Subversa

Do dia em que percebi que chegara aos quarenta anos | Ligia S. Ikeda (São Paulo, SP)


O espelho tinha sido posto alí há mais de cinco anos. Eu mesma cuidara da aquisição e instalação. Na época, procurava a verdade em todas as coisas. Se a suspeita fosse maior do que a certeza, tentava me agarrar num ponto, por menor que fosse, que pudesse nomear “objetivo”. Ainda não conhecia o aspecto predominantemente inclassificável da vida. Por isso insistia em lidar com a realidade através da razão. Assim, fui andando de loja em loja, procurando uma superfície que refletisse a luz de maneira optimal, sem nenhuma curvatura. Desejava que a imagem formada resultasse de um sistema óptico estigmático : o espelho plano, perfeito. Dada a minha fé demasiada na possibilidade de domesticar a realidade, nada mais sensato do que possuir um objeto desse tipo no próprio quarto, que me transmitisse objetividade quanto à minha própria imagem.

Ao longo dos anos, o objeto me pareceu cumprir a sua função com sucesso. Ele refletia algo que eu, secretamente, esperava que refletisse. Não se tratava de uma imagem ideal, fantasiada em momentos perdidos. Era uma imagem correta, que casava perfeitamente com o caráter técnico do espelho. Minhas pernas não eram finas, e já mostravam sinais de pernas de mãe, mas ainda pareciam poder sustentar a minha existência com rigidez. Os meus braços ganhavam em consistência, sem cair na decadência. Os meus peitos, toda a vida pequenos, tinham a essa altura a vantagem de se mostrarem discretos. Depois de tentar o corte bem curto e bem comprido, tinha finalmente encontrado a dimensão certa para os meus cabelos. Essa história de cabelo tinha sido um ponto importante. Tantos cabelereiros para perceber um dia que o problema não era técnico, mas substancial. O corte definia uma pessoa. No dia em que, olhando neste espelho, eu disse a mim mesma “aí está a forma que meus cabelos terão para o resto da vida”, foi como se acabasse de me desenhar. O último traço estava feito. A partir daquele momento apenas o amarelar da página e o desbotar da tinta apagariam a imagem.

Desse dia não lembro de muita coisa. Tinha chegado em casa, lavado a louça do café, cozinhado uns legumes e uma carne de panela. Estava com os cabelos presos. Lembro de pensar que fazia tempo que não sentia tanto calor. “O corpo lembra de tudo”. Às 20h00, e vinte oito graus, a quentura das panelas me deixou mole. Me afastei da cozinha. Fui encontrar refúgio na penúmbra do quarto, quando um cansaço arrastado me ganhou e me fez deitar na cama e fechar os olhos. Uma pausa na dinâmica da vida. Nos dias corridos, nas horas de preparar a janta, o café, o banho, a mala, a cama. Talvez tenha adormecido uns minutos, imperceptíveis. Essa sensação agradável de emergir da inconsciência. A morte tinha também isso de triste, o fato de nunca mais ter o sentimento de voltar a si. Todas as manhãs vivíamos um retorno, como se voltássemos pra casa. O que bem podia acontecer durante a nossa ausência? Várias imagens surgiram no meu espírito : a minha sala de aula do colégio, o calor que sentíamos em plena lição de matemática, ou depois que voltávamos da educação física. O barulho do ventilador, e as pernas colando na carteira de madeira. Uma lembrança de Londres. A sensação de estranhamento quando se visita outro país. A possibilidade, apenas sugerida, de uma outra existência.

Foi daí, espalhada nos sentimentos, abraçada pela penúmbra do quarto, que eu tive a ideia de experimentar vestidos. Há muito tempo não tinha a necessidade de me vestir para uma situação formal. Para mim, a dinâmica cotidiana era prazeirosa, os dias, simples, e cheios de satisfação. Como uma melodia sem letra. Acredito que naquele momento tive vontade de me ver de outro jeito. De vislumbrar uma outra faceta possível da minha própria existência. Não esperava nada. Nenhuma imagem antecedeu a experiência da reflexão. Mas em momento algum desconfiei que estava prestes a escancarar uma porta que nunca mais tornaria a encostar.

Vesti um primeiro vestido preto, com flores coloridas e um decote cruzado. Tinha usado ele duas ou três vezes, em casamentos. Puxava a barra para ajeitá-lo, quando de maneira distraída meus olhos bateram no espelho, e eu avistei uma mulher. Alguém, de uns quarenta anos que até aquele instante me tinha sido completamente desconhecido. Reconheci o vestido. Era o meu. Mas demorei alguns segundos para formar a ideia na cabeça : aquela mulher de quarenta anos era eu. A imagem, ao invés de desagradar, causou em mim uma enorme curiosidade. Então era essa presença que as pessoas percebiam quando eu conversava ou passava por elas. Era essa imagem que viam os meus pais, nas fotos que eu mandava pelo telefone. E para aqueles que tinham acabado de me conhecer, essa pessoa representava aquilo que guardariam de mim. Não conseguia tirar os olhos do espelho. O que tinha feito com que até aquele momento a mulher tivesse ficado escondida? Se o espelho refletia perfeitamente a luz. Se todos os dias eu me vestia e olhava para aquele mesmo objeto. Onde poderia ter se enfiado? Atrás de um antigo reflexo? Seria possível que o espelho tivesse guardado uma imagem minha sem a exposição imediata do meu corpo à luz? Uma imagem gravada na superfície?

O que percebi, depois que o espanto deu lugar ao entendimento é o que segue : os braços e as pernas, ainda firmes e ligeiramente modelados, pareciam ter engrossado. Como se tivessem preparado, de maneira imperceptível, a estrutura de uma outra construção. O edifício dos anos futuros. Os cabelos estavam mais ralos e esbranquiçados nas raízes, mas ainda guardavam um movimento nas pontas. O quadril acompanhara a evolução dos membros. Dos pés ao pescoço eu vía uma figura sólida, e a ausência de sutileza, própria à juventude. Uma presença delimitada e inegável. De todas as partes do corpo da mulher, a que mais me agradou foi o seu rosto : não avistei quase nenhuma ruga, o que me pareceu curioso para uma mulher de quarenta anos. Mas outros sinais me remeteram à passagem do tempo. As bochechas até alí cheias, tinham se esvaziado, tornando-se concavidades. Esse fato transformava consequentemente a minha postura na realidade. Com as bochechas, foi a minha bonomia que desapareceu para dar lugar à uma certa austeridade. Eu desconhecia completamente este aspecto da minha personalidade, mas pensei que a austeridade não tinha surgido alí devido aos percalços da vida. Ela anunciava uma outra etapa. Assim como uma ou duas manchas no rosto, que eu reconheci de imediato. Herdadas do meu pai, estampadas nos rostos já falecidos dos meus avós.

Através da imagem que o espelho refletia, eu consegui ver nitidamente a aparência que teria aos oitenta anos. Mais uma vez, a imagem não me desagradou. Lia nela a inexorabilidade do tempo. Que um dia, idosa, precisaria de ajuda para andar, ir ao banheiro, comer. As coisas simples se tornariam difíceis, e as dores atuais se tornariam triviais. E num dado momento, tudo aquilo, o espelho, a imagem, a matéria, as lembranças, os pensamentos seriam inexistentes. Desapareceriam.

Foi o que observei pela porta que abri, e que nunca mais pude encostar. Coisas que no cômodo ao lado, enquanto misturava a carne de panela, mergulhada numa juventude tardia e em futilidades, eu nem desconfiava. Mais tarde, já resignada, li num artigo de jornal que somente o espelho plano é um sistema óptico completamente estigmático, objetivo. Na realidade, as coisas funcionam de maneira diferente.


LIGIA S. IKEDA | nascida em São Paulo, formada em Filosofia e Ciências Políticas, há dez anos morando na França, escreve textos no blog Desconsiderações sobre o mundo, já teve texto publicado nessa revista. | ligiaikeda@hotmail.com

 

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