Subversa

Jantar para três | Marcelo de Araujo (Rio de Janeiro, RJ)


Um não diz boa noite para o outro, mas já era noite. E tarde. Ele culpa a chuva, o excesso de trabalho no escritório, e o trânsito na Rua Pinheiro Machado. O elevador enguiçado era culpado também: da garagem ao sexto piso foram doze lances de escada, sem contar o mesmo trecho na descida de manhã. A esposa concorda e abre uma gaveta do freezer sobre o qual ainda se via, pregado na parede, um calendário que a indiferença do casal deixou congelado no dia 10 de setembro do ano anterior. A porta que separa a cozinha do hall de entrada do apartamento mal se fecha e o marido some para o quarto fazendo o sapato estalar contra o piso de madeira, um som mais abafado quando o solado cruza o tapete ao final do corredor. Diante do freezer, a mulher permanece indecisa entre se desfazer agora ou mais tarde do lixo acumulado na cozinha, três sacolas que já aguardavam enfileiradas no chão desde o início da manhã. Havia também a louça do almoço empilhada na pia.

Quando o marido retorna do banho, já com seu chinelo de dedo, a mulher ainda estava de pé na cozinha. Uma luz amarelada ilumina o seu rosto. A tela do forno de micro-ondas transmite ao vivo cada nova rotação do ensopado de frango em ebulição no interior de uma panela de vidro.

“Você já está com fome?”, ela pergunta sem olhar para o marido.

“O quê que você acha?”

“A moça foi embora mais cedo hoje…”

“De novo?”, o homem dispara, sem esperar a explicação da mulher.

“O ônibus não sai da garagem quando chove no bairro dela em Caxias.”

“E Clarinha?”

“Já está dormindo no quarto, tem inglês cedo de manhã.”

O forno de micro-ondas, sem mostrar qualquer sinal de respeito, se intromete de repente na conversa do casal. Três bipes agudos, sendo um mais longo no fim, lembram o último suspiro de um jovem morrendo na UTI. As borbulhas no ensopado da panela de vidro foram morrendo aos poucos também. O marido retira dois pratos do armário. E depois mais um. Os talheres tilintam na gaveta. O homem foge para a sala aterrissando sem escala no sofá encostado à parede. Dessa vez, ninguém poderia acusá-lo de jamais ajudar na cozinha, de andar de sapatos pela casa, ou de ignorar os comentários da mulher.

Quando se mudaram para o Flamengo, apenas o barulho dos carros, dos caminhões e de tudo que deslizasse sobre rodas parecia incomodar família. Até mesmo o estrondo de aviões lhes invadia amiúde a sala, varava as paredes dos quartos e só desligava as turbinas ao chegar na área de serviço junto ao quarto de empregada do qual se via o precipício formado pelo prisma de ventilação do edifício. Na época, passava também lá embaixo, sob a janela do apartamento, um Chevrolet que o DETRAN se esqueceu de recolher das ruas e do qual se ouvida um megafone berrando: “Olha a pamonha. Pamonha quentinha. Pamonha”. A família só não tinha paciência com o carro da pamonha implorando atenção – apenas isso incomodava. Até para a polícia planejaram ligar uma vez. Mas a vista para o Aterro do Flamengo, para a Baía de Guanabara, e o para o Cara de Cão sentado à direita fazia calar os ônibus mais enfurecidos trafegando sobre as pistas, emudecia também as pizzas mais urgentes, ou as encomendas da farmácia que um pelotão de motocicletas tratava de entregar sem demora. E nem mesmo o suicida na ambulância − aquele som agudo de sirene que a mulher não conseguia esquecer – se importaria realmente em morrer se olhasse de relance para as pessoas no gramado, ou para os moradores contemplando das varandas e janelas o sol afundando no outro lado da Baía. No começo, quando se mudaram para o bairro, os quatro também ficavam de camarote na janela da sala, a Clarinha no colo do irmão sob os olhos do pai, os três sob o olhar vigilante da mãe. Mas agora, com a cortina quase sempre fechada, o barulho na sala era a principal distração do casal, sobretudo àquela hora da noite quando se encontravam para a janta, ou se recolhiam − o sono ainda distante − no sofá da sala para folhear o jornal ou assistir à TV.

A mulher traz da cozinha a panela de vidro, puxa para si talheres e prato sem esperar pelo marido. O homem fecha o jornal, que na verdade apenas fingia ler, e toma seu lugar à mesa também. Jamais combinaram quem sentaria onde, mas era sempre a mesma posição: ela de frente para o marido, o marido ao lado do filho. A Clarinha que se acomodasse onde achasse melhor. O homem, perturbado com aquela confusão de facas, pratos, e garfos, alguns a mais e outros sem par, observa uma fina camada de óleo que avança lentamente por de trás de uma batata, contorna um pedaço de frango, e vai recobrindo toda a extensão do jantar. A mulher olha para o filho, desfocado em preto e branco, e depois para o marido. O rapaz, emoldurado na parede, completaria vinte e dois anos no dia seguinte.

“Vai ser a primeira vez sem ele amanhã”, comenta a mulher enquanto enche de água o copo do marido.

“Sim.”

“Você chega mais cedo amanhã?”

“Como vou saber? Essa moça vai embora mais cedo e nem cozinhar direito ela sabe.”

“Você não consegue chegar mais cedo amanhã?”

“Não reparou como ainda está meio congelado por dentro?”

“Ele tinha vinte e um anos…”, insiste a mulher.

“Vai botar de novo a culpa em mim?”, responde o marido.

“Não tinha sido a primeira vez, mas você também nunca tenteou entender.”

“E você também não. Ninguém. E nem a Clarinha que ainda sempre pergunta o que ele escreveu na carta.”

Clarinha dormia. Talvez sonhasse de novo com o irmão, o rapaz acenando lá de baixo sobre o gramado do Aterro com uma carta na mão. Quatro sacolas de lixo ainda aguardam na cozinha. Era muita louça para lavar. O barulho que vinha da rua, agora que chuva tinha estiado, ainda era a principal distração do casal.


MARCELO DE ARAUJO | é escritor e pesquisador. Doutorou-se em filosofia pela Universidade de Konstanz, Alemanha. Professor de filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Publicou dois livros sobre o filósofo René Descartes, e um sobre Dom Pedro II. Publicou também artigos acadêmicos em livros e periódicos de filosofia, e textos de ficção em revistas e jornais. Site do autor: www.marcelo-de-araujo.blogspot.com.br | MARCELO.ARAUJO@PQ.CNPQ.BR

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