Subversa

Marcelinho | Carlos Barth (Macaé, RJ)


No final da década de 80, na Barra de Tramandaí, não tínhamos um local adequado para jogar futebol. Jogávamos em um local identificado por uma pichação na parede como “Beco do Lazaro”. Assim mesmo, Lazaro, sem acento agudo no primeiro a. Caso o tivesse, poderia ser aquele a quem Jesus ordenou “levanta-te e anda!”. Mas como nesse caso comprovei nos rabiscos da parede – com meus próprios olhos – a ausência do dito sinal gráfico, deve se tratar de outra pessoa. Ou ainda, talvez, a ideia tenha sido efetivamente homenagerar ao personagem bíblico ressuscitado, porém tenha faltado o necessário conhecimento de gramática ao pichador. Quem saberá?

A bem da verdade, tecnicamente, não era um beco. Ele tinha uma passagem que interligava a avenida Beira Mar à rua detrás da escola, a qual não recordo o nome. Era um tanto quanto estreita, é verdade, mas era uma passagem. Beco ou não, com acento agudo ou não, o fato é que aquele era nosso Maracanã. Ou melhor, nosso Beira Rio ou Olímpico, pois como bons gaúchos já éramos bairristas naquela tenra idade.

O futebol no beco – ou futebeco, como o chamávamos – tinha apenas duas regras e eram muito simples. A primeira dizia que o jogo só parava no caso de fratura exposta ou traumatismo craniano. No caso de qualquer outra contusão, e eram muitas, o jogador era imediatamente substituído pelo jogador que estava de fora esperando “a vez”. A segunda regra dizia que a bola só saía na linha de fundo. Portanto, era absolutamente legal tabelar com as paredes do beco. Tínhamos alguns jogadores que eram exímios nessa arte. Não passavam a bola pra ninguém, só tabelavam com a parede. Às vezes esse excesso de individualismo acabava em briga.

Marcelinho era o dono da bola. Uma bola de couro legítimo número cinco. Possuir uma bola de couro, naquela época, era sinal de distinção e status. Muito mais do que um iPhone ou um BMW nos dias atuais. Esse poder costumava transformar seus donos em pessoas arrogantes, cheias de empáfia. Verdadeiros tiranos das peladas de rua. Nunca saíam do time, escolhiam os melhores jogadores para ficar em sua equipe, acabavam com o jogo quando não concordavam com a marcação de uma falta. Felizmente, isso nunca ocorreu com nosso amigo.

Jogar em um grande clube, o Inter ou o Grêmio, era o sonho de todos. Não era diferente com Marcelinho, obviamente. O problema é que ele, a despeito de sua paixão pelo futebol, tinha graves problemas físicos. Tinha as pernas tortas. Não exatamente como as de Garrincha, mas em um grau muito mais acentuado. A dificuldade para andar e correr era tremenda, lhe exigia um esforço sobre-humano.

Jogando com suas pernas tortas, sempre com uma camisa do Grêmio, o menino sonhava um dia pisar o gramado do estádio Olímpico. Mesmo com a sinceridade brutal das crianças – e éramos crianças um tanto quanto rudes –  não recordo de alguma vez alguém ter lhe dito que aquilo era impossível. Como poderia alguém com graves problemas físicos se tornar um atleta profissional? Como ele seria um jogador de futebol se mal conseguia correr?

Um dia serei jogador profissional. Vou jogar no Grêmio!”, dizia confiante, a bola embaixo do braço, as pernas formando um arco. E todos nós abaixávamos a cabeça e fitávamos o chão sem coragem de olhá-lo nos olhos.


CARLOS BARTH nasceu em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, em 1979. É engenheiro de profissão e escreve nas horas de folga. Teve trabalhos publicados nas revistas Philos, Subversa e Subjetiva. carloshenriquebarth@yahoo.com.br

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