Subversa

Fragmentos | Ligia S. Ikeda (São Paulo, SP, Brasil)

Aquarela | William Soares dos Santos


Andava pelo lado direito da calçada, rumo ao cruzamento há não mais de cem metros dalí, onde entraria à direita. Fizera esse mesmo caminho umas tantas vezes. Tinha sido testemunha de comércios florescentes. Um café, uma loja de bugigangas, uma quitanda. Depois dos grandes supermercados, hipermercados, dos corredores cheios de produtos a perder de vista, voltávamos aos poucos ao ponto de partida : pequenos comércios de bairro, venda de grãos por quilo, garrafas em consignação. Outros comércios tinham aberto e fechado como se nunca tivessem existido. Como se não fossem destinados a vingar. Assim ouviu certa vez a vizinha falar de um bebê : “nasceu como se não fosse feito pra vingar”.

Avançava, sem se dar conta, quando o seu pé topou num obstáculo. Antes que os seus olhos se fixassem no objeto, algumas imagens soltas vieram a ele : um pedaço de sanduíche, um retalho de tecido embalando uma fatia de bolo, uma peça de um brinquedo. Mas quando olhou para baixo não pode conter o gemido : tinha topado num nariz.

Pontiagudo, limpo. Nenhum traço de sangue, nenhuma secreção viscosa. Por um instante desejou desesperadamente que aquele fosse um nariz de plástico. Seu olhar esvaziou-se, quando de súbito, pequenos insetos deixaram as narinas, dispersando-se na natureza. Num movimento de recúo confirmou o que temia : tratava-se indubitavelmente de um nariz de homem.

Talvez, como alguns comércios, e o bebê da vizinha, aquele nariz não fosse feito pra vingar. O seu destino era o canto de calçada suja, junto ao papel de bala, ao chiclete, ao cocô de cachorro. Mas havia de fazer falta a algum rosto.

Tentou seguir andando, mas a visão do nariz jogado na calçada funcionava como um imã. Sentindo as pernas vacilantes, sentou-se no meio-fio. Há algum tempo vinha oscilando de um extremo a outro. A própria vida andava lhe tirando o sono. Algumas vezes tinha a impressão que tudo se resumia a poucos acontecimentos. Logo, já se tornara adulto, sem nunca ter se desvencilhado da dependência da mãe. Teve um ou outro caso. Não pretendia ter filhos. Não foi muito longe de onde nasceu e cresceu. Sem nem perceber envelheceria. Perderia a mãe, outros parentes e amigos. Esse sentimento de concisão, ainda que tivesse o mérito da transparência, roubava-lhe o sossego : a existência, de repente, lhe parecia extremamente curta. Mas outras vezes era toda outra concepção da vida que lhe aturdia. Os fatos respeitavam uma ordem invisível. Nada desviava do rumo. Talvez coisas acontecessem com outras pessoas, mas a sua vida era apenas uma eterna repetição. Uma imitação barata de sentimentos, decepções. Dos mesmos fatos já vivenciados; da mesma história de outros tantos homens que nunca nem conhecería. O retorno ao ponto de partida. Uma dor aguda lhe deixava sem ar. Uma estrada sem fim. Anos haviam passado desde o seu nascimento. Ainda que lembrasse com carinho da infância, uma vez encarnada a idade adulta, tudo não tinha passado de reiteração. A vida parecia estender-se adiante, num corredor infinito. A perspectiva de existir pelo menos mais uns 40 anos virava aflição; um só pensamento não lhe saía da cabeça: talvez envelhecesse mal. Nos jornais, o futuro nada tinha de promissor. O que mais poderia acontecer nos próximos 40 anos que já não tinha acontecido antes? De um lado ou de outro, sentia-se encurralado. E no entanto ao examinar a única possibilidade que se apresentava além destas duas penas, logo se deparava com o vazio. Afinal, tinha outra escolha a não ser se convencer a seguir vivendo? Além da existência, era o desconhecido.

Tais pensamentos não lhe ocupavam o tempo todo. Entre um extremo e outro experimentava o cotidiano. Uma ou outra insensatez lhe tomava o espírito. E depois seguia em frente, deixando as considerações de lado. Não sabia fazer diferente. Mas esse nariz atirado no chão, bem aos seus pés, lhe impedia de seguir adiante.

O último cheiro que o nariz sentiu, além do odor acre do sangue, e o sulfúreo marcado da pólvora, foi uma lembrança : a fragrância da sua mãe aos domingos. Flor de laranjeira. Não sabia exatamente se ele vinha do perfume que ela respingava sobre si mesma, ou dos biscoitos que ela assava, invariavelmente. De repente, nada tinha mais importância. Nem o que tinha ocorrido antes, nem o que viria depois. Não se arrependeu, não se compadeceu; simplesmente a realidade perdera qualquer possível sentido. Em meio à absurdidade do seu ato, da sua existência, das consequências, dos fatos que tinham lhe levado até alí, a única coisa que lhe restava, intacto, entre as mãos, era a insinuação da flor de laranjeira. Algo que desejou desesperadamente guardar para sempre, mas que projetou-se para fora do seu corpo, assim como o seu nariz, com a força da explosão. O resto, todo o resto, transformou-se mais rápido do que a luz em insanidade.

Não sabia que os momentos seguintes a esse encontro lhe jogariam numa espécie de dimensão atemporal. Continuava alí, sentado no meio fio, como se velasse o nariz. Desde que tinha deixado o rosto ao qual pertencia, o nariz certamente tinha mudado. Mas a verdade é que ele já lhe tinha sido familiar no passado. Sem perceber, olhava para o mesmo nariz que espreitava os seus movimentos, quando ambos ainda eram pequenos. O nariz, naquela época, não cobria nem a metade do rosto do menino, seu vizinho. Brincavam na rua o dia inteiro até o momento em que ouviam “vem pra dentro!”. Pequenas pedras e bolinhas de gude, galhos de árvore, tampinhas, figurinhas, lápis de cor, barcos de papel, penas de pomba, formigas. E nos domingos, somente nos domingos, eles sentavam na mesma mesa para comer bolachas fumegantes, mal tiradas do forno. A mãe do menino, dono do nariz, servia dois copos de leite, passava uma mão carinhosa na cabeça de cada um, e dizia “Olha a dor de barriga! Vou dar uma volta na casa da …”. Eles nunca ouviam o final da frase porque a mulher já tinha atravessado a porta da sala. O filho não parecia perceber, mas ele tinha a certeza que ela ia namorar. Depois, saíam correndo para ver quem chegava primeiro, e o menino, dono do nariz, gritava do meio da rua “não vale!”.

Foi a sua irmã, que nem bem tocara a realidade, tinha desaparecido, porque “nasceu como se não fosse feita pra vingar”. Ele, como as outras pessoas vivas, pôs-se a vingar sem saber exatamente o porquê. Perderam-se de vista. E o menino seu vizinho, uma vez adulto, não encontrando nenhuma razão – talvez porque tenha se distraído das coisas importantes, ou tenha se convencido de um absurdo sem tamanho – resolveu, por sua vez, vingar-se da realidade. No momento anterior ao seu desaparecimento, e à ejeção do seu nariz para fora do rosto, teria ele vislumbrado alguma explicação possível sobre o motivo de tal vingança? De certo, o fato de “vingar”, e de pertencer à realidade, não apresentava razões fundamentais. Mas muitas razões eram suficientes. O nariz veio aterrissar, pela força do acaso, no caminho daquele que um dia o conheceu. Tinham sentido alguns odores juntos. Um último suspiro familiar. O que sucedeu em seguida foi a supressão definitiva da existência de uma mãe cheirando flor de laranjeira nos domingos, porque assava biscoitos, ou porque espirrava a fragrância sobre si mesma no intuito de tornar-se mais atraente, mais confiante, mais presente na realidade.


LIGIA S. IKEDA nasceu em São Paulo, é formada em Filosofia e Ciências Políticas, há dez anos morando na França, escreve textos no blog Desconsiderações sobre o mundo, já teve texto publicado nessa revista. | LIGIAIKEDA@HOTMAIL.COM

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