Subversa

Gabriel Pardal e o ORNITORRINCO: “É uma ideia simples, mas a missão é complexa”.

Como muitos leitores já sabem, o lançamento da Subversa no Rio de Janeiro foi muito interessante e diferente de tudo o que já fizemos por aqui. E o fato desta experiência ter sido muito positiva para todos nós deve-se muito à colaboração do ORNITORRINCO, idealizado por Gabriel Pardal, um autor que vai se manifestando entre textos, imagens e criações de diversos formatos, entre eles o livro Carnavália, publicado em 2011.

Mais que uma união de forças e um mero apoio para um lançamento, a parceria tomou forma de ferramenta de discussão de pontos de vista fundamentais para quem trabalha com literatura. Para quem está comprometido com ela, seja individual ou coletivamente. Que está preocupado, tanto com sua utilidade como com a angústia da inutilidade que só um belo texto é capaz de proporcionar. Para todos que, enfim, enxergam na escrita (e na leitura) uma maneira de elaborar e aperfeiçoar uma ideia através de uma forma, seja um desabafo, um impulso estético ou o desejo mais elevado por um mundo melhor.

Por essas e outras, resolvemos trazer um pouco desta conversa aqui, no número de aniversário da Subversa, que ganhou vários presentes nos últimos dias, sendo a noite de 21 de Julho um dos mais curiosos.

Sub | Quando o Ornitorrinco foi criado, quais eram as expectativas daquele momento e como você vê isso hoje?

Gabriel | Minha ideia era simples: reunir um pequeno grupo de amigos e conhecidos em um projeto onde escreveríamos de forma livre e pessoal sobre o que estávamos vivendo e enviar para outros amigos que se interessariam por essas reflexões escritas. Escolhi os integrantes desse grupo por um único critério, eu sabia que eles escreviam, e, sobretudo, gostava do que eles escreviam e queria que eles escrevessem mais e que as pessoas os lessem. No início os textos eram enviados quinzenalmente por e-mail para um grupo de assinantes que foi crescendo com o tempo. Em uma sociedade carregada pelo cultura da imagem, abastecendo a internet com bilhões de fotos, vídeos, memes, gifs, minha proposta foi criar uma casa onde só valesse o texto puro e simplesmente. Uma ilha de textos no mar de pixels.

O projeto foi mudando com o tempo pois íamos descobrindo novas formas de executá-lo e nos interessando por outras trocas. Saímos do e-mail e fomos para um site. Deixamos de escrever semanalmente para publicar todos os dias,e começamos a aceitar colaboradores. Tínhamos um projeto ambicioso, queríamos criar um documento sobre o que é viver nesses tempos de agora, publicando textos de não-ficção que desenvolvessem um pensamento sobre os acontecimentos do presente. Hoje, como o ORNITORRINCO existe há quatro anos, é possível enxergar isso com mais clareza, quero dizer, esses últimos anos não foram fáceis, e suas experiências estão registradas no nosso arquivo. É uma ideia simples mas a missão é complexa. Somos loucos.

foto: Camilo Lobo

foto: Camilo Lobo

Sub | Em relação ao público leitor do Ornitorrinco, havia um público alvo? Se sim, ele existe, permanece? 

Gabriel | O público mudou, o grupo mudou, tudo foi mudando nessa trajetória. De repente uma ideia que começou com 70 leitores passou para 1.000 a 4.500 por dia. Fomos perdendo a noção de quem estava acessando. Comentários e colaborações começaram a chegar de todo o país, pessoas de diferentes gerações, profissionais de várias áreas enviando textos. Por exemplo, após junho de 2013, publicamos vários artigos sobre as manifestações, um de um historiador, de um poeta, um psicólogo, promovendo diferentes reflexões sobre um assunto que afetava a todos.

Mas nunca focamos em público, não. Não houve nenhuma reunião onde chegamos a pensar que deveríamos escrever para um grupo de pessoas. Homens, mulheres, adultos, adolescentes, etc., é para todo mundo.

Sub | É uma evidência importante de que existem leitores interessados neste tipo de ilha. Você acha que as estatísticas que vemos por aí dizem algo, realmente, dos leitores brasileiros? Acha que tem influência na motivação de quem trabalha na área?

Gabriel | Penso nisso diariamente, e mesmo quando não penso, a questão está comigo. Quem lê? Por que faz isso? Estamos em 2015 e por que há ainda quem escreve? Escrever e ler é importante? Para cada uma dessas perguntas posso ter respostas diferentes a cada dia.

Recentemente tomei um café com um amigo escritor que me contou que pela manhã, por pelo menos duas horas, vem se dedicando a escrever seu romance. Falei que também estou escrevendo um livro e que tento todo dia rabiscar alguma coisa, mas quase sempre é difícil, doloroso, exige uma energia difícil de arrancar. Muitos escritores falam disso aí, do quão difícil é escrever. E aqui no Brasil é mais difícil ainda, ser escritor não é nada. Não paga as contas. Não levam à sério. Diga que é escritor que vão te perguntar como que você sobrevive.

Segundo a última pesquisa, a média de leitura do brasileiro e de 1,7 livros por ano. Pode pôr nessa conta a Bíblia, livros de auto ajuda, best sellers internacionais… O Brasil é um país em que o povo saiu da analfabetização direto pra TV. Somos educados pela imagem, pela relação passiva com a televisão. Não há estímulo à leitura nas famílias, no trabalho, entre amigos, nem nas escolas, que deveria ser a responsável por isso. Olha a grade curricular dos adolescentes, em uma semana eles têm cinco aulas de física, matemática, química, e uma de literatura. Não há igualdade, a literatura é desde aí tida como uma disciplina inferior, que merece menos atenção, é desimportante.

Se a situação é essa, então porque o escritor brasileiro contemporâneo desperdiça seu tempo fazendo essa atividade cheia de dor, avencas, tortuante? Porque para o escritor não há outra alternativa. Não tem jeito. Eu posso evitar (procrastino bastante), mas não adianta, acabo sentando e escrevendo. É como uma maldição. O escritor não tem escolha, é preciso fazer.

Dito isso, é preciso entender os processos atuais. A média de leitura do brasileiro é de 1,7 livros por ano, mas acredito que as pessoas têm lido bastante sim. A internet é o novo lugar de leitura. Está certo que a maioria passa mais tempo vendo vídeos e fotos, mas os sites de notícias, artigos, os blogs estão aí sendo compartilhados pelas mesmas pessoas que leram 1 livro ou nenhum. Elas estão lendo sim, só que na internet. Um dia desses conheci uma garota que disse que gosta do que escrevo, mas nunca leu meu livro, tudo o que leu está no ORNITORRINCO. Ou seja, publiquei o “Carnavália” em 2011, e não devo ter vendido mais do que 500 livros, já no ORNITORRINCO alcançamos uma média de 2.000 leitores por dia (o que é bem pouco comparado a outros sites). Então posso dizer que estão lendo o que escrevo, existem leitores, só que em outra plataforma. E aí? Um texto publicado na internet é menor do que no livro? Quando escrevo na internet eu o faço com menos vontade? Não e não. Até escrever nas redes sociais, considero como uma atividade literária. É assim que é agora, que estamos sendo lidos, que se chega à literatura, é assim que se escreve e publica nos dias de hoje.

Escritor não é só o que escreve livros. O mercado editorial ainda não conseguiu se entender com isso. Mas tudo bem, os “especialistas” costumam levar mais tempo para aceitar o que as pessoas já estão fazendo naturalmente.

A literatura, o escritor, os leitores, não estão mais presos aos livros.

foto: Camilo Lobo

foto: Camilo Lobo

Sub | E sobre o momento em que o Ornitorrinco passou a realizar a República, como foi que isso aconteceu? Houve alguma mudança significativa nos rumos do projeto, olhando hoje?

Gabriel | O República ORNITORRINCO surgiu pois queríamos entrar em contato com as pessoas que só conhecíamos virtualmente. É um dos desdobramentos do ORNITORRINCO que eu mais gosto. A ideia é essa: abrir as portas da nossa redação para discutir com os leitores e colaboradores os assuntos da semana. Sempre aparece uma galera bem bacana e entramos pela noite conversando, trocando ideias, opiniões, e acabamos saindo de lá mais espertos.

Em todas as edições eu e o Domingos [Guimaraens, colunista] nos reunimos para decidir a pauta do evento, a ordem, como vai funcionar, essas coisas. Criamos um roteiro de base, mas na hora deixamos o caos bagunçar, somos dominados pelos imprevistos, pelas interações com as pessoas.

E o República afeta a nossa escrita e vice-versa. É bom isso, fazer o escritor sair de casa, falar com o público, com os parceiros, se misturar.

Pois é isso, se misturar é a nossa parada. Tem bicho mais misturado do que um ornitorrinco?


GABRIEL PARDAL é escritor, ator, artista multimídia, editor e idealizador do ORNITORRINCO. Publicou Carnavália, em 2011, pela editora Oito e Meio.

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