Subversa

Ditado | Daguito Rodrigues (São Paulo, SP)


Escreve aí, moço. Junta as letras, eu falo o que elas vão dizer. Histórias, tenho um monte. Não é só quem desenha palavra que tem o que contar. Gente sofrida é um baú de memórias. Não querem que a gente abra pra não revelar a verdade. Não ensinam. É medo. Deixam pra doutor, pra repórter, pra gente de diploma. Esse povo conta o que a gente viveu. Como se soubesse. Daí eles ouvem e ficam com pena. Eu quero é falar tudo pra despenar a minha gente.

Escreve aí, moço. Mas não do jeito deles. Eu quero que seja fácil, que nem quando eu escuto. A gente entende o que é dito, pra quê complicar quando tá escrito? Esses documentos de advogado, de governo, não entendo nada quando leem. É por isso mesmo que eles falam complicado, né? Acham que a gente é bobo. Querem meus dedos de boca fechada pra cegar minhas ideias.

Escreve aí, moço. Nunca me deram voz nas mãos. Só pá, panela, pneu, parafuso. Mas a gente escreve com o que tem. Vai desenhando, juntando os pedacinhos das palavras, só não fica registrado no papel.

Tá tudo aqui ó. Minha avó escreveu um monte com a mão na terra. Terra seca que tinha lá. Minha mãe, com cabo de vassoura e pedaço de pano. Limpou o chão de um lugar que nem era o dela. Mas é meu. Nasci aqui e escrevo aqui, a colheradas no fogão. Eles achavam que a gente não ia contar nada por não saber desenhar nas linhas, né? A gente conta. Um pro outro. E eu conto pra você, moço, eu conto tudo. Pode perguntar.

Escreve aí, moço. Tem coisa triste, mas tem coisa feliz também. Não é só de dor que a gente vive. Tem viagem, tem festa, tem casamento com fartura. A gente sabe aproveitar cada dia que Deus deu. Passa lá na sexta depois do serviço pra ver só. Vai no domingo. Tem música, tem casal com os pés na terra. Bebida pra todo mundo, carne boa. A gente não tem mão pra escrever mas tem pra cozinhar.

Pode parar, moço, chega. Deixa que eu assino. Me dá aqui essa caneta.

 

M  a  r  i  a   C  i  c  e  r  a   d  o  s   S  a  n  t  o  s   S  i  l  v  a  .

 

Não. Faltou aquele risquinho no i, eu lembro. Maria Cícera dos Santos Silva. Não falei que meu nome eu sabia? Agora tá pronto. Lê pra mim. Lê que eu quero escutar o som da minha voz.


DAGUITO RODRIGUES | é escritor e roteirista. Acumula prêmios nos principais festivais de criação do mundo, como Cannes Lions, Prêmio Abril e Clube de Criação. Quer muito que você leia o primeiro romance dele, “Vozes na rua” (Kazuá, 2016). Site: daguitorodrigues.com

 

 

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