Subversa

Instruções de Uso | Francieli Borges (Santa Maria, RS)


Não é de hoje que olho essa vermelhidão suprema, ela fisga tudo. Em sua forma rude, ninguém que veja de relance alcança metade das suas possibilidades. Pouca coisa nessa esfera faz supor o que poderá acontecer. O planeta rígido, quando partido, lança um aroma de terra úmida e a gente resvala na memória da chuva, aquela mesma, a primeira que identificamos em todos os outros dias que choverão. Quando finalmente ela fica na nossa frente, já duas, notamos seu coração, num crescendo, como aquela onda vaga quando uma pedra forte atinge a poça. Há um desenho específico, semelhante a uma espiral, que lembra as ilustrações viajantes da cultura pop. E a cor. Não posso com as cores. Nessa altura, já um roxo vivo que escorre e tinge os tecidos para sempre, as louças, as mãos, os lábios, as tripas. O sabor é incomparável, para o bem e para o mal, cada ser humano guarda na língua um gosto único a partir dela. Em uma extremidade, ligeiramente pontuda, há um amontoado de camadas mais marrons, potentes. Se colocadas em um potinho, mesmo que tímido, com a parte cortada para baixo, funcionam como um relógio de sol – e a partir daí dependemos dele todo o tempo. Isto é, se o sol for demasiado quente ou se ficar escondido ou se a estação não for própria, enfim, ou se tivermos que esperar, aliás, lição essencial, precisamos nos fazer tranquilos mesmo que o apelo for exausto. Geralmente acontece rapidinho. Um pequeno volume verde-escuro-meio-rajado-assim-vermelho começa a ter irmãos, brotando todos gêmeos, especialmente se estivermos distraídos com tantas outras coisas que não dá para perder tanto tempo com um simples vegetal. Por sinal, esse tubérculo é assim mesmo, bem unido, forte, ligeirinho, um espanto. Quando viu, nesse prazer de existir bem íntimo, a beterraba sobe, nunca paralela, mas em um impulso despojado, no tempo porque-sim. Dia a dia de exuberância dirigida a ninguém em especial. No projeto de hastes finas e raízes, cresce por todos os lados, toma forma, e, quem sabe, precisa ser transplantada se for para frutificar mais e melhor. Ou então ela seguirá enquanto a admirável beterraba de apartamento, sofrendo contida em um recipiente diminuto, embora bela na solidão nobre de planta.

É opcional cortar, ralar, conservar, admirar, cozinhar, liquidificar. Recomenda-se beber o suco encantatório da beterraba que se refaz e verte sempre tal como vitamina eterna. Saber todas as etapas é ser soberano, integrante da ciência encantada da naturalidade da vida.

 


FRANCIELI BORGES se dedica às letras por ofício e gosto. | francielidborges@gmail.com

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