Subversa

Deleite de pertencer a um corpo | Edson Costa Duarte (Campinas, SP / Dublin, Irlanda)

O contorno do corpo é coisa provisória e inexata. Dedos que se alongam em busca de outro corpo. Línguas que se estendem úmidas, ávidas. E a pele. A pele, principalmente, que se prolonga e se alastra rumo ao fôlego que aumenta. A textura do corpo não se conta. Ele se eriça feito vela ao vento, cadastra números, densidades, resistência. Dos materiais, o corpo é o mais maleável e o mais duro. A textura do corpo constrói-se em fendas, desvarios, luzes provisórias impróprias e alheias.

As geografias do corpo são coisa secreta e explícita. Paradoxo da fome desaguando em nós, assim como um acinte à nossa irracional perplexidade diante do insabido. As geografias do corpo não fundam nada. Só constroem vertigens, segredos, vestígios, descentramentos de nós, seres do tempo, soberbos e anônimos, gastos e vadios.

Subir. Escalar. Nada de montanhas por aqui. O único verbo a conjugar é o trânsito. Por isso, é preciso mais que códigos exatos, falar sem rumo, sussurrar ao ouvido. É preciso não se estar estando-se em si mesmo. Não há verbos, nem substantivos. Isto aqui onde estou é coisa neutra, coisa sem gosto, insossa sabedoria do vazio e de nós, corpos que somos

sempre sempre sempre sempre sempre
no trânsito dos dias
nós, corpos que somos
frios, calculistas
atados aos nós do sentimento
e sem nenhuma razão
do porquê
existimos no outro.

No avesso do osso. Coisa estranha e ao mesmo tempo tão modesta e derradeira. Coisa estranha e tão conhecida. E nós, corpos que somos, participando da festa, da ausência. Deleite de pertencer a um corpo. Orgia dos sentidos. Água desaguando mais. Gigantescos rios devastando tudo. Mar em fúria.

E nós, seres eleitos e eretos e inexatos, e nós, corpos de fogo, línguas de vidro. Sete nove treze são os números. E nada mais sabemos. Somos assim simples, breves, coisa fácil de entender. Só basta um toque. Toque preciso do afeto. E estamos nus. Sem nenhum corpo. Sem nenhuma estrutura. Sem nenhum alicerce. Sem nenhum disfarce. Sem nenhuma máscara. Sem nada mais que nos sustente.


EDSON COSTA DUARTE estudou Letras na Unicamp, onde também fez mestrado sobre a obra de Clarice Lispector. Entre os anos de 1992 a 1996, organizou o acervo documental da escritora Hilda Hilst, que foi negociado em duas partes com o Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio”, Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, em 1995 e em 2002. Em 2002, mudou-se para Florianópolis para fazer o doutorado, na UFSC, sobre a poesia de Hilda Hilst. Desde 2006 voltou a morar em Campinas. Entre 2007 e 2009, fez um pós-doutorado sobre a prosa de Hilst, sob supervisão do professor Dr. Jorge Coli, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. | DUARTEAZUL@IG.COM.BR

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