Subversa

Libélula | Ramon Carlos (Florianópolis, SC)


a libélula de uma cor estranha

batendo asas de olhos fechados

eu falhei em contemplar tanta beleza

mas ela continua

está tão perto

que me espanta pensar em respirar

e espantá-la

não estamos conectados

estamos frios

dançando um tango estático

suas asas aceleradas fazem um som ininterrupto

vupt, vupt, vupt, vupt, vupt

rápida como o laser da animosidade

vácuo vago

chacina empírica

vivemos na velocidade da vida

mas fomos ultrapassados pela morte

respiro fundo e a libélula não se move

nosso quadro sem pintor

cuspiram nosso momento íntimo

ela mantêm-se em equilíbrio com o ar

eu vendi o futuro de três pessoas

vupt, vupt, vupt, vupt, vupt

minimizo os detalhes

agonizo nas possibilidades

demarquei um território inóspito

onde sangue é ingrediente para o alivio

esse inseto rodeia plantas verdes em formato de coração

talvez queira um daquele tamanho

talvez encare aquilo como bundas em pé

vendi o futuro de três pessoas e não ganhei nada

pelo contrário, pago até hoje

minha libélula não sabe disso

desconfia

mas sou tão grato pelos momentos

que me recuso tentar cortar suas asas

então de olhos fechados

nos despedimos

e voamos baixo, unidos

pra lugar nenhum


RAMON CARLOS (Santa Catarina, 1986) | Escreve no site estrAbismo. Sua carreira literária resume-se a dois contos publicados em uma antologia, além de materiais diversos em revistas como: Inutensílio, LiteraLivre, Subversa, Philos, Escambau e Bacanal.

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