Subversa

Extraterrestres | Antônio LaCarne (Fortaleza, CE)


Só os extraterrestres são sinceros. Os dias pasmos, as tardes ensolaradas ou a noite de domingo do homem sozinho em casa, enquanto chove. Você poderia estar morto, mas aqui jaz, inteirinho, vivo, segurando um sorvete diante de uma loja de shopping, aguardando demasiadamente aquele amor, aquelas costelas, aquela cintura fina e o peitoral do desejo. Relembra ao esquivar-se mudo e ao perceber a multidão nas mesas, as filas de adolescentes junk food. Eles sorriem impacientes, fortinhos e de sobrancelhas milimetricamente arqueadas. Mas o resquício de sabor da casquinha de baunilha se esvai no paladar que se derrama numa saliva espessa, transparente e intransponível – como deve ser o amor de outro homem, também emaranhado numa suposta aglomeração cotidiana. Só então ele não é notado, e segue seu destino ao dar três passos sonolentos em direção ao banheiro, sobre os azulejos frios e sujos. O animal de estimação que o observa, ou que apenas exibe aquele olho pidão dos animais que nunca verbalizam, mas que insistem na fome por algo sem nome, sem tradução, ou simplesmente medo, medo, medo indecifrável.

Só os extraterrestres são sinceros. Por quase meia hora ele o espera. Não há sinal da presença que seria o sol de seu planeta escuro. Pequeno príncipe numa comparação abobalhada. Meia hora de agonia, cada pessoa ao redor como presas observadas. A mulher que se aproxima e que pergunta que horas são. As escadas rolantes aglomeradas. A casquinha de sorvete seria o vestígio dele, o vestígio de quem esteve ali, vestígio de suas impressões digitais, esperando alguém que nunca chega – pois dizem que quem espera sempre alcança. Os quadriláteros daquele shopping imenso. Mas ele não consegue alcançar o dono de seu desejo, a ligação não se completa, o celular desligado, o que aquele príncipe deve estar fazendo enquanto estou aqui, de mãos tensas sobre as pernas, o olhar descaracterizado, tão preocupado com a décima oitava chance dada ao brilho de finalmente amar alguém usando uma jaqueta sobre uma motocicleta. Quase vinte minutos depois, resolvera impregnar-se em outros segundos de esperança. Já é certo que o tempo (a ilusão) se transformara em final fatídico. Ele não aparecerá de surpresa ou cheio de desculpas esfarrapadas. Ele não reinventará o desejo de compensar o atraso com um abraço extra, um sorriso extra, um pau duro extra. Assim ele caminha no passo largo que se decide por ir embora. De cabeça baixa, relembra em vão a matéria da revista sobre “os alimentos com alto teor calórico, mas com valores reduzidos de nutrientes”. O pensamento sobre a fome que o espanta. Mas aí aperta-se o botão do elevador rumo ao subsolo, paga-se o estacionamento, abre-se a porta do carro, engata-se a marcha ré, e ele esquece de ligar os faróis de si, os faróis que nem sempre iluminam as estradas, pois as coisas se escurecem sem explicação. Esperar por alguém que não vem é também colher uma planta morta, ou se alimentar de alimentos calóricos e deficientes de nutrientes. As pessoas se perdem, se anulam cheias de algum tropeço alheio no meio de tantas armadilhas no caminho, caminho, caminho inalcançável.

Só os extraterrestres são sinceros. No sinal de trânsito em frente ao shopping o menino quase nu, esfarrapado, olho pedinte, feridas nos pés. O menino perambula entre os automóveis estendendo a mão por alguma moeda. O homem dentro do carro vê o menino e não olha nos olhos da criança – que espera que alguma janela enfim se abra. O sinal de trânsito de repente verde, os carros seguem, o menino retorna à calçada, e de cócoras desaparece no retrovisor dos carros de todos os homens e mulheres daquela rua e do mundo. O menino também espera por alguém? É possível que ele, tão jovem, já não deseje algo além de uns trocados, assim como o homem espera uma coisa extraordinária além da presença, do corpo, de uma palavra. E no asfalto os insistentes buracos, os solavancos sobre os buracos, o rosto estático do homem ao ultrapassar os buracos, os faróis desligados, os pneus do carro resistentes e impenetráveis sobre os buracos, o olhar fixo do homem, o olhar fixo do menino, o olhar fixo das pessoas no shopping, o olhar fixo dos adolescentes diante de um suculento hambúrguer, o olhar daquela mulher que atravessa a avenida e enxerga como ninguém aquele carro rumo à parede na maior velocidade, velocidade, velocidade incontrolável.


ANTÔNIO LACARNE | cearense, nasceu em 1983. É autor de “Salão Chinês” (Patuá, 2014), “Todos os poemas são loucos” (Gueto Editorial, 2017). Participou das coletâneas “A Polêmica Vida do Amor” (Oito e Meio, 2011) e “A Nossos Pés” (7Letras, 2017). Seus textos estão presentes em revistas e suplementos literários. | antonio.lacarne@gmail.com

 

 

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