Subversa

Fenomenologia de copos | Anderson Freixo (Salvador, BA)


Com uma proposta de paraíso, embora sem dúvida incerta, persisto nesse inferno devido à esperança possivelmente estúpida de cá conseguir salvação. Algum tipo de salvação. Ou algum tipo delicioso de perdição, o que é diferente de simplesmente sofrer, ou de simplesmente ter paz. Meus amigos vão parando de beber, meus dias se prolongam, meu século é ruim, minha gastrite dói. Já pensei em me dividir em dois, e seguir dois destinos, mas então seria duas pessoas sentindo falta daquilo que seu respectivo duplo viveria plenamente. Me falam de copos meio cheios e meio vazios, tanta metafísica e as pessoas refletem sobre copos. Fenomenologia de copos. Enquanto isso o mundo cai sobre as ruínas de meu próprio mundo. Hoje de tarde fiquei apenas triste, o que me deixou contente, pois pude dormir. Acordei encurralado, hospedeiro de um nada, talvez de uma interrogação, sem frase. Eu estou cansado. O ânimo vaza de mim, pelas brechas da pele que a desesperança carcomeu. O ânimo há. Ele apenas vaza de mim, eu, expectador de minha doença. O ânimo há, ele nasce infinitamente de mim, e morre. Se não fosse esse ânimo, seria apenas vazio, um tiro na testa, dormir, acordar, levantar pra mijar e deitar de novo, acalantado pelo teto. Se não fosse esse ânimo, seria apenas a lenta destruição de mim, a acelerada deterioração de mim, apenas a morte. Mas o ânimo há. Essa é a sina. Tapar buracos, juntar os ânimos, levantar, mudar algo, quiçá o mundo.


ANDERSON SOARES FREIXO | nascido em Niterói, mora há 10 anos em Salvador, onde graduou-se em Letras pela UFBA. Já teve contos publicados por outras revistas, como  Mallarmargens, Samizdat e Desenredos. Atualmente publica seus textos no blog zonadofreixo.blogspot.com

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