Subversa

Medo de Mar | Helena Schoenau (Rio de Janeiro, RJ, Brasil)

Aquarela | William Soares dos Santos


Eu me dispersando pelas águas, misturando no mar a água salgada do meu rosto e deixando o corpo se esfacelar marinado na cadência das ondas pontiagudas. Os barulhos num lá longe da percepção já alucinada. Lancinante ia, fora de órbita voltava, a pulsação fluída: vi um corpo boiando. Era o meu.

Testei a respiração: nada. Pulso: nada. Pairava quase suspenso, circunspecto. Uma fotografia pueril, de uma beleza soturna aberta à contemplação. Visível graças aos primeiros raios que invadiam agora a sala de minha mãe, há pouco afogada em um negrume tal, que da cabeça aos pés lhe pesava o luto precoce pela minha morte.

Quem a visse sufocada em seu silêncio não poderia compreendê-la inerte diante de mim, como se houvesse uma moldura que lhe prendesse o olhar, fazendo-o residir num ponto fixo que era agora a sua dor, uma âncora pesada, um ponto firme no chão.

A casa, em pouco tempo, se inundava do fogo brando de cada vela que se acendia a cada um dos pêsames que lhe soava aos olhos cerrados como as mãos enérgicas no crucifixo. A pele transpirando, em penitência, no veludo negro, retesava a mente, dando ao desconforto físico ares de satisfação; uma distração à mente vazia, quando em contundente contrário da evasão meditativa.

O mundo lhe cabia no gesto simples de inclinar o pescoço e voltar para cima os olhos, caindo-lhe a resposta plausível em gotas finas e esparsas, que lhe refrescavam da multidão a quem virava as costas naquela pequena varanda dominada por sua selva doméstica. O verde esmaecido já pelo escurecer tão gradativo das primeiras horas da noite de um dia, já no fim, ainda no horário de verão. Estremecia diante do céu nublado, um véu, as vozes lá dentro, da casa, da cabeça, da memória. A minha voz morava ontem: “Socorro, mãe”.

À sua frente: imponderável. Escrito em feia caligrafia, como a minha. Lhe soava mal, lhe assombrava logo se dissolvendo na fumaça do café ou do cigarro que lhe faziam vigília madrugada adentro. Eu não queria estar na sua pele: eu só queria estar na sua pele, em um abraço forte. Ela lia. Tudo o que estava escrito em todos os meus cadernos: as últimas palavras são sempre as que a gente ainda não sabe.

Eu só queria que você soubesse que.

Como que num sobressalto, voltava à vida: um toque nos ombros recolhidos ao plexo afundado em uma cadeira de balanço. Ondulando as palavras em oração, entremeadas por cumbucas de sopa quente agarradas a mãos que lhe saltavam de soslaio acompanhadas de murmúrios de acalanto.

 


HELENA SCHOENAU é roteirista, mestranda no programa de Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio e membra do Núcleo de Dramaturgia do Sesi-RJ. Escreve para teatro, cinema e TV. Às vezes, literatura para ela mesma.

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367