Subversa

Igual a Zero | Junior Cazeri (São Pedro, SP, Brasil)

Aquarela | William Soares dos Santos


Não sou, guiam-me ocasião e momento. Quando apaixonado, apaixonado estou; quando inconsolável, inconsolável estou. Calcule, é ciência exata. Troco o x de ontem pelo y de hoje para encontrar minhas coordenadas. Como equação, sofro a dor das variáveis. Rabisco meus resultados e obtenho soluções precisas para problemas que não compreendo. Por baixo de cada traço, as marcas dos achados anteriores, os erros, a inabilidade.

Tome como exemplo essas quatro proposições sazonais:

a) O vento outonal balança as cortinas da manhã. Ela me abraça e o tempo espreguiça, alonga os ponteiros e nos permite cinco minutinhos a mais de edredons.

(o despertador ruge em FM a mais tocada em canalhice e desespero)

b) Durante a tarde, os perfumes da primavera apascentam a saudade, aliviam a carga da distância e refrescam a lembrança de seu rosto.

(me tranco no banheiro, bombardeio seu celular de  mensagens sacanas e nudes em close-up)

c) O punho enérgico do verão nos sustenta para não cairmos com a noite. Conversa em voz alta, risos sincronizados, beijos macios. Nos despimos e o calor arde em nós.

(ela prende meu rosto entre as coxas às gargalhadas, sufoco agitando os braços no ar)

d) Agarrados um ao outro entregamo-nos à madrugada invernal. O frio pede silêncio ao corpo, apazigua os medos, nos torna um só na tranquilidade do esquecimento.

(de barriga pra cima ela ronca. Dou cotoveladas em suas tetas para dormir em paz)

Para um melhor entendimento, reforço com um quarteto colorido:

a) O motorista do sedã vermelho perde o controle na curva da XV de Novembro com a Tiradentes e a atropela na calçada. O para-choque esmaga seus joelhos, a frente do veículo empina ao bater na sarjeta catapultando-a contra o muro da esquina.

(o cometa fora de órbita plaina acima do asfalto em rota de colisão com minha estrela avoada)

b) É quinta-feira, ela usa uma blusa azul. Quando se quebram, as costelas rasgam o tecido e fincam trapos nos tijolos. O sangue escorre até a calçada, empoça na roda dianteira direita do veículo e, finalmente, chega em filetes ao meio fio. Acham um dente no quintal ao lado e ninguém explica como foi parar tão longe.

(o céu estilhaçado lança escuridão entre suas fendas, um abismo que se derrama sobre nós)

c) Dia seguinte, o muro já pintado de amarelo. A calçada lavada em alta pressão. Os cacos e detritos recolhidos pelos garis. Não encontro seus vestígios em lugar algum. Conforme volto, semana após semana, os olhares dos vizinhos através das grades se tornam hostis.

(vago por uma trilha de lamentos perseguindo uma inalcançável recordação inédita de você)

d) Encontro seu diário de capa rosa em uma gaveta. Resisto em folhear as páginas, medo de suas percepções sobre mim. Hesito. Espero. Vencido, corro até ele sob a luz da janela. Uma receita de bolo de banana e despesas domésticas dos últimos quatro meses.

(invento uma voz pra chamar de sua, roubo suas palavras, oferto aos meus ouvidos o espólio mudo do seu bem querer)

Percebe o disparate? É impossível pintar com fogo. Essa lógica maculada faz dois menos um igual a zero. E não sei o que estou além de perdido.


JUNIOR CAZERI é coordenador de serviços de TI e escritor. Foi colaborador do projeto colaborativo Quotidianos, editor da revista de ficção especulativa 1000 Universos e escreve em seu blog, o Zzzumbido. | JRCAZERI@GMAIL.COM

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