Subversa

Mapa sonoro | Francieli Borges (Santa Maria, RS)


O som do caminhar abafado pelos fones com qualquer sopro agudo alto altíssimo que quase dói a cabeça, tudo para esquecer os risos adultos, as bocas abertas, as bolinhas de saliva acre estourando entre os dentes. Então somos os passos e eu. O salto e eu. As bolhas friccionando o couro duro, fazem o tecido suar, couro-couro, resvalam, sussurram que ainda falta bastante, falta tanto. O calor brota dos poros, cogumelo d’água que vem de dentro e quer sair também, se mandar também, ir para longe. Um zumbido de abelha, imagino, porque os fones tapam as coisas mesmas. O sapato no asfalto ressoando na cabeça. O vento no corpo, o vento dos carros e os motores com um vento-cometa muito rápido e tão forte. Um menino sentado na lembrança que toca uma flauta muda, daquelas de plástico. O toque do sapato dentro do crânio. O céu abafado, os suspiros quentes, o marcador com um sol tremendo, encantatório e que faz cegar. Aí a chave gira, canta com o resto do chaveiro, os gatos entram com as notas grotescas, ansiosos pela festa, para deitar na sola melada, eles querem a vida lá de fora, aquela que são privados – se soubessem, se ouvissem tudo aquilo. Há um grilo insistente implorando chuva pelo amor de deus. É ele, a geladeira que funciona em um outro motor, menos cometa dessa vez; e mais o despertador que bate os números dos quais a base de borracha nº37 se ocupou à tarde.

Nunca descanso, jamais o silêncio.


FRANCIELI BORGES | se ocupa das palavras por ofício e gosto. | francielidborges@gmail.com

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