Subversa

Cicatriz | Anderson Freixo (Salvador, BA)


As palavras nós dizemos para alguém. Quando não sabemos pra quem, é poesia, carta de garrafa atirada no mar, porque precisamos falar de nós, pra alguém que nos entenda, porque ser entendido é se tornar importante. E existir é miséria. Existir é pobreza de vida. A única riqueza possível é convencer alguém de que nossa existência vale a pena, para que nós mesmos possamos crer nesse embuste. A vida ao redor antecipa minha morte. O bolor cresce na borra do café, os vermes comem o resto da comida que ficou no prato, de algum lugar da sala vem um cheiro de podridão cuja origem ainda não identifiquei, porque a vida precisa pulsar enquanto a minha se estagna. No rádio, Fagner me diz que em cada canto da casa é asa partida e dor. E eu me sinto uma correspondência extraviada, perdida na burocracia dos correios, ano após ano carimbado pelos funcionários que me tocam, me repassam, e não sabem o que fazer comigo. Meu destino é inalcançável. O destinatário se mudou. Eu simplesmente nunca vou chegar, e simplesmente nunca voltarei para de onde parti. Coleciono selos. Mas sou carne, não papel. Tudo que deixam em mim é cicatriz. E cicatriz é o modo que a carne encontrou de mostrar que não se esquece. E eu não me esqueço. A cicatriz é o souvenir da viagem que deu errado, a síntese de uma tragédia. Mas cicatriz é a regeneração mal feita da epiderme, é o que dá pra fazer já que o dano foi feito, o jeito de seguir em frente considerando a impossibilidade de reverter o fato de ter havido uma ferida. O que se pode fazer depois de se tomar uma porrada considerando que é preciso viver? A resposta é cicatriz, e o que vem depois dela. As palavras se acumulam umas sobre as outras, e com elas a vontade de esquecer. E também o verdadeiro esquecimento. Qualquer ser humano é um belo edifício no qual ninguém gostaria de morar, o poema que preferem não ler. Qualquer ser humano é pesado demais pra ser humano. É isso. Não há nada de especial em simplesmente ser alguém que sobrevive. Sobre isso, podemos nos manter calados. Mas existe algo especial, não existe?


ANDERSON SOARES FREIXO | nascido em Niterói, mora há 10 anos em Salvador, onde graduou-se em Letras pela UFBA. Já teve contos publicados por outras revistas, como  Mallarmargens, Samizdat e Desenredos. Atualmente publica seus textos no blog zonadofreixo.blogspot.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Marcos Spitzer 17 de outubro de 2017 em 17:24

    Lindo! Bravo!

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