Subversa

Duas almas no escuro | Ester Chaves (Brasília, DF)


Era o jeito dele distrair-se com qualquer coisa. Sempre conseguia arranjar algo que pudesse ser mais interessante do que eu enquanto conversávamos, como esfregar o tecido da calça várias vezes, as mãos viravam uma espécie de ferro com energia própria. Eu notava que se tratava de uma estratégia, um modo de não se deixar trair. O fato de não me olhar diretamente nos olhos me intrigava, doía. O que ele queria era me fazer pensar que ele não se importava comigo, por isso estava sempre me dividindo com alguma outra coisa.

Eu me sentia extremamente sozinha vivendo naquele antigo casarão, e ele só aceitava conversar lá fora, nos banquinhos que rodeavam o jardim. Chegava sempre à noite, depois que a rua se esvaziava. Não gostava de sair durante o dia, quando saía costumava resmungar os efeitos solares na sua pele senil. Sentava-se na beirada do banco, quase a cair, ajeitava a aba do chapéu e pigarreava. Era sinal de que daria início à conversa. Na outra ponta do banco ficava eu, como numa gangorra, e no meio, a eterna lembrança da minha mãe.

Naquele dia, sentou-se ao meu lado e retirou uma coisa do bolso. Abriu a mão esquerda e estendeu-a para mim. Lá estava, na palma áspera, ― uma foto da mamãe. Ordenou que eu pegasse logo, tinha medo de reparar que os meus dedos eram longos, assim como os dela. Olhei emocionada… a foto era antiga, porém conservada. Mamãe e sua face terna de menina… parecia olhar diretamente para mim de dentro daquele papel brilhoso. Os olhos dela me abraçaram como os braços do meu pai nunca foram capazes de fazer. Quando pedia a benção a ele, temia que não viesse, tamanha era a rapidez com que se desfazia do gesto. Uma saudade dos meus tempos de infância assaltou meu peito, misturou-se aos maus-tratos da solidão recente. Comecei a chorar internamente, engolindo palavras e sentimentos.  Como era duro fechar as portas da casa e não haver ninguém a me desejar sonhos bons. O homem ao meu lado defendia-se sofrendo, a ausência da mulher amada o tornava incapaz de corresponder a qualquer estímulo delicado. Ele enxergava em mim o prolongamento de sua dor mais profunda, a materialidade de seu maior fracasso estava ali exposta, reproduzindo o mesmo jeito de olhar da mãe, o mesmo sorriso afetuoso.

O homem que até então, eu chamara de pai recuou o rosto, mergulhado nas sombras das recordações enterrou-se em profunda mágoa, com um gesto brusco cravou o chapéu ainda mais na cabeça e saiu andando cabisbaixo pela rua deserta. Senti um nó terrível abraçar minha garganta, apertei os olhos até sentir a cabeça latejar, meu peito doía tanto, senti o peso de todos os anos de vida daquele homem tombar sobre minha frágil existência. Apoiado na própria dor, o homem cada vez mais ganhava a escuridão, seguia com passos vacilantes, decerto pensava na mamãe, talvez as lágrimas agora repousassem lentas entre as rugas salientes de sua face esquálida, esquadrinhassem os labirintos daquela alma indecifrável.

A imagem daquele senhor desaparecendo nas brumas da noite dava a dimensão do quão grande e terrível era a falta. Cada segundo da vida havia conspirado em desfavor dele. As horas gastas naquele banco do jardim nunca restituiriam o que ele havia sido. Com as mãos trêmulas, apertei a fotografia contra o peito, o vento lambia meu rosto impiedosamente, as árvores pareciam mais altas do que o normal, tudo ganhara proporção estranha. O jardim antes delicado, agora parecia um repositório de folhas mortas. Olhei ao redor, o casarão parecia muito longe do jardim, era como se os séculos engolissem os ponteiros do relógio, inaugurando uma realidade terrivelmente sombria. Levantei abatida, as lágrimas respingavam dores por todos os abismos de mim, a mágoa corrosiva de não-ser, o destino truncado, irremediavelmente maculado pela dor de um homem que eu sequer tivera a chance de conhecer. Jamais soube como consegui galgar os degraus íngremes da escada que dava acesso ao casarão. Os móveis luxuosos da sala pareciam zombar da minha fragilidade, da minha incompetência de ser filha. A organização da casa em nada parecia com o emaranhado de dúvidas e decepções que batucavam dentro de mim. Olhei pela janela, não havia mais o rastro do homem na estrada. O homem, o pai desaparecera para sempre no nevoeiro, talvez agora sem a posse da fotografia pudesse apagar lentamente os traços da mulher que tanto amava. Enquanto isso, roída pela dor pungente causada pelo abandono e pela culpa, lancei-me num voo sem asas, e vi de relance, o último pássaro noturno regressar ao ninho antes de mim.


ESTER CHAVES (Brasília, 1979) | Escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho de 2016, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora. | esterchavesart@gmail.com

 

 

 

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Danilo Mendes Araújo 1 de Fevereiro de 2018 em 13:07

    Extremamente lindo e tocante! Uma ponte de sentimentos entre o abandono sentido pela filha e o peso nos ombros do pai. Maravilhoso, como sempre. <3

    • Ester Chaves 24 de Fevereiro de 2018 em 22:01

      Gratidão, Dan! Beijo!

  2. Loreci 1 de Fevereiro de 2018 em 13:34

    Lindo texto da Ester! Sensibilidade escorrendo e formando um rio de emoções que inunda a alma da gente!

    • Ester Chaves 24 de Fevereiro de 2018 em 22:04

      Loreci, gratidão!! Beijo!!

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