Subversa

Diagnóstico | Leandro Lopes Fiúza Santos (Salvador, BA)


O que é uma consulta médica hoje se não uma requisição para exames? Sou criador e criatura do mundo que anseio e recuso, recluso, espelho dividido entre textos prontos e rascunhos, mais um moribundo vagando entre os labirínticos corredores frios de um hospício. Memórias de outros eu’s cimentada com rejuntes de devaneios, equívocos, superstições e medo. Teriam eles pecado pelos mesmos excessos? Anos de uma vida desregrada solta ao acaso de crenças insidiosas, roteiro de uma emancipação posta em decadência sob o véu de um jaleco branco. Carimbo e assinatura atestam ainda hoje uma autoridade pouco desgastada, seriam os deuses médicos ou astronautas?

Fármacos de uma geração imersa na ilusão da sanidade, da liberdade que aprisiona quando os limites entre os nossos ideais são meros recursos para consolidação de muralhas. Talvez o meu diagnóstico estivesse correto, olha só por onde delineio meus pensamentos, tábua de salvação para dar sentido a incompletude vertiginosa dos dias famintos de justiça, pão e verdades. Devia calar até mesmo quando meus poros exclamavam interrogação? Pausa, reflexão, exasperação de outras perspectivas? Não, o arrependimento aqui é um abrigo que não preciso. Sou vítima, não réu.

Recordo a solidão, o silêncio, a prece, a fome, a pressa, a resignação… Ah, os pais, tão vítimas quanto aqueles que anseiam respostas rápidas nas ágoras em ebulição. Caminhos solitários trilhados por espíritos cientes de que ideias machucam muito mais que ações. Afinal, muitas delas resistem a longa duração. Flerte perigoso os tempos nos trazem, luta incomunicável entre quem sou e quem não pude deixar de ser, NEUROSE.

O que teria sido de nós se faltássemos àquela consulta médica, àquele diagnóstico, àquele trago de inverdades depositadas sob uma mente sã em conflito com a velocidade do tempo e do agora que aponta outras direções? Reflexões que antecipam o coquetel da tarde, crenças farmacêuticas em moto-contínuo. O veneno doce da ilusão em atacado e varejo.

Cada vez mais escondido em minha mente, meu refúgio, minha prisão, o meu paradoxal latifúndio produtivo.

Ass: Paciente 11922


LEANDRO LOPES FIÚZA SANTOS | Formado em Geografia pela Universidade Federal da Bahia. Começou a escrever sabe-se lá quando,  escritor por acaso e por encanto, 30 anos, soteropolitano, funcionário público publicando.

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367