Subversa

Duas Torres | Estevan de Negreiros Ketzer (Porto Alegre, RS)


Poderia sentir tudo parado ao seu redor se, no entanto, o dia não estivesse frio demais para permanecer parado. Era com o frio que o cérebro era perturbado diante do som estridente das torres balançando. Algumas gotas escorriam da pele, escorriam depois daquela caminhada abaixo e acima pela montanha de vidro.

– E agora você está aqui – disse alguém. – Vamos começar. – Ele sentiu de alguém um aperto perto da cabeça. – Pela primeira vez aqui. – Ele sabia que perderia tudo. A dignidade não tinha mais sentido. Inclusive as pessoas haviam desaparecido dali há tempos.

– É porque elas procuraram porque queriam encontrar; mas você procura para poder desaparecer.

O tempo não passa pelo relógio. A visão embaça com o vapor que o corpo trava embate com o clima gelado. Só lhe resta observar o teto enorme que o afasta de todas as coisas que falam com ele. Ali um pontinho preto está parado. De longe vai aumentando o tamanho. Um caramujo que petrificou? Ou será que alguém tentou colocar ali um abajur e se lascou?

É que depois de tantos dias e horas ali naquele lugar sem nome, sem som, sem garantias, é que chegou um maltrapilho em andrajos a caminhar pelo deserto sem fim. Ele foi o primeiro que caminhou no meio da areia leitosa. E não por nada a caminhada levara as areias aos olhos.

Acorde – era alguém em um brevíssimo momento do tempo para tentar uma reação no homem meio vivo ali em frente.

O peso do corpo tomara conta diante de alguém. Um segundo de repouso? Os olhos apertados acordados do pesadelo.

“Isso é um jogo?”, ele pensou deitado.

E alguém se cala silenciosamente. Ele sabia que as chances de ganhar de alguém eram mínimas. Deveria desistir, sair da câmara hiperbárica que havia criado. Esse era o peso da dose de VITRIOL que tomara naquela tarde e que se repete há tantos e tantos meses. O som das torres terminou assim como começou, de súbito, sem inteligência que possa entender as coisas. Os olhos olhavam com rigidez, a boca tremendo nos sons quase surdos, enquanto as paredes à sua volta achatavam sua visão.

Quando articulou uma fala para alguém escutar ele compreendeu que as torres precisam também elas calarem os ruídos brutos que exalavam: “Essas coisas do futuro…”, pensou. Vai encontrar nas noites sem sono, no silêncio de não ter lugar de sonho, na arrogância de quem construiu a montanha de vidro 1250 anos antes da era comum e nos crimes que cometeu para chegar até ela, imponente, implorava sem mais uma absolvição. Lá o adulto sempre treme, vai fingir e mentir, criar uma realidade paralela para se proteger.

– É para levar a criança até o outro lado da avenida central – disse alguém.

Era o seu dever independente de tudo que o cerca. A raiva de tantas obrigações trouxe os mastins da velha Guerra. E um grito escutado por ele, daquele dia tempestivo, perdido no tempo do que não se pensa direito porque não se ousa dar ao saber uma glória por isto. O grito foi enterrado na sua garganta. Os cães caçavam um por um dos que tentavam ultrapassar a placa de metal negro escrita com o suor de cada veia retorcida: Arbeit macht frei. Assim, na graça da carne fresca, mascavam os mastins dois pontos negros brilhantes tão ínfimos como a banalidade da luz de prata refletida no espelho. “Por favor, tudo está perdido”, pensou ele, enquanto alguém olhava pelo olho de vidro cinza, neutro, que não se enxerga nunca de qualquer distância que se esteja. Alguém deveria estar ali, mesmo que ninguém pudesse estar. Nos dentes dos cães o último descendente que poderia ter aprendido a contar uma história tal como aquela. Finalmente, a quarta parede arrebenta o estampido das águas lacrimais. E num redemoinho a torrente aumentando o delicado desequilíbrio da cabeça ao pender diante do abismo. Era só mais uma história, e só mais um corpo em meio a nuvem de espuma branca, gravitando-o de sua posição horizontal, nas muitas voltas que precisam desaparecer para somente assim passarem a existir.

– Só olhar essa cena já parece bastante difícil – disse alguém muito suavemente. Seu som rouco de segredo, assoprado em palavras claras, finas e objetivas. Ainda que fosse uma migalha de esperança, dava a impressão abrasiva do óleo quente no couro puído pelo tempo. Quisera ser tocado ao menos para se salvar, ainda há tempo de escapar! E lá bem longe ele viu o nascer da estrela, distante, suave, entrando discreta pela janela da enorme sala amarelada.

– Pois é, eu perdi – ele disse para alguém. – Estou sozinho e não sei o que fazer, perdido, perdido, nesse labirinto, o qu…

A sessão terminou – disse alguém levantando-se de sua poltrona.


ESTEBAN KETZER | psicólogo clínico, professor e escritor. Doutor em Letras pela PUCRS. | estevanketzer@gmail.com

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367