Subversa

Contra o metamodernismo | Felipe G. A. Moreira


“Anger”, de alan Nguyen (2013)


Imagine um mundo possível, onde existe um Bizarro-F.G.A.M.

Ele ama e faz poesia de reconhecimento. Ele ama e faz poesia modernista fracassada. Ele pouco se importa com a poesia modernista. Ele mesmo odeia a poesia metamodernista. Ele não vê lá muita graça nos poemas do Alberto Pucheu, da Francesca Cricelli, da Pat Lau, do Fernando Monteiro, do Guilherme Gontijo Flores, do Michel Temer, do Antonio Carlo Secchin e do Felipe Fortuna comentados aqui. Muito menos nos meus comentários sobre eles. Ainda assim, ele leu todos os meus poemas. Ainda assim, ele também leu todas as colunas que eu escrevi na Subversa.

Mais importante: o Bizarro-F.G.A.M. diz que: “poemas (todo e qualquer um) devem ser lidos nos seus próprios termos. Daí, assumindo que existe uma poesia de reconhecimento e uma poesia modernista fracassada, essas poesias precisam ser lidas nos seus próprios termos”.

Daí, o Bizarro-F.G.A.M. continua dizendo que: “ler a poesia de reconhecimento nos seus próprios termos é dizer que ela tem valor estético no que ela pretende e consegue retratar um tipo ordinário, usar uma linguagem quase ordinária e descrever um velho estado de coisas atual”.

“Do mesmo modo”, o Bizarro-F.G.AM. continua, “ler a poesia modernista fracassada nos seus próprios termos é dizer que ela tem valor estético no que ela não se importa com a história da poesia modernista, e retrata do seu modo os outros do homem branco, usando uma linguagem qualquer e elogiando / apontando para um contexto onde não haveria mais preconceito para com esses outros”.

E, pro arremate final, o Bizarro-F.G.A.M. conclui já aumentando um pouco a voz que: “diria mesmo que aquele que não lê a poesia alheia nos seus próprios termos não merece ter a sua própria poesia lida nos seus próprios termos. De modo que vou dizer que a poesia metamodernista (e talvez mesmo a poesia dos poetas que você comentou) não tem valor estético. O motivo é que elas não têm as características nem da poesia de reconhecimento, nem da poesia modernista fracassada”.

Eu teria amado se alguma pessoa do mundo atual tivesse me mandado essa objeção. Ou a objeção que, sei lá, no fundo, a poesia metamodernista (ou a de qualquer um dos poetas que eu mencionei acima) ainda é de reconhecimento ou modernista fracassada. Ou, sei lá, alguma outra objeção que eu nem mesmo consigo conceber agora.

Na verdade, estou bem aberto ao diálogo com gente que defende outras posições sobre poesia, desde que duas normas que eu pressupus nessas colunas sejam aceitas.

Primeiro, deve haver algum comprometimento com algo da ordem do argumento, ainda que nem sempre seja lá muito claro determinar o que conta como argumento. Segundo, nenhum comentário pessoal deve ser feito. Estou aberto a debater sobre meus textos, tanto os poéticos, quanto os de crítica ou filosofia. Não estou aberto a debater sobre mim fora do texto.

Obviamente, que um outro realmente outro de mim nunca aceitaria essas duas normas. Mas quem disse que eu sou bobo de defender uma abertura total e irrestrita ao outro? Acho que há de se ser aberto ao outro, mas sempre com certa restrição, certo cuidado, certa prudência. Prudência: porque o outro também pode te plagiar, te difamar, tentar te induzir ao suicídio, te violar, te torturar, te matar… O outro no sentido que eu apliquei esse termo na última coluna: ou seja, o outro como aquele que não compartilha teus pressupostos, aquele que resiste a ser entendido pelo teu logos.

Mas, enfim, eu respondo ao Bizarro-F.G.A.M. assim.

Olha, nunca que eu seria bobo de dizer, como você diz, que poemas (todo e qualquer um) devem ser lidos nos seus próprios termos. Se esse imperativo é aceito, o que se dá é uma explosão estética: a tese que, então, todos os poemas de todos os mundos possíveis têm valor estético. Isso porque parece, então, que seria dever do leitor de poesia extrair de todo e qualquer poema um critério estético para julgar o poema em questão positivamente. Talvez exista alguém que queira defender essa tese; seria até interessante se alguém assim o fizesse.

Quero dizer: se alguém de fato desse um argumento para a explosão estética. Isso é bem diferente de dizer meio boba-alegremente “que todo mundo é legal”, mas na prática sempre preferir para qualquer coisa que seja (e.g., uma antologia poética, um evento de poesia, um artigo de divulgação no jornal, etc.) as poesias de reconhecimento e/ou modernista fracassada ou de qualquer outro tipo.

Enquanto nenhuma pessoa desse meu mundo defender a explosão estética, vou me permitir pressupor que a tese que poemas (todo e qualquer um) devem ser lidos nos seus próprios termos tem uma implicação meio que absurda. Mais: na prática, essa tese é irrelevante. A razão é que, na prática, há sempre preferência por algum tipo de estética.

Agora, de fato, Bizarro-F.G.A.M., não tenho lido, nessas colunas, a poesia de reconhecimento e a modernista fracassada lá bem exatamente nos seus próprios termos. Tenho, sim, de fato sugerido que se uma poesia tem as características dessas poesias, ela não tem lá muito valor estético.

De fato: contra alguém que acha que a presença dessas características não é um motivo para desmerecer uma poesia, não sei se tenho lá muito a dizer. Reconheço a existência e a pessoalidade de quem propriamente pensa assim. E esse reconhecimento, como espero que a última coluna tenha indicado, não é nenhum detalhe. Mais: eu reconheço os que amam e fazem poesia de reconhecimento e modernista fracassada como pares racionais legítimos em relação à disputa sobre o tipo de poesia que deve ser feito hoje.

Ainda assim: eu tentaria te fazer mudar de ideia, Bizarro-F.G.A.M.

Assim.

Considere o reconhecimento da existência e da pessoalidade do outro como um critério estético. Você não acha que a poesia de reconhecimento meio que viola esse critério? Que tem mesmo algo de egocentrismo nela? Mesmo uma certa violência sutil para com o outro?

Quero dizer: poesia de reconhecimento é poesia sobre as experiências das classes médias mais ou menos altas, sobretudo, do Rio e de São Paulo. Essa poesia é sobre estar entediado fazendo comentários pseudo-eruditos em filas de cinema cult ou festas de literatos; é sobre escutar indie rock inglês; comentar (na maioria das vezes, ressentidamente) sobre algum relacionamento burguês qualquer; é sobre falar que você sente falta do inverno porque no inverno dá pra usar roupas mais elegantes; é sobre ironizar quem pronuncia Proust errado, realmente estuda Wittgenstein ou cita Nietzsche numa mesa de bar, ao mesmo tempo que se faz referência superficiais sobre autores como esses o tempo todo; é sobre comentar sobre a sua última viagem para Paris, Londres ou Nova Iorque; é sobre seguir conscientemente ou inconscientemente as normas desse meu poema, Instruções para poemas Facebook publicado no Por uma estética do constrangimento, etc.

Não te parece que seria muito mais interessante reconhecer a existência e a pessoalidade de quem te incomoda na fila do cinema ou quem está deprimido demais para mesmo estar nesse tipo de fila? Falar sobre quem não foi chamado pra festa de literatos? Não te parece mais interessante focar em quem nunca foi ou pouco suporta show de indie rock inglês e/ou quem não se interessa em discorrer sobre relacionamento burguês ou sobre usar roupas elegantes? Não te parece mais interessante escrever poemas que de fato dialoguem com gente que escreve teses relevantes sobre Proust, Wittgenstein, Nietzsche e/ou qualquer outro autor, ao invés de ficar só ironizando esses autores ou gente que os estuda, falando de modo superficial numa fila de cinema cult ou numa festa de literatos? Não te parece que poesia de reconhecimento é poesia daquele núcleo classe média mais ou menos alta das novelas da Globo? Que essa poesia só serve para propagar trivialidades que essa classe aí já crê? Que essa poesia é mesmo sutilmente colonizada no que ela sempre faz um elogio mais ou menos implícito ao europeu e/ou norte americano? Não te parece mais interessante de fato pensar sobre a experiência de ser imigrante do que ficar fazendo poeminha cartão postal? Não te parece que os tipos da poesia de reconhecimento são uns tipos superficiais totalmente vazios pretensamente não-vazios? Que não é lá muito interessante seguir conscientemente ou inconscientemente as normas do “Instruções para poemas Facebook”?

Se você acha que não, se você acha que todas essas perguntas têm que ser respondidas negativamente… Acho que somos inimigos estéticos. Te declaro jihad poética, ó “meu” mesmo, ó “meu” outro, ó “meu” Bizarro-F.G.A.M. Risos. Não risos. E acho que nem posso te dizer muito mais pra te convencer. Agora, se você acha que essas perguntas merecem respostas positivas, pare de amar e fazer poesia de reconhecimento. E venha amar e fazer poesia metamodernista. Ou os outros tipos de poesia comentados aqui que resistem a serem pensadas como sendo de reconhecimento.

Também considere consciência da história e do próprio presente como um valor estético. Você não acha que a poesia modernista fracassada meio que viola esse critério? Que tem mesmo algo de burrice-esquecida nessa poesia? Uma burrice esquecida comparável a desses youtubers justiceiros sociais?

Porque a poesia modernista fracassada é sobre esquecer que já lá no século XIX, Paul Verlaine (leia, por exemplo, “À Arthur Rimbaud” de 1890) já estava retratando homossexualidade de modo modernista; é sobre fazer parecer que escrever um verso sobre homossexualismo ou qualquer outra prática não heterossexual é subversivo dentro de um contexto onde leitores minimamente sofisticados estão presentes; é deixar pra lá ou mesmo copiar sem querer querendo os poemas modernistas de Langston Hughes sobre o negro; é sobre ser burro-esquecido a ponto de esquecer que Florbela Espanca já estava fazendo poemas modernistas sobre mulheres lá na década de 20; é sobre fazer poemas para dizer banalidades normativas (e.g., “não devemos ser classicistas, homofóbicos, racistas e sexistas”) que praticamente todo mundo já aceita há tempos, e quem não aceita não pode nem dizer que não aceita em público, como se essas banalidades normativas fossem novas, chocantes, etc.

Não te parece que seria muito mais interessante tomar consciência dessa história da poesia modernista de mais de 160 anos? Não te parece mais pertinente notar que uma transição está se dando no Ocidente? Que um novo standard (o do cordeiro em si) está sendo estabelecido e que esse standard serve para oprimir de um outro modo ainda muito pouco comentado? Não te parece mais interessante criticar a direita burra-esquecida homofóbica, sexista e/ou racista, sem bancar o mais novo, sempre velho padre desse novo standard? Sem ser o mais novo, sempre velho moralista do pedaço falando com A Voz com A Indignação com O Tom de quem entendeu A Essência da Moral? Não te parece mais pertinente buscar de fato debater sobre não banalidades normativas, tais como a não banalidade de que certos usos de violência sutil talvez sejam inevitáveis ou mesmo justificados? Não te parece mais interessante aceitar a transição inevitável entre os dois standards? Falar sobre os tipos que estão presos nessa transição? Não te parece mais interessante retratar os tipos que são os outros do cordeiro em si? Não te parece que o novo contexto para o qual devemos apontar é um (talvez impossível) onde todo e qualquer outro de si faria parte da comunidade? Não te parece que a poesia metamodernista combate e é muito mais radical nesse combate aos outro-fóbicos do que qualquer poesia modernista fracassada? Não te parece que a outro-fobia é mesmo mais fundamental do que qualquer outra fobia? E que ninguém está absolutamente livre dela? Não te parece óbvio que, como o meu Marjorie Perloff indica, não é mais marginal querer ser “marginal”? Que não é mais alternativo falar “alternativo”? Que não é mais novo pagar de “novo”? Não te parece óbvio que “seja novo, alternativo e mau” se tornou normativo?

Se você acha que não, se você acha que todas essas perguntas também têm que ser respondidas negativamente… Acho que somos inimigos estéticos. De modo que é bem provável que eu não vá conseguir te convencer de nada, Bizarro-F.G.A.M. Nem posso te dizer muito mais pra te convencer. E te declaro jihad poética, ó “meu” outro, ó “meu” mesmo, ó des-pessoa contraparte de mim…

Risos. Não risos. Mas se você acha que essas perguntas merecem respostas positivas, pare de amar e fazer poesia modernista fracassada também. Comece a amar e fazer poesia como a dos poetas comentados aqui. Ou mesmo venha amar e ser um poeta metamodernista você também. Ainda que só possa existir um poeta metamodernista nesse meu mundo mesmo. E Ele, O Verdadeiro e Único F.G.A.M., vai ter que morrer para nos salvar.

Ao longo das próximas 13 colunas —no que eu vou chamar de fase 2 dessas colunas aqui — pretendo explicar o que eu quero dizer ao dizer frases metamodernistas, feito essa última frase em itálico; essas frases travestidas de frases bíblicas, tais como todos os versos do O crucificado. Por hora, encerro a fase 1 dessas colunas.


FELIPE G. A. MOREIRA nasceu em 1984 no Rio de Janeiro. Publicou a peça poética, Parque (2008, Revista Zunái online) e o livro de poemas, Por uma estética do constrangimento (2013, ed. Oito e Meio). No momento, trabalha no que espera tornar seu novo livro de poemas, “F.G.A.M”. Ele também trabalha como professor de filosofia da Universidade de Miami e na sua dissertação de doutorado sobre metafísica,Disputas: a incomensurável grandeza das micro-guerras.

Leia os artigos anteriores do Felipe AQUI.

felipegustavomoreira@yahoo.com.br | Site pessoal.

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