Subversa

Editorial Vol. 8 | n.° 7 | abril de 2018


“A arte é uma tentativa de criar uma realidade inteiramente diferente daquela que as sensações aparentemente do exterior e as sensações aparentemente do interior nos sugerem”.

Fernando Pessoa, “Sensacionismo – 5”, 1916.

 

A pergunta sobre o porquê escrever, revirada mil vezes nos porões da História, sofre sistematicamente um corte letal. Os momentos em que os poetas começam a construir juntos uma resposta cabível, curiosamente coincidem com a hora de desmontar o castelo, sobrando as peças jogadas no chão e os olhares fundos lançados uns aos outros.

Toda a construção estética e suas ramificações, ditas “correntes literárias”, não são mais do que castelos montados na grande orla da literatura, sempre prontos a serem pisoteados por gigantões que passam sem perceber ou sem concordar com a grandiosidade do que estava sendo ali montado. De um modo ou de outro, os castelos precisam sempre cair.

A imobilidade do poeta é não poder encontrar outro lugar para a reconstrução. É ter de voltar sempre para , à grande faixa amarela e movediça que, por ser terreno, está sempre pronta a derrubar e engolir, fazendo cócegas na alma abismada dos poetas (a alma “cheia de abismos”, na lembrança da atualidade de Hilst). Muda-se o lado da praia e a areia não sai debaixo dos pés; muda-se a posição do guarda-sol e o calor não deixa de entrar pelas frestas; constrói-se uma barraca, o vento arranca e a chuva encharca. Num ato mais radical, cria-se uma praia virtual, uma areia comestível e, ainda assim, o ato de criação ainda está querendo ser castelo exuberante.

Com pouquíssimos recursos, é para a arena cristalina de suas sensações, plasmadas com as sensações do mundo, que o poeta retorna. Às vezes, a direção para onde aponta a sensorialidade que vem dessa parede dupla-face, é desértica. O poeta tem a sensação de que nunca houve mar nenhum. “Ou a orla secou, ou a maré está baixa demais”, inventa, e o poema passa a ser feito outra vez, porque não sentir mais nada é também poder sentir qualquer coisa a qualquer momento.

Como, por exemplo, na leitura deste número 🙂

Abraços,

As editoras.


Clique nos textos para ler:

Daniel Marones | Versos Livres

Fábio Amaro | Estorinha

Felipe Del Fiorentino | Inação

Francieli Borges | Aqui se encontram os que vão morrer e não sabem

Hebe Santos | Soberana ao Vento

Júlia Medina | sem título

Marcelo Martins | Surfer Rosa

Marco Aurélio de Souza | O Estorno da Matéria

Suelio Geraldo Pereira | Viagem de Balão

Vagner Silva | Transcendência

 

 

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Fábio Amaro 16 de Abril de 2018 em 15:06

    Dale!!!!!!!

    Com vocês aprendo sobre mim mesmo.

    Gracias!

    F.

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