Subversa

Não temo a morte, mas… | Carlos Barth (Macaé, RJ)

Estou chegando naquela idade em que a morte deixa de ser algo que só acontece com os outros e passa a ser uma vaga ameaça no horizonte. Não que esteja mal, muito pelo contrário. Acaso fosse em algum médico tenho certeza que o mesmo atestaria que estou em excelente forma. Só não vou porque doutor é danado pra achar problema onde não tem. Por via das dúvidas, vou tentando salvar o espírito e lendo os clássicos antes de partir dessa pra melhor.

Penso que lido relativamente bem com a ideia de que a vida é finita. Alguns anos estudando e tentando praticar o budismo ajudam a aceitar o inevitável, embora não tenha a sabedoria de minha filha de 6 anos que dia desses me perguntou de sopetão “Pai, quando você morrer posso ficar com seu computador?”. Achei uma postura muita elevada e um tanto quanto pragmática. Foi uma clara demonstração de que ela está melhor preparada para minha passagem do que eu mesmo. De qualquer forma, talvez seja melhor dar um tablet pra essa menina.

Já tive alguns sonhos lúcidos em que estou em meu próprio velório e são um tanto quanto pertubadores, mas a experiência mais pesada no que se refere a sentir o bafo da morte no cangote foi quando era fuzileiro naval, lá na era Mesozoica. Voávamos de Florianópolis a Pelotas num Hércules C-130 da Força Aérea quando uma das turbinas pegou fogo. Naquele dia, realmente, achei que não escaparia.

Curiosamente, a possibilidade real de óbito não me assustou. O que senti foi um misto de incredulidade, indignação e sensação de estar sendo zombado pelo destino. “Não acredito que vou morrer com 21 anos. Que sacanagem!”, era o único pensamento que me ocorria. Recordo que todos se comportaram com extrema dignidade. Não houve desespero ou choro. Se alguém aproveitou aqueles momentos de apreensão para tentar salvar a alma do purgatório, o fez em silêncio. Na hora não me ocorreu, mas poderia ter dito algo como “Homens, foi um prazer ter servido a seu lado” como nos filmes americanos. Soaria um tanto quanto canastrão, mas seria uma boa frase de despedida caso tivéssemos  nos esborrachado no chão.

Mas naquele dia a morte já devia ter batido sua cota diária de almas e não precisou levar um punhado de fuzileiros. Após duas arremetidas o piloto conseguiu pousar aquele trambolho – a saber, o Hércules C-130 – na pista ao mesmo tempo em que um caminhão dos bombeiros se aproximava e apagava o incêndio na turbina. Não foi daquela vez e espero que ainda demore um pouquinho, até porque tenho um ciúme danado desse computador.


CARLOS BARTH nasceu em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, em 1979. É engenheiro de profissão e escreve nas horas de folga. Teve trabalhos publicados nas revistas Philos, Subversa e Subjetiva. | carloshenriquebarth@yahoo.com.br

 

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Karine Santiago 2 de fevereiro de 2018 em 04:26

    Super bacana a leitura . Carlos amigo querido escreves tão bem ,forma simples e clara. Que delicia de leitura ..

    • Carlos Henrique Barth 18 de fevereiro de 2018 em 14:14

      Obrigado pelos comentários Karine e José Francisco.
      Fico muito feliz por terem lido.
      Abraço.

  2. José Francisco Vernalia 3 de fevereiro de 2018 em 08:57

    O engenheiro Carlos Barth, que aproveita as horas vagas para escrever, neste texto “Não temo a morte, mas…” descreveu com maestria a aproximação de uma situação em que a morte passou perto dele. Relatou detalhes interessantes do caso em viveu tal situação, a de um avião Hércules com uma das turbinas incendiada e com dificuldades para pousar.
    Só tenho que desejar ao Carlos meus votos sinceros de parabéns por tão bem elaborado texto descritivo de situação perigosa.
    Um abraço do
    José Francisco Vernalia

    • Carlos Henrique Barth 18 de fevereiro de 2018 em 14:31

      Muito obrigado pela leitura.
      Abraço.

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