Subversa

Inação | Felipe Del Fiorentino (São Paulo, SP)


No olhar da enfermeira, piedade… na boca crispada daquela enfermeira, o lamento. A cabeça em movimento de negação, o fim.

Uma história de vinte anos. Talvez mais, porém não menos. Metade da vida entre hospitais e aquela casa. Longos anos naquela casa, naquela velha poltrona marrom de couro. E agora só o fim. Sem esforço, sem remorso, o fim despreocupado.

— Infelizmente ela…

Um grito após a notícia. A mãe, depois de tanto tempo… Mais gritos:

— NÃO! NÃO! NÃO!

Consolo das mãos de ternura. Solidão espremida entre dois. Mais um dia comum, ninguém ao seu lado exceto ela, a enfermeira. A mesma, desde o início.

Na mesma pequena cama de madeira, um curso infindável… sensação de imortalidade. A eternidade em cada segundo de olhar fixo para o teto branco. As paredes lisas de um branco impecável; o crucifixo grande, impotente.

Carro… traumatismo craniano… disfunção cerebral.

Mas por que agora? Um estalo. Eutanásia? Os aparelhos…

— Você… capaz??? Não… logo você?! VO-CÊ? — relutante.

Tremor. Náusea. Visão turva.

A pergunta perdida em rodopios pelo ar. Sem resposta.

No olhar da silenciosa amiga, só piedade… na boca crispada daquela amiga, só lamento. A cabeça em movimento de negação, só o fim.

Em todo aquele tempo, somente meia dúzia de palavras espaçadas. Nas primeiras, o renascimento da esperança. Mais tarde, só desilusão. Ano após ano, calada. Músculos atrofiados. Um minúsculo colosso e seu apego a um semiviver insurgente.

Memórias de um tempo de companheirismo… filmes, risadas, vinho barato, o cachorro cego sob seus cuidados. Faxinas a quatro mãos, cheiro de lavanda nas tardes de sábado. Bolo de chocolate em poucos minutos… O choro das decepções amorosas de uma juventude cada vez mais distante. A partida do pai e marido. Duas ausências de uma só vez, uma única solução — a continuidade. Meses depois, o acidente. Abandono próprio. Renúncia à vida de outrora. Novo início. Sempre juntas, até aquele momento.

Sede imediata de violência, vingança. Olho por olho, vida por vida. Pensamento homicida. A face vermelha como fogo. Respiração frenética, punhos cerrados. Fúria represada.

— A consciência dela… intacta… — a cólera nas veias das têmporas.

— Minha filha, a ciência ainda não…

Interrupção:

— Quieta, monstro! Assassina!

O vaso da bisavó em mil fragmentos pelo chão. Choro ruidoso. Novamente, aquele par de mãos desprovidas de egoísmo. O afago misericordioso depois do sacrifício tardio.

— Minha paz por sua nova vida.

— Por minha vi…?

Lágrimas redentoras, a compreensão do quadro. Resignação. O abraço úmido, puro. Enfim deitada no regaço daquela figura maternal — a última. Alívio constrangedor. Culpa. Desejo de autopunição pelo sentimento contraditório — o sentimento enclausurado, expelido aos jorros dos cantos mais inacessíveis da alma.

Imagens de uma nova vida, longe dali. Por enquanto, só o fim, enfim.


FELIPE DEL FIORENTINO | Paulistano, é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. | felipedelfiore@gmail.com

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