Subversa

Mapa para aproximação da nebulosa NGZ2016, ou Pop, poesia e pensamento em ‘Gravidade Zero’ | Nuno Rau

Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Por onde começar, diante do espaço infinito que é proposto ou descortinado por Gravidade Zero? Por onde, diante da trama de fios que se trançam, oblíquos e ariscos, complexa estrutura subjacente ao éter primevo do aparente vácuo interposto entre os portos afastados por distâncias inomináveis? Poesia de incontáveis recursos, nômade pelo caminho pontuado por antenas de todo tipo, regurgitando ou capturando sinais – garrafas de náufrago – que vagam pelo espaço-tempo, assoma pela escotilha a nebulosa a ser abordada, organismo que instiga e urge decifrar aplicando a ele possíveis ordenadas e abscissas, eixos x, y e z para tentar formar uma malha que possa abraçar o que nos escapa, eis que os recursos da tecnologia – interpretação, hermenêutica – convulsionam-se diante do que não compreendemos inteiramente. Mas há sempre algo de perene, permanência ou possível mímesis, uma fração reconhecível ou estrutura emerge e o olho busca a ponte entre o que vê e seu museu particular, sua mnemosine portátil, a chave para decifrar os códigos observados.

Poemas são equações complexas, dotadas de singularidade e que possuem pelo menos dois eixos: aquilo para o quê eles olham e o modo como olham, ou como dizem o que olham; figuram este processo pelas relações horizontais e verticais no espaço da página, entre palavras consideradas isoladamente e no conjunto das relações entre todas as palavras do poema. À equação temos que acrescentar o eixo que a espacializa, o eixo do observador em seu telescópio, o leitor, que pode abordá-las de diversos modos, em geral simultaneamente – o antigo modo romântico de ler (e sentir) os poemas, o que estabelece juízos racionais, o que é atravessado por ideologias políticas, o que se ampara em teorias estéticas, o que tem em mira a tradição poética etc.; poemas são artefatos a um só tempo estéticos e políticos, afirmação que é, em última instância, uma redundância, visto que estética e política são uma unidade indissociável, como demonstra Terry Eagleton.

Alexandre Guarnieri apresenta em Gravidade Zero a sua consciência radical deste campo ampliado da poesia, pela racionalidade construtiva que aplica à materialidade – sempre contraditória – dos fenômenos sociais e existenciais convertidos em procedimentos retóricos, a retórica particular da poesia, aberta e descontínua em suas cesuras. Os procedimentos que os poemas destas páginas utilizam nos lembram o mito de Perseu, do modo como o observou Ítalo Calvino, “uma alegoria da relação do poeta com o mundo, uma lição do processo de continuar escrevendo”: ao olhar o mundo/a medusa pelo espelho/pelo poema, o poeta pode apropriar-se do/reelaborar o mundo. Não à toa o mito de Perseu (o Major Tom de Guarnieri) está ligado à origem da poesia, porque do sangue da Medusa nasce o Pégaso, cavalo alado que com uma patada faz nascer no Monte Hélicon a fonte em que as Musas vão beber e em torno da qual se reúnem para cantar e dançar. Mirando Bowie, em sua antropofagia personalíssima, o poeta olha o mundo pelo espelho dos poemas que ergue como atos políticos, nos quais “quasares intrasponíveis, perversas cassiopeias,/ cordas, singularidades quânticas & buracos brancos/ dançam a sós no baile excêntrico do pensamento”. Neste caminho, vamos perseguir algumas das possíveis chaves que dão acesso ao universo que temos em mãos.

Uma possível chave interpretativa dos códigos inscritos nos poemas de Gravidade Zero (doravante GZ) é a diluição do eu lírico, chave, aliás, cara a Alexandre Guarnieri em seus dois primeiros livros – Casa das Máquinas (2011) e Corpo de Festim (2014) -, explicitada no poema ‘HAL 9000’: “o ego/ em gravidade zero/ (já tão diluído o eu lírico)/ espera a derradeira diluição.” HAL é um Heuristically programmed ALgorithmic computer, ou computador algorítmico heuristicamente programado, artefato com avançada inteligência artificial que é personagem da Odisséia Espacial de Arthur C. Clarke, adaptada para o cinema por Stanley Kubrick em 1968 – mas Guarnieri nos alerta que HAL está “ávido por um coração humano/ ou uma alma/ como pinocchio/ frankenstein”, porque há algo de falho não só no criador, mas na criatura, a tecnologia, talvez pelo espelhamento.

Por esta via podemos ver o desastre como uma segunda chave de acesso aos códigos de GZ. David Bowie pode ter composto a canção ‘Space Oddity’ em 1968, já que apareceu em álbum um ano depois – este ano emblemático também nos leva a um dos últimos livros de Maurice Blanchot, que define o desastre como a saída de um espaço histórico, uma ruptura, separação da estrela (a ‘Black Star’ de Bowie?), num corte do campo gravitacional que nos mantinha presos a noções centrais – ser, Deus, sujeito; não gravitamos mais em torno desse astro (des-astro, “não estar no mundo sob os astros”), estamos no território da queda, do vazio, plena exterioridade, mas é de lá, deste fora, que se pensa: “Pensar, isso seria nomear (chamar) o desastre como as costas do pensamento” ou “Nós pressentimos que o desastre é o pensamento” ou “Querer escrever, que absurdo: escrever é a decadência do querer, como a perda do poder, a queda da cadência, o desastre ainda”. Como nos astropoemas, os “fragmentos do irrecuperável diário do major tom”, o desastre estaria então às costas do pensamento (e do seu campo de visão, o desastre seria o abandono – metafórico, sempre – do lar), mas também no seu litoral, sua fronteira, limiar entre dois campos heterogêneos, atmosfera e vácuo.

Munidos desta noção podemos empreender uma aproximação a GZ pela ideia de limite: “e são dois cuja proximidade física/ elimina toda ameaça de ultrapassagem/ pois mesmo colados, ou lado a lado/ ocupam extremos semânticos”. Os nossos limites do mundo são os limites da linguagem, e o conceito intuitivo de limite, em matemática, que é uma linguagem, tem uma instigante confluência com a escrita e a fala, encenando a problemática questão dos objetos e das palavras que devem significá-los – pelo lado da matemática, uma série ordinal que se aproxima de um número, tornando-se cada vez mais infinitesimal, mas que nunca encosta no número; no campo da escrita, as palavras que nos dão notícias vagas das coisas, mas que sempre preservarão o fundo indizível do que se está tentando significar (“tudo é blefe/ tudo se desconcerta/ tudo persegue/ seu próprio rewind”) – de algum modo, estamos imersos em uma retórica pregressa, que não dá conta de seguir de perto e representar os eventos da contemporaneidade: o poema é um artefato que precisa erguer-se com seus poderes de articulação e sustentação de certas configurações da realidade.

GZ não empreende apenas o caminho em direção ao futuro (tecnológico, interestelar): Major Tom leva para o espaço o seu museu particular, sua mnemosine, seu diálogo com a tradição que é, talvez, a chave mais singular desta viagem, o botão vermelho que catapulta sua cadeira em caso de acidente, ou o interlocutor imprescindível no isolamento dos espaços infinitos e silenciosos – e esta interlocução determina ao ‘argonauta perdido’ o único caminho possível, o último recurso dado ao destino humano: a poesia. Aby Warburg propôs em 1929: “Da influência do antigo. Esta história é fabulosa para contar. História de fantasmas para gente grande”; e assim vemos, em GZ, um espetáculo de imagens do antigo e seus significados cruzando a tela de nossas retinas (tão fatigadas), como contínuo delírio de ‘solar’ (“as hélices do leste o expelem/ sexy dédalo de pétalas/ apolíneo/ insígnia de cristas agressivas/ touro d’ouro….”), ou a ode às imagens clássicas e ancestrais que é ‘lunar’ (“ninfa entre fêmeas/ …. / gigantesca gota de mercúrio flutua/ sobre a cúpula da populosa urbe/…”).

Neste grande panteão há espaço para experiências outras, de diversos tempos, como, por exemplo, Augusto dos Anjos. A miríade de visões surpreendentes e cientificizantes, quando aproxima vocábulos eruditos com outros coloquiais, suas rimas surpreendentes e ritmos que nos conduzem à vertigem (“Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda./ Negra paixão congênita, bastarda,/ Do seu zooplasma ofídico resulta…”, em Monólogo de uma sombra). O “sincretismo linguístico” que nele observa Anatol Rosenfeld também podemos encontrar, atualizado, em Guarnieri: enquanto o poeta paraibano se utiliza de paroxismos, os poemas de GZ utilizam a descrição obsessiva que nos apresenta a constelação de cultura em que estamos mergulhados, indo dos mitos ao discurso que mapeia e interroga a tecnologia: “o solipsismo gnosiológico da sonda”, “o icônico traje branco/ terá como matéria-prima a poliamida e, maleável, o kevlar”, “tiveram por combustíveis reativos/ as novas pólvoras hipergólicas” e diversos outros exemplos.

Como não reconhecer, também, na Laika guarnieriana (essa cadela que ocupou o imaginário de muitas infâncias com sua solidão e seu destino entre maravilhoso e cruel – completamente cruel e nada maravilhoso, compreendemos hoje, como adultos) os ecos de Baleia, uma das personagens mais fascinantes da literatura brasileira? O poema nos diz: “pondera sobre como laika teria ganido,/ no limiar entre a vida e a desaparição,/ o desespero de não emitir som,/ sem osso, ou carinho (o rabo que não abanou)”. Sem falar nas ressonâncias do convite à reflexão feito ao leitor por Eliot em Morte pela água acerca do mesmo absurdo da existência – “Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.”

O vivo museu constelado em GZ também nos remete a Bilac e seu olhar para as estrelas, Gullar perscrutando o silêncio da Via Láctea – “coisa de homem/ esse bicho/ estelar/ que sonha/ (e luta)” -, Gilberto Gil e sua Lunik 9. E, claro, David Bowie, Peter Schilling, Kraftwerk, Joy Division.

Mas não para por aí. Para entrarmos em GZ, um dos pontos do mapa é a leveza: só submetidos a ela (a negação do peso) podemos entender o quanto o sentido da gravidade nos marca. Neste sentido, mesmo a inversão provisória e mutante que Kundera faz do pressuposto de Parmênides de que a leveza é negativa e o peso (a gravidade da existência), positivo, por meio do conceito do eterno retorno nietzschiano, pela sua contraface ética. A questão não se resolve de modo simples: os opostos simétricos se alternavam e se alternam, e os significados, “…ambos se digladiavam/ numa ferrenha e lenta/ batalha aérea/ em gravidade zero”, como se vê na Alegoria da Fortuna, pintada por Giorgio Vasari em 1542.

A última chave que apresentamos para os códigos de GZ, entre as inúmeras possíveis, é a sintaxe complexa: observar o poema é como observar um circuito (não à toa chamado de) impresso, objeto pedindo por decifração para que sua energia circule por meio dele e produza efeitos, para que a energia – as palavras – atinja o leitor e mova sinapses, teses, antíteses, sínteses. O livro às vezes exibe seus mecanismos, como no jogo “rádio/ruído/ruína/erro/enredo” e “humano/mesmo/fantasma” (ambos em ‘acidente aéreo), encadeando espectros sonoros que reverberam significados (no espaço?) no tão antigo e ainda presente consórcio entre som e sentido cuja excelência caracteriza – não de forma exclusiva, claro, porque há vias opostas – um bom poema. A vertigem (das palavras) já prevista na epifania do menino (em ‘estrela temporã’), a visão do que abdicaria pelo mergulho no espaço (das palavras) – a Terra, a fé, a família -, recebendo em troca apenas delírio, óleo diesel (combustível de seu motor de palavras), velocidade (a arte de atingir largas distâncias em menos tempo e a impossibilidade de ver/ler os detalhes insignificantes do percurso), o medo. Ainda haveria a mencionar pelo menos os conceitos de dobra e paralaxe, mas deixamos esta viagem a quem desfruta o universo destas páginas.

Por estes mecanismos (que não esgotam os acessos ao livro), GZ constela as imagens e as coloca em movimento; no entanto, a ida para o espaço exterior à atmosfera não é uma fuga: o espaço é um organismo infinito, tanto quanto a linguagem, em que se movem diversas temporalidades num sutil equilíbrio, viajando pelas dobras espaciais que encurvam o espaço-tempo, os buracos de minhoca ou wormholes. Deste salto (ou mergulho) viajamos entre copérnicos, ptolomeus, colombos, pequods, hispaniolas, ninfas, sílfides, morlocks e aliens, até chegarmos a major tom e seus astropoemas guarnierianos: “que destino um astronauta perdido/sem ar, carinho ou abrigo/ (entre hordas de supernovas/ escolheria, senão o da poesia?

Can you hear, me, leitor tripulante de GZ, – meu igual, – meu irmão?

 

/Pedra do Maroca, Copacabana, Rio de Janeiro, dezembro de 2016
22º 58’ 21,85” / 43º 11’ 35,75” / altitude indeterminada/


NUNO RAU é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas, sites e antologias. Co-organizou a Antologia Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi (Editora Patuá, 2016). Autor de Mecânica aplicada (Editora Patuá, 2017). É um dos editores da revista eletrônica mallarmargens.com

 

 

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