Subversa

Lucia | Miguel Simões (Rio de Janeiro, RJ)


Sinopse: Lucia sempre tinha problemas tentando se relacionar com as pessoas. Não conseguia participar de um grupo de amigos e nem mesmo se divertir com seus parentes durante os almoços em família. Sua mãe era sempre a única que estava a seu lado, se tornando sua melhor amiga. Seu pai, ao contrário, era tudo, menos amigo, era a pessoa de que Lucia mais tinha medo. Ela sabia o que falavam dela, mas não se importava. Não se importava porque, acima de tudo, era muito autêntica e corajosa.

Lucia abriu os olhos como se tivesse acordado de um pesadelo, o coração um pouco acelerado e a respiração ofegante. Suas pupilas se dilataram com a luminosidade vinda do sol que atravessava a janela entreaberta. Limpou o pescoço e a testa que estavam molhados de suor. Piscou os olhos algumas vezes, até se acostumar com a claridade e depois os fechou de vez, respirando fundo. Precisava se manter calma porque o dia tinha finalmente chegado. Se manter calma era o que mais sabia fazer e dessa vez teria que fazer isso do melhor jeito possível.

Lucia abriu os olhos outra vez. Dessa vez suas pupilas não dilataram. Ainda tentava manter a calma, enquanto sua mãe passava­ o café, suando com o calor do fogão, e seu pai lia silenciosamente o jornal, mastigando ferozmente o pão seco, que esfarelava sujando toda mesa. Lia daquele jeito medonho, estranhamente quieto, como se a qualquer momento pudesse se transformar em algum animal e devorar a presa mais próxima. O silêncio da leitura era medonho porque Lucia sabia da fera que se escondia por trás daquelas páginas e sabia também que uma fera em silêncio provavelmente estaria planejando seu próximo ataque.

A chaleira apitou. O vapor quente subiu. O coração de Lucia disparou. Ela fechou os olhos e respirou fundo outra vez. Era assim quase todos os dias. Diariamente precisava acordar cedo para estudar, o pai para trabalhar e a mãe para cuidar da casa. Eram uma típica família miserável do interior que, quando não tinham dinheiro para comprar pão, comiam as mandiocas cultivadas no próprio quintal. Elas eram o sustento da família e, na maioria das vezes, o motivo de acordar a fera. A fera não gostava de Lucia não ser capaz de ajudar no plantio, mas dessa vez a menina não tinha acordado para ir estudar, dessa vez ela precisava ajudar no trabalho porque a crise tinha atingido a todos e a produção precisava aumentar, para que com isso tivesse mais mandiocas para venda.

Depois do café da manhã, Lucia foi para o banheiro apertado e sem reboco, com o chão de cimento e as paredes esverdeadas, mofando como resultado de alguma infiltração. Precisava escovar os dentes amarelados e prender seus longos cabelos pretos, para que não atrapalhassem durante o serviço. Enquanto fazia isso, a menina se contemplou no espelho, encarando aqueles olhos marejados e tristes, fundos pelas noites de medo, que às vezes brilhavam não pelas lágrimas, mas por se imaginar em outra realidade. Uma realidade onde a fera não batesse na porta do banheiro, a apressando para o que seria um dia inesquecível.

O céu estava completamente sem nuvens naquele dia, e o calor fazia com que a testa e a nuca de Lucia suassem como se estivesse com uma febre de mais de quarenta graus. Limpou a testa com as costas das mãos e procurou fazer exatamente como seu pai tinha acabado de ensinar. Sem falar nada, ele tinha pego uma enxada, aberto algumas covas profundas no solo arenoso, formando uma fileira, e depois plantado as ramas que já estavam perto dali. O chão seco e quente, mexido por aquele homem bruto e peludo, suando como se fosse uma fera que habitava caldeiras, causavam medo.

Lucia fechou os olhos antes de começar o serviço. Tentou ignorar o calor horrendo que a fazia ter vontade de se coçar toda. O que menos queria era perder a calma e fazer algo errado, porque sabia que não podiam desperdiçar nenhuma rama, o que resultaria em prejuízo financeiro e seria um ótimo motivo para a fera, que a observava atenciosamente, de longe, pudesse e atacar sem dar o mínimo de chance para a presa fugir.

Durante toda a manhã, Lucia repetiu exaustivamente o processo de pegar a inchada de cabo quente, abrir uma pequena cova, respirar com dificuldade, jogar a rama e limpar o suor que agora escorria por todo seu corpo. Repetiu o processo com perfeição, mesmo que além do medo da fera, também tivesse que lidar com os rapazes que eram ajudantes de seu pai. Não eram nada maduros para a idade que aparentavam ter, e, mesmo que levassem xingo do patrão quando se distraiam com suas brincadeiras toscas de socar um ao outro, não paravam com o comportamento. Eram como pequenas feras recém-nascidas, que apenas obedeciam ao instinto selvagem de atacar e se divertir de um jeito irracional. Suavam quase tanto quanto a fera maior e fediam como se tivessem trabalhando dias seguidos naquilo sem parar para se lavar.

Quando, finalmente, o horário do almoço chegou, Lucia respirou aliviada, com um pouco de dificuldade, e foi pegar sua garrafa com água e a marmita que sua mãe tinha preparado bem cedo naquele dia. A garrafa não tinha muita água, apenas o suficiente para molhar os lábios já secos e rachados. Sentou debaixo das folhas das poucas árvores que haviam ali, sentindo o frescor da sombra que projetavam, e comeu em silêncio todo seu arroz meio duro acompanhado de uma coxa de frango frito, que quase tinha sido completamente queimado por uma mulher apressada.

Lucia notou que na marmita do pai, além de arroz e frango, haviam batatas grandes e suculentas, cobertas de óleo, que ela amava, mas sabia que, como tinham poucos alimentos, a fera ficava com o direito de se alimentar com a maioria das coisas, porque por ser assustadoramente maior, precisava de mais sustento.

Observou aqueles dentes afiados rasgarem a coxa do frango com brutalidade, os olhos cerrados com firmeza e o mastigar barulhento e nojento. Aquele ritual aqueroso de saliva, carne sendo rompida e língua suja mexendo como um rabo de lagartixa que foi cortado. Notou também que ao lado as duas feras mais novas e imaturas, porém ainda sim perigosas, a observavam cochichando e rindo discretamente para que a fera maior não percebesse o que faziam. Lembravam hienas. Lucia, então, procurou fechar seus olhos novamente, mantendo a calma, e se concentrar no seu almoço. Ainda tinham um resto de tarde quente e muitas ramas para plantar.

O trabalho foi encerrado um pouco antes daquele sol escaldante se pôr. A essa altura Lucia estava fedendo tanto quanto as feras que a cercavam, e seus longos cabelos que haviam sido firmemente presos, escorriam desleixadamente pelo seu corpo. A menina só queria ir para casa, tomar um banho e voltar para o seu quarto, afim de cheirar seus papéis e canetas debaixo da cama e voltar a desenhar as roupas mais bonitas que podia imaginar.

Entretanto, a fera mandou que guardassem as ferramentas e ramas restantes, e foi para a casa primeiro que todos. Lucia não gostou nem um pouco da ideia de ficar sozinha com as outras feras imaturas, que não paravam de rir e se bater, babando enquanto riam e fedendo enquanto se batiam. Por isso, tratou de logo guardar suas ferramentas e as ramas que restavam, afim de ir embora o quanto antes.

Mas Lucia não chegou na sua casa aquele dia. A história do roubo das ferramentas correu rapidamente por toda a cidade e todos comentavam, os homens nos bares e as mulheres nas cercas enquanto estendiam as roupas, de quando a menina tinha sido encontrada naquela madrugada.

O pai de Lucia não chorou no seu enterro. Nem ao menos se deu o trabalho de consolar a esposa que, descontroladamente, chorava e suava durante aquela cerimônia feita às pressas numa tarde tão quente quanto a do dia anterior. O próprio pai com ajuda de suas feras, tinham aberto a cova naquele terreno seco. E, aguardou enquanto davam adeus à Lucia que, infelizmente, teve que se enterrar com o nome de nascimento. Enterrada como Luciano, nome que ela abandonara fazia exatamente um ano.


MIGUEL SIMÕES | natural do interior de São Paulo. Atualmente está terminando o curso de Bacharel em Literaturas de Língua Portuguesa da UFRJ. Possue alguns contos na gaveta e decidiu tentar mostrá-los pra quem se interessa. | miguelskins@hotmail.com

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Débora 1 de outubro de 2018 em 11:31

    Lindo, simplesmente
    Parabéns!

  2. Adriana Pereira Gouvêa 2 de outubro de 2018 em 17:05

    Emocionante… sem palavras no momento.

  3. Marineis Vasconcellos 2 de outubro de 2018 em 19:57

    Muito bom mesmo!! Um conto que consegue nos levar lá no local da estória!!!Amei!!PARABÉNS

  4. Adriana Rosa 5 de outubro de 2018 em 22:55

    Lindo conto meu sobrinho não esperava menos de ti .Bjs sucesso sempre !!!

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