado, camisas de seda, terno, gravata, rolex, paciência.

Um conto de fadas mesmo.

Quase acreditei, um dia.

Maria não sabe nada.

Às nove e meia, levanto de uma noite quase insone, perturbada, vazia, boca amarga, dor de estômago, mal-humorada. Quase nunca reconheço o motivo de acordar, levantar-me. Na cozinha, tomo o café, na mesa impecável posta por Maria. Mesa para a princesa.

Ela já cuidou para que ninguém perdesse o horário: o marido foi para o trabalho, as crianças para escola, o cachorro levado para fazer xixi e cocô na rua.

Depois, sento em minha poltrona, na sala, único lugar que gosto neste castelo. Passo o dia lendo, vendo tv, ouvindo música no estéreo controlado pelo iphone. Cochilo, lendo autores da moda, indicados por colunista especializados em vida de princesa. Respondo mensagens com palavras vagas, olho notícias escolhidas pelo Google, que não me deixam saber que na Síria armas químicas mataram centenas de mulheres, crianças e idosos.

Por volta das 11 horas desço. Ando pelo shopping, vejo as novidades nas vitrines, compro coisas que não preciso, como coisas que despertam meu paladar. O estômago embrulha.

Volto a casa, vou para a academia, malho, corro, suo. Volto, tomo outro banho, janto, vejo tv, jogo conversa fora, assisto às crianças, leio com um, jogo videogame com outro, troco um selinho com o príncipe. Deito, finjo dormir, acordo de madrugada me sentindo vazia, vago pelo castelo no escuro, choro baixinho com a certeza de que essa vida não é a vida que deveria ter.

Às nove e meia ou dez, acordo de novo e tudo recomeça.


ERNANDE VALENTIN DO PORTO | enfermeiro e assessor pedagógico no Centro Formador de Recursos Humanos da Paraíba. Faz parte da Rede de Educação Popular e Saúde. | ernande.prado@gmail.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Enfermeira 12 de Abril de 2018 em 16:38

    Parabéns pelo texto Professor que venham outros..

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